Alta do preço do leite já é sentida no orçamento das famílias | Foto: Adriano Abreu
O litro do leite longa vida
ficou 3,66% mais caro na cesta básica de Natal de abril, segundo levantamento
do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos
(Dieese). O preço médio do item passou de R$ 6,28 em março para R$ 6,51. O impacto
já é sentido no orçamento doméstico, mas representantes do setor dizem que os
preços de venda ainda seguem os mesmos e apontam custos elevados.
O leite longa vida teve
inflação de 13,85% no Brasil em maio, liderando as pressões inflacionárias ao
consumidor no Índice Geral de Preços - 10, divulgado pela Fundação Getulio
Vargas nessa segunda(18). O índice, no entanto, não analisa os preços do RN.
O economista Ediran Teixeira,
técnico do Dieese no RN, explica que o IGP é um índice médio de inflação. Na
análise da cesta básica de alimentos, apesar de haver altas, elas não foram tão
expressivas: o preço do leite em Natal cresceu apenas 1,40% na variação de 12
meses, 3,66% no mês de abril e 6,03% no quadrimestre.
“Em relação ao ano anterior,
os preços do leite ainda estão abaixo do ritmo da inflação. É preciso esperar o
mês de maio correr para avaliar melhor essa variação. Todos os outros produtos
de alimentação estão sendo afetados, a partir de abril, pela mudança de preços
dos combustíveis”, diz Teixeira.
O economista lembra que, em
2025, o produtor de carne bovina no Brasil abateu matrizes – vacas que
reproduzem – devido a uma pressão internacional por mais carne no mercado, o
que diminuiu a produção de leite. Além disso, “neste momento estamos na entressafra
da produção de leite”.
Já o economista Ricardo
Valério, superintendente do Conselho Regional de Economia do RN (Corecon/RN),
pontua que o aumento tem relação com a alta dos combustíveis e dos
fertilizantes, no contexto do conflito no Oriente Médio.
A situação é “agravada ainda
pela dependência do Brasil do fornecimento de 85% dos fertilizantes da região
do conflito, o que está encarecendo os produtos industriais e, notadamente, os
primários, como o leite longa vida”.
Com o abate de matrizes, o
rebanho deve se recuperar lentamente, diz Valério. “Os preços devem continuar
em alta, e a situação pode ser agravada diante dos prenúncios e dos efeitos do
El Niño, que pode provocar estiagem em algumas regiões”.
A aposentada Vilma Alves e a
artesã Eliane Tomaz afirmam que o preço do leite está “um absurdo”. Elas
estavam fazendo compras em Natal nesta terça-feira (19) e disseram notar também
preços maiores em derivados do leite, como manteiga e queijo.
“Todo dia tem que ter leite
[na nossa casa]. Mas o leite, infelizmente, está muito caro”, afirma Eliane,
que consome o item e seus derivados com muita frequência por gosto e por
questões de saúde. “Em alguns supermercados tem uma promoçãozinha, mas na maioria
está muito caro”, completa Vilma.
Erivam do Carmo, presidente da
Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do
Estado do RN (Fetarn), diz que “o produtor, principalmente o agricultor
familiar, não tem sentido essa alta de preço quando se trata da comercialização
do leite para queijeiras e lacticínios”.
Segundo ele, pelo contrário, o
produtor notou um aumento significativo dos insumos, como a ração concentrada,
a torta de algodão, o farelo de milho e a soja. Outro fator que tem aumentado
os custos da produção é a mão de obra, que em algumas cidades potiguares é
escassa para uma jornada intensa no campo.
Já a Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do RN (Faern) aponta que a alta resulta de fatores conjunturais e estruturais, como a recomposição de preços ao produtor. “No meio rural, os custos seguem elevados, sobretudo com alimentação animal, energia elétrica, combustíveis e logística. Na atividade leiteira, a energia tem peso importante, enquanto os combustíveis impactam tanto o transporte da produção quanto os insumos utilizados nas propriedades”, frisa a entidade.
Fernando Azevêdo/Repórter
Tribuna do Norte

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