domingo, 31 de maio de 2026

Do hobby ao negócio: mercado de games ganha espaço no RN

Potiguares começam a transformar o que antes era visto apenas como hobby em profissão - Foto: Magnus Nascimento/TN

Quando entrou na Arena das Dunas para ver um campeonato de Free Fire, Pablo Roberto tinha apenas 15 anos e nenhuma pretensão profissional. Morador do bairro Bom Pastor, zona Oeste de Natal, ele havia ido ao evento como espectador. No fim da programação, porém, uma competição foi aberta para o público presente. Pablo participou, venceu a partida e chamou a atenção de uma das equipes que disputavam o torneio.

Hoje, aos 19 anos, conhecido como Peter, ele vive como jogador profissional de Free Fire. Desde os 17 anos mora em São Paulo, onde atua por uma das principais organizações de esportes eletrônicos do País e disputa a Liga Brasileira da modalidade. “Comecei a jogar só por brincadeira, com a galera da rua e da escola. Mas sempre me saía melhor que meus amigos. Depois do campeonato na Arena que comecei a levar a sério”, conta.

Peter é um dos principais jogadores de Free Fire do País - Foto: Reprodução

Os resultados vieram rápido. Em seu primeiro ano como profissional, Peter conquistou vaga para o Mundial de Free Fire disputado no Rio de Janeiro. No ano seguinte, voltou a se classificar e disputou a competição internacional na Arábia Saudita. Agora, busca uma nova classificação para a edição que acontecerá na França. “Além de você estar vivendo do que gosta, você tem a oportunidade de mudar de vida. Eu consegui ir para a Arábia. Nunca passou pela minha cabeça isso”, afirma.

Se os games levaram Peter dos campeonatos locais aos mundiais de Free Fire, eles abriram um caminho diferente para Eugênio Filho. Em vez das competições, foi na criação de conteúdo que o potiguar encontrou uma profissão. Atualmente, o jovem de São Paulo do Potengi vive da produção de vídeos sobre Valorant e integra uma geração que transformou o videogame em trabalho.

Aos 28 anos, Eugênio, que virou “EuJegue” nas redes, vive da produção de conteúdo sobre Valorant, um dos jogos mais competitivos da atualidade. Entre TikTok, Instagram, YouTube e Twitch, ele acumula milhares de seguidores, mantém parcerias com grandes marcas e participa regularmente de eventos nacionais e internacionais. Além disso, o potiguar tornou-se parceiro da própria Riot, desenvolvedora do jogo.

Eugênio participa de eventos e campeonatos como produtor de conteúdo de Valorant - Foto: Reprodução

“Parecia um sonho muito distante, ganhar dinheiro jogando videogame, ainda mais no interior do RN. Quando surgiu esse sonho, aqui mal tinha internet, não conseguia nem ver vídeo direito no YouTube. Mesmo sendo algo muito improvável, eu sentia que o sonho permanecia ali, e foi assim durante muito tempo”, conta o criador de conteúdo.

Eugênio começou a construir o sonho quando estava em Natal, onde se formou em design gráfico e trabalhou como atendente de telemarketing. Ele voltou para a cidade natal em 2021 e resolveu investir em um computador melhor para tentar produzir conteúdo de forma mais séria. “Decidi arriscar. Era pandemia, as pessoas passaram a ficar em casa. Comecei a estudar o mercado, as lives faziam muito sucesso, mas eu gostava mais de fazer vídeos curtos”.

O crescimento começou depois que um vídeo publicado no TikTok ultrapassou 300 mil visualizações. Aos poucos, vieram os contratos com marcas, o aumento do público e o reconhecimento dentro da comunidade de Valorant. A virada mais simbólica aconteceu quando recebeu um convite da Riot Games para participar de um evento em Paris. “Foi uma experiência que não teria se não fosse pelo jogo”, acrescenta.

Games movimentam nova economia

As trajetórias de Peter e Eugênio ajudam a ilustrar um movimento de crescimento dos games e dos esportes eletrônicos como uma nova frente da economia criativa potiguar. O segmento, que inclui campeonatos, eventos, produção de conteúdo, desenvolvimento de jogos e iniciativas de capacitação, atrai jovens do Estado, que começam a transformar o hobby em profissão, renda e oportunidade de negócio.

Alguns indicadores ajudam a ilustrar o crescimento do setor. Em janeiro deste ano, a empresa potiguar Digicom inaugurou, com o Sebrae-RN, o primeiro Hub de Games e e-Sports do Nordeste, espaço que funciona como um centro de treinamento em Natal e já reúne cerca de 150 jogadores ativos em diferentes modalidades.

Em 2024, o RN passou a contar com uma legislação específica para os esportes eletrônicos. Em paralelo, foi fundada a Federação de Esportes Eletrônicos do RN (FERN), que conta atualmente com 15 times filiados atuando em jogos como Valorant, League of Legends, Free Fire, Tekken, Brawl Stars e eFootball.

O contexto puxa iniciativas voltadas à inovação e ao empreendedorismo criativo. Segundo Isabela Cavalcanti, analista técnica de Negócios, Inovação e Tecnologia do Sebrae-RN, o suporte da instituição ajuda a fortalecer e expandir projetos ligados ao setor. “A Digicom contou com o suporte estratégico do Sebrae-RN, por meio de programas voltados à inovação. Esses programas contribuem para que as empresas aprimorem o modelo de negócio e para a expansão das operações”, pontua.

Em Natal, esse cenário ganhou novos contornos nos últimos 10 anos. Eventos voltados à cultura gamer passaram a reunir milhares de pessoas, startups surgiram no setor e projetos de formação começaram a estruturar um ecossistema ainda recente, mas em expansão.

Participantes jogam videogame na edição 2025 da GGCON - Foto: Bia Azevedo/Reprodução

Um dos principais exemplos é a GGCON, festival de games, cultura geek e esportes eletrônicos criado em 2017. O evento nasceu inicialmente como um encontro entre amigos que jogavam online e acompanhavam animes, mas rapidamente cresceu até se tornar um dos maiores do Nordeste. “É um dos principais eventos do segmento, atraindo mais de 50 mil participantes”, afirma Rodrigo Machado, fundador do evento.

O evento também movimenta uma cadeia econômica que vai além dos jogos. De acordo com Rodrigo, cerca de 30 lojistas de diferentes regiões do País participam da feira comercial da GGCON, o que gera aproximadamente R$ 3 milhões em negócios durante o festival. “Nosso mercado é muito amplo e consegue estar em várias frentes: eventos, criação de conteúdo, desenvolvimento de jogos, prestação de serviços”, afirma.

Além dos campeonatos e da produção de conteúdo, o mercado também vem criando novas oportunidades profissionais em áreas como design, transmissão, marketing, psicologia esportiva, desenvolvimento de software e organização de eventos. “O corpo do trabalho é muito parecido com o do esporte tradicional”, afirma Rodrigo Machado. “Você tem profissionais de transmissão, estrutura, gestão, arbitragem, patrocinadores e toda uma rede trabalhando para que tudo aconteça”.

Inauguração de Hub de Games

A profissionalização do cenário também passa pela criação de estruturas permanentes de treinamento e capacitação. Em janeiro deste ano, Natal ganhou o primeiro Hub de Games e e-Sports do Nordeste, criado pela Digicom com apoio do Sebrae-RN.

A empresa foi fundada em 2016 por Tábata Diniz e Renan Gomes inicialmente com foco na organização de campeonatos amadores. Ao longo dos anos, porém, o projeto ampliou a atuação para formação de jogadores, desenvolvimento de eventos e fortalecimento do cenário competitivo no estado.

Tábata Diniz é CEO da Digicom e presidente da FERN - Foto: Magnus Nascimento/TN

“A gente percebeu que existia o campeonato, existia o menino talentoso, mas faltava continuidade. Precisava nascer uma base, precisava ter formação, orientação e estrutura para quem queria seguir nesse mercado”, afirma Tábata, que também preside a Federação de Esportes Eletrônicos (FERN).

Hoje, o Hub reúne cerca de 150 jogadores de diversas modalidades. Além dos campeonatos e treinamentos, o espaço oferece assessoria de imagem, acompanhamento psicológico, orientação jurídica e suporte para quem deseja ingressar no mercado competitivo. “A gente tenta mostrar que isso precisa ser encarado como profissão. O jogador só quer jogar, mas ele também precisa aprender a se posicionar, entender redes sociais, contratos e patrocinadores”, explica.

Segundo Tábata, o Estado já começa a colher resultados desse processo de formação. Alguns jogadores revelados em campeonatos escolares e circuitos locais foram contratados por equipes profissionais nacionais e chegaram a disputar torneios internacionais.

Reconhecimento institucional

O Hub tornou-se uma oportunidade para quem enxerga nos games uma possibilidade real de carreira. É o caso do natalense Lucas Henrique, de 21 anos, jogador amador de Valorant. Ele participa de campeonatos regionais e sonha em alcançar o cenário nacional competitivo junto da própria equipe. “Esses eventos que acontecem aqui fazem crescer ainda mais a vontade das pessoas de começarem a jogar e participar”.

Maria do Carmo, conhecida como “Mazynha”, também vê nos games uma possibilidade de transformação profissional. Moradora de Macaíba, ela trabalha atualmente em uma gráfica, mas deseja viver exclusivamente do cenário competitivo. “Meu sonho é focar em algo que possa me dar um nome, mudar minha realidade”, afirma.

Lucas Henrique quer crescer no Estado para competir nacionalmente - Foto: Magnus Nascimento/TNMaria sonha em trabalhar profissionalmente na indústria dos games - Foto: Magnus Nascimento/TN

O fortalecimento desse ecossistema também começa a ganhar reconhecimento institucional no estado. Em 2024, o Rio Grande do Norte sancionou a Lei nº 11.796, que regulamenta a prática esportiva eletrônica e reconhece oficialmente os praticantes como atletas. A legislação estabelece diretrizes voltadas à inclusão, socialização, desenvolvimento intelectual e incentivo ao esporte eletrônico no Estado, além de prever apoio a federações, ligas e entidades do setor.

Para Tábata Diniz, a regulamentação representa um passo importante para consolidar o mercado local. “Esse reconhecimento ajuda a abrir portas, fortalecer projetos e mostrar que os esportes eletrônicos são também uma atividade profissional e econômica”, afirma.

Bruno Vital/Repórter

Tribuna do Norte

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