A mobilização tem caráter nacional e envolve trabalhadores vinculados à Empresa de Serviços Hospitalares (EBSERH) | Foto: Magnus Nascimento
Servidores de hospitais
universitários entraram em greve na última segunda-feira (30), em todo o país,
e a paralisação já impacta os atendimentos no Rio Grande do Norte, com
consultas, exames e cirurgias eletivas funcionando de forma parcial. O
movimento foi deflagrado após impasse nas negociações salariais e
reivindicações por reajuste, reposição de perdas e melhorias no
vale-alimentação.
A mobilização tem caráter nacional e envolve trabalhadores vinculados à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), responsável pela administração dos hospitais universitários federais. Assembleias realizadas no RN e em mais de 45 hospitais da rede, aprovaram greve por tempo indeterminado. A Ebserh foi procurada pela reportagem, mas não respondeu até o fim dessa edição.
No estado, a paralisação
atinge os três hospitais universitários vinculados à EBSERH: o Hospital
Universitário Onofre Lopes e a Maternidade Escola Januário Cicco, ambos em
Natal, além do Hospital Universitário Ana Bezerra, localizado em Santa Cruz. A
categoria está mantendo percentual de trabalhadores nas UTIs e nos serviços
essenciais.
Entre as pautas apresentadas
pela categoria estão o reajuste salarial, a reposição de perdas acumuladas em
cerca de 25%, a ampliação de benefícios como cesta básica e
auxílio-alimentação, além de avanços nas cláusulas sociais.
José Maria dos Santos, de 46
anos, relata que teve exames e consultas remarcados por causa da greve, o que
deve adiar em até quatro meses o acompanhamento de um problema crônico nos
rins. “Já fazia seis meses que eu esperava pelo retorno. Agora disseram que só
vai ter para junho”, afirmou,.
Ele destaca que depende do
atendimento para seguir o tratamento e não tem condições de arcar com os
exames. “São muitos exames, não tem como sair do bolso. A gente depende disso”,
disse.
Julica Francisca da Silva, de
66 anos, veio de Florânia para fazer exames no HUOL e foi afetada pela
paralisação. Ela relata que não conseguiu realizar os exames previstos pelo SUS
devido à greve. “Disseram que eu ia fazer hoje, mas cheguei aqui e não consegui”,
revela, frustrada.
Segundo Julica, os
atendimentos foram remarcados, mas sem vagas imediatas. “Só consegui remarcar
para mais pra frente. Agora vou voltar para casa”, disse. Ela destaca que
realiza acompanhamento médico regular e precisa de vários exames por problemas
de saúde.
Julica Francisca: “Não há vagas
imediatas” | Foto: Magnus Nascimento
De acordo com os
trabalhadores, a greve foi deflagrada após dois anos de negociações. A
categoria afirma que a empresa alegou não possuir diretrizes orçamentárias para
apresentar proposta financeira e, ao mesmo tempo, interrompeu discussões sobre
cláusulas sociais, que não teriam impacto econômico. Após o início da
paralisação, foi apresentada uma proposta de reajuste com base apenas na
inflação medida pelo INPC.
Outro ponto de insatisfação
diz respeito aos reajustes concedidos à diretoria da empresa. Segundo o
Sindicato Estadual dos Trabalhadores de Empresas Públicas de Serviços
Hospitalares (Sindserh-RN), uma semana antes da greve, a gestão do hospital
aprovou para si aumento de 4,26%, com salários que ultrapassam R$ 30 mil, além
da elevação do auxílio-moradia de cerca de R$ 4,7 mil para quase R$ 9 mil.
Também foi ampliada a chamada Remuneração Variável (RVA), que pode chegar a
cerca de R$ 200 mil anuais.
Os trabalhadores também
reivindicam a contratação de mais profissionais, apontando sobrecarga e
adoecimento físico e psicológico. Segundo André Santos, presidente do
Sindserh-RN, a decisão de manter a greve ocorreu após a rejeição, em
assembleias em todo o país, da proposta apresentada pela EBSERH durante
mediação no Tribunal Superior do Trabalho (TST).
A categoria considerou
insuficiente o reajuste baseado apenas na inflação, sem reposição das perdas
acumuladas. “Houve mais uma mediação do TST, e a proposta da empresa foi apenas
a inflação do período, que não recompõe os mais de 26% de prejuízo que a categoria
vem acumulando”, conta.
Ele destacou ainda que parte
dessas perdas ocorreu durante a pandemia, quando os trabalhadores estavam na
linha de frente. “Até o presente momento, é vergonhoso como estão tratando o
movimento legítimo dos trabalhadores da saúde que reivindicam melhor condição
de alimentação para suas famílias”, disse.
O presidente também criticou a
diferença entre os reajustes concedidos à diretoria dos hospitais e aos
servidores. “A diretoria se deu um reajuste com base no IPCA para o presidente
da empresa”, afirmou.
Além disso, ele apontou a criação da remuneração variável como mais um fator de insatisfação. “Eles justificam essa remuneração com base na produtividade dos trabalhadores, que estão salvando vidas, atendendo usuários do SUS e formando novos profissionais de saúde. E essa diretoria é que ganha produtividade em cima dos esforços dos trabalhadores”, declarou

Nenhum comentário:
Postar um comentário