sábado, 28 de fevereiro de 2026

Energia limpa sem política clara é oportunidade desperdiçada

Foto: Alex Régis

A caducidade da medida provisória que instituía o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, expõe um desencontro entre Executivo e Legislativo que revela a dificuldade do País de transformar vantagem comparativa em estratégia de desenvolvimento. O projeto de lei aprovado na Câmara dos Deputados no último dia, acabou engavetado pelo Senado. Ao deixar expirar o programa por falha de articulação política, o Congresso e o governo enviam ao mercado um sinal de incerteza quando decisões bilionárias de investimentos exigem previsibilidade regulatória.

O Redata pretendia reduzir a carga tributária sobre equipamentos e condicionava os benefícios ao uso integral de energia renovável. Em um mundo no qual a demanda por processamento de dados cresce impulsionada por inteligência artificial, serviços financeiros e plataformas digitais, o Brasil reúne condições objetivas para disputar parte relevante desse investimento global. A exigência de suprimento 100% renovável é estratégico para o Nordeste.

Estados nordestinos compreenderam a janela de oportunidade. A Bahia integra diferimento de ICMS a seus polos industriais. Pernambuco estruturou pacotes específicos de incentivos para infraestrutura digital e inteligência artificial. O Ceará, beneficiado por cabos submarinos e pela estrutura do Porto do Pecém, opera regimes especiais que facilitam importações e atraem hubs tecnológicos. Ali, a Omnia, ligada à Pátria Investimentos, iniciou projeto associado à ByteDance e à Casa dos Ventos, com investimentos previstos na casa das centenas de bilhões de reais ao longo da próxima década.

No Rio Grande do Norte, a vantagem energética é inequívoca. O Estado lidera a geração eólica no País e expandiu sua base solar. O complexo Assú Sol, da Engie Brasil Energia, soma 753 megawatts e recebeu R$ 3,3 bilhões em investimentos. Paradoxalmente, enfrenta restrições de despacho impostas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico diante da sobreoferta diurna. O excedente renovável, que deveria ser trunfo competitivo, converte se em perda de receita.

Data centers poderiam funcionar como âncoras de consumo estável, absorvendo parte dessa energia hoje desperdiçada. A própria Engie avalia soluções como armazenamento por baterias e estruturas voltadas à mineração digital para reduzir impactos dos cortes de geração. O movimento revela que o setor busca alternativas enquanto aguarda ajustes no mercado elétrico

Ao mesmo tempo, atenderiam à exigência ambiental que o próprio Redata estabelecia. Com instrumentos como o Proedi e discussões sobre novos incentivos estaduais, o RN busca se posicionar na disputa. Mas capital é móvel e decisões são rápidas. Sem um marco federal claro, o risco é assistir a investimentos migrarem para outras geografias mais previsíveis.

O projeto original do Redata exige que 100% da demanda elétrica do data center seja suprida por fontes renováveis para que a empresa mantenha os benefícios federais. Como o RN é líder nacional em energia eólica e solar, os data centers que se instalarem aqui cumprem essa exigência com custos de transmissão e energia muito menores do que em outras regiões.

Agora, o governo estuda uma forma de aprovar uma legislação que garanta os incentivos previstos no projeto original. A responsabilidade é compartilhada. O Senado não pode tratar tema estratégico como peça de barganha circunstancial. O Executivo tampouco pode subestimar a necessidade de articulação política em matéria que envolve planejamento de longo prazo. Infraestrutura digital não é pauta setorial. É base da produtividade, da inovação e da inserção internacional do País.

O Brasil precisa decidir se quer ser mero exportador de energia limpa ou protagonista na economia digital que ela viabiliza. Para o Nordeste, e em especial para o Rio Grande do Norte, trata se de converter vento e sol em empregos qualificados, arrecadação e tecnologia. Sem coordenação entre governo e Congresso, continuará sendo apenas potencial.

Tribuna do Norte

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