Em 2023, a arquiteta e urbanista Mayara Almeida descobriu um linfoma de Hodgkin depois de um período de seis meses de investigação por causa de alguns incômodos e do surgimento de linfonodos na região do pescoço. Com o diagnóstico, o tratamento foi iniciado, mas ainda assim, a doença não parou de avançar. Foi então que Mayara foi submetida a um transplante autólogo de medula óssea, procedimento em que são utilizadas as células-tronco do próprio paciente – sem a necessidade de um doador, portanto – e que permitiu à urbanista voltar a celebrar uma vida nova, cheia de planos e gratidão.
No Estado, o procedimento é
realizado por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) em Natal, no Hospital Rio
Grande e na Policlínica do Alecrim, unidade da Liga Norteriograndense Contra o
Câncer, onde, desde 2023, foram realizados 67 transplantes do tipo. O médico
hematologista Antônio Henrique Resende, que atua na Policlínica, explica como
acontece o tratamento. “A célula-tronco do paciente é coletada antes de ele ser
submetido a uma quimioterapia de alta intensidade”, detalha.
“Isso ocorre porque a
quimioterapia vai destruir toda a medula óssea. Para a coleta, é feito um
estímulo à produção das células-tronco, as quais saem para o sangue, onde
acontece o processo de aférese”, acrescenta o médico. No referido processo, o
sangue do candidato ao transplante passa por uma máquina para a captação das
células-tronco e é devolvido em seguida. O material captado é armazenado a
menos de 80ºC para que seja mantida a viabilidade da célula.
Depois da coleta, o paciente é
encaminhado à quimioterapia para, ao fim das sessões, receber a célula-tronco
captada. “A quimioterapia destrói a imunidade por 12 a 15 dias em média,
derruba as plaquetas e causa anemia, o que vai demandar a necessidade do
paciente de receber transfusão de sangue. Isso gera um grande risco de infecção
se comparado ao transplante alogênico”, aponta o hematologista.
Segundo Resende, as principais
indicações do transplante autólogo são o mieloma múltiplo e alguns tipos de
linfomas no contexto de doença refratária recidivada, ou seja, quando o câncer
retorna depois de o paciente apresentar bom quadro depois de tratado. Pacientes
que não oferecem nenhuma resposta ao tratamento também recebem tal indicação.
“Essa é a regra geral, mas pode haver casos específicos em que, mesmo havendo
boa resposta à quimioterapia, o transplante autólogo é indicado”, pontua.
O médico esclarece que, no
caso do mieloma múltiplo, o transplante autólogo não provoca a cura da
neoplasia, mas é indicado para permitir que a doença fique “adormecida” por um
tempo maior. “O procedimento permite um período de cerca de quatro sem que a doença
se manifeste. Do contrário, apenas com outros tratamentos, esse prazo é
reduzido para dois anos, em média”, explica.
O transplante alogênico
raramente é recomendado para o mieloma, por conta dos altos riscos para o
paciente. Por outro lado, para os casos de linfoma de Hodgkin, o transplante
autólogo é usado para cura. Acometida pela neoplasia, a arquiteta Mayara Almeida,
de 34 anos, percorreu um longo caminho até que houvesse o tratamento com as
próprias células-tronco. “Como tratamento inicial foram 12 sessões de
quimioterapia, mas o linfoma se mostrou mais avançado se apresentado na região
do tórax e na cervical”, conta.
Rejeição inexistente
De acordo com o hematologista
Antônio Henrique Resende, não há risco de rejeição no transplante autólogo, uma
vez que são utilizadas as células do próprio paciente. No entanto, segundo ele,
existe a possibilidade de falha de enxertia, que ocorre quando a medula não
pega (no caso da rejeição, o sistema imunológico do receptor destrói a medula
nova). Felizmente, a falha de enxertia, aponta o especialista, é pouco comum.
“É algo raro de acontecer, uma vez que a pessoa só é submetida ao procedimento
se for coletada uma quantidade mínima de células-tronco, capazes de garantir o
sucesso do procedimento”, diz.
A quantidade mínima de células
depende de variados fatores, dentre eles, o peso do paciente. Outro aspecto que
garante a segurança do procedimento é o fato de que o linfoma de Hodgkin não é
uma doença que acomete a medula óssea. “Já o mieloma é circular e pode afetar a
medula. Talvez seja por isso que o transplante autólogo não garante a cura
dessa neoplasia, mesmo com as sessões de quimioterapia de alta intensidade, as
quais debelam ao máximo a doença”, aponta o hematologista.
Para Mayara Almeida, o
transplante autólogo se apresentou como alternativa à progressão da doença, mas
o processo não foi simples. “Antes, eu precisava de uma medicação para
imunoterapia, o que requereu judicialização. Foram cinco meses nesse processo.
Enquanto esperava, fiz dois protocolos de quimioterapia. O tratamento por
imunoterapia foi iniciado somente no ano passado, com oito ciclos. Porém, o
câncer estava pior, porque tinha se espalhado para parte do abdômen”, relata a
arquiteta.
Por conta disso, o médico
passou a considerar o transplante alogênico no lugar do autólogo. A família
chegou a fazer testes de compatibilidade. “Porém, depois do quinto protocolo de
tratamento, que combinou imunoterapia e quimioterapia, entrei em remissão,
então, a recomendação de uso das minhas células-tronco foi retomada”, falou
Mayara. Segundo ela, a indicação a deixou bem mais tranquila.
Hematologista Antônio Henrique: não
há risco de rejeição. | Foto: Magnus Nascimento
“Foi um alívio, porque o
alogênico é bem mais complexo, com um período de internação maior, e requer um
período mais amplo para a medula pegar. A recuperação também é mais difícil,
sem falar que existe a questão da dependência de um doador que, embora eu não
tenha enfrentado dificuldades porque tanto meus pais quanto minha irmã foram
compatíveis, é algo que pode ser um complicador para os pacientes”, comentou a
arquiteta.
O hematologista Antônio
Henrique Resende afirma que a indicação para o transplante autólogo não
interfere na fila de espera pelo alogênico, mas representa mais uma
oportunidade para os pacientes com câncer que podem adotar essa forma de
tratamento. “Foi nesse cenário que a Liga entrou. A oferta integral desse tipo
de transplante era um sonho antigo nosso, porque antes, para fazer a reinserção
da medula, o paciente precisava sair para outra unidade”, disse.
Em outubro do ano passado, a
Liga conseguiu ampliar de um para cinco o número de leitos montados no serviço
de Transplante de Medula Óssea (TMO), que funciona na Policlínica do Alecrim, o
que permitiu expandir a quantidade de transplantes realizados. “Até então, a
gente conseguia fazer, no máximo, dois procedimentos por mês, levando em conta
que o tempo médio de internação de um paciente, nesses casos, é de 15 a 21
dias. Hoje temos cinco leitos montados, com potencial de ampliar para 11, o que
deve aumentar ainda mais nossa capacidade”, explica Resende.
A Liga conta ainda com uma
equipe exclusiva para o serviço de TMO, composta por profissionais como
enfermeiros, técnicos de enfermagem, psicólogos, dentista e nutricionista. O
encaminhamento ao setor é feito por um médico da própria Liga ou por um profissional
de uma unidade externa. “Todos os exames necessários para o transplante são
feitos pelo SUS sem custo algum para o paciente”, esclarece Antônio Henrique
Resende.
Ação de graças
Depois de encarar uma longa
jornada de tratamentos para combater o linfoma, Mayara Almeida quer mais é
agradecer. O procedimento foi realizado em 29 de dezembro de 2025. A arquiteta
conta que o dia 8 de janeiro lhe reservou, a partir deste ano, motivos em dobro
para celebrar: além de ser o aniversário dela, foi a data em que ocorreu a
chamada “pega da medula”. A rotina de ida ao hospital continua intensa – até a
última quarta-feira (4), ela precisava ir à Liga a cada sete dias para revisão.
Como os resultados dos últimos exames foram positivos, agora ela terá que
retornar a cada 15 dias.
“À medida que a melhora vai se
concretizando, esse acompanhamento também vai ficando um pouco mais espaçado”,
fala. Feliz com a nova fase, Mayara já tem planos para breve. “Após 60 dias, há
uma espécie de validação de que tudo, de fato, deu certo. Quando isso
acontecer, quero uma missa em ação de graças, porque, sem dúvida alguma, minha
fé me curou. Tudo melhorou depois que eu me aproximei de Deus”, comenta,
agradecida.
Felipe Salustino/Repórter

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