A pesquisa revelou ainda que
9,2% das famílias em Natal ainda recorrem a instrumentos de alto custo, como o
cheque pré-datado e o cheque especial, o que agrava o risco de inadimplência em
caso de perda de renda. Apesar disso, o tempo médio de atraso caiu para 42
dias, abaixo da média nacional, que é de 64 dias.
Para o economista William Figueiredo, o uso do cartão de crédito está enraizado
na cultura da população brasileira, que enxerga vantagens em opções como o
crédito rotativo — que permite comprar hoje e pagar dentro de até 30 dias — e o
parcelamento, muitas vezes sem juros. “O uso do cartão é um instrumento
financeiro que existe para ajudar as famílias, a sociedade a fazer uma melhor
gestão dos seus recursos. Ele só vai se tornar um problema a partir do momento
que você não tem controle sobre os seus gastos”, explica o economista.
A autônoma Maria Vanessa já teve a experiência de comprar no cartão de crédito
e perder o controle de seus gastos mensais. “Quando eu compro no cartão, não
tenho a noção de estar pegando dinheiro. Então vou gastando como se não
houvesse amanhã. Quando chega a fatura, eu digo: ‘Meu Deus, para que fui fazer
isso?’”, disse, enquanto escolhia vestidos em uma loja de roupas no bairro
Cidade Alta.
Já o enfermeiro Edinaldo Gomes conta que não costuma usar o cartão de crédito e
que é organizado com as finanças, mas frequentemente empresta o cartão para
familiares que não têm limite de crédito disponível: “A pessoa já está
acostumada e quer comprar, mas sabe que, seja no débito ou no crédito, tem que
pagar no dia certo. E essas pessoas que parcelam no meu cartão já sabem que são
elas mesmas que vão pagar depois”, afirma.
O estudo também destaca fatores que seguem pressionando o consumo das famílias
potiguares. A inflação persistente em serviços essenciais — como energia
elétrica e alimentação fora do lar —, combinada à taxa Selic elevada (15% em
julho de 2025) e à queda de 1,6% na renda média do trabalhador no Rio Grande do
Norte (R$ 2.448, segundo a Pnad Contínua do IBGE), dificulta o alívio nas
finanças.
De acordo com o levantamento, o mercado de crédito vem registrando uma
desaceleração nas concessões para pessoas físicas, o que aponta para um
comportamento mais cauteloso tanto por parte das instituições financeiras
quanto dos consumidores. A taxa média de juros ao consumidor segue em alta pelo
quinto mês consecutivo, reforçando a necessidade de atenção aos indicadores de
inadimplência.
“Particularmente no Rio Grande do Norte a gente está tendo um aumento
considerável da geração de emprego. Eu coloco isso na conta do próprio aumento
da taxa de juros. O crédito está mais caro. A taxa básica de juros hoje no
Brasil está em 15%”, analisou o economista William Figueiredo.
No curto prazo (de 2 a 3 meses), a tendência é de manutenção ou leve recuo no
endividamento. No médio prazo (6 a 12 meses), eventuais cortes na Selic e datas
sazonais de consumo podem reaquecer o crédito, exigindo maior vigilância sobre
o risco de inadimplência.
O relatório da CNC também alerta para 2026: caso o comprometimento da renda
familiar — atualmente em 34,6% da renda média no RN — volte a subir, há risco
de retomada da inadimplência estrutural.
Figueiredo recomenda que a população evite utilizar múltiplos cartões de
crédito, pois isso pode dificultar o controle das finanças pessoais. A
orientação é concentrar os gastos em poucos instrumentos financeiros. “Se eu
somar meu cartão de crédito, meus carnês, minhas contas do mês, o quanto isso
está consumindo da minha renda? Se essa dívida for superior a 30%, tem que
estar mais atento, mais alerta”, reforça.
Endividamento cai em Natal,
mas segue em patamar elevado
O percentual de famílias endividadas em Natal caiu de 86,4% em julho de 2024
para 83,5% no mesmo mês de 2025, segundo a Peic. Apesar da retração, o
Instituto Fecomércio RN alerta que o nível ainda é elevado, indicando que a
maioria das famílias da capital potiguar continua convivendo com algum tipo de
débito.
A inadimplência também apresentou melhora: 40,1% das famílias declararam estar
com contas em atraso, uma queda expressiva em relação aos 52,2% do ano
anterior. Ainda mais significativo, apenas 1,6% disseram não ter condições de
pagar suas dívidas vencidas, um índice muito abaixo da média nacional (12,7%) e
também inferior ao observado em capitais vizinhas, como Fortaleza e Recife.
“A queda na inadimplência de Natal está diretamente ligada ao aumento da
formalidade do mercado de trabalho. No ano passado o RN bateu recordes de
geração de empregos. Esse ano já foram quase 7 mil empregos gerados nesses
primeiros seis meses”, disse o economista William Figueiredo.
Tribuna do Norte

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