Ex-presidente da Bolívia em 2001 e 2002, Jorge “Tuto” Quiroga, considerado de uma direita mais radical, tem aparecido à frente nas pesquisas, seguido por Samuel Doria Medina, considerado de direita mais moderada. Com cerca de 12 milhões de pessoas, a nação andina faz fronteira com quatro estados brasileiros.
O racha no Movimento ao
Socialismo (MAS) – partido que lidera o país desde 2006 – pode consolidar o fim
do ciclo de governos de esquerda no país sul-americano que já dura 19 anos.
O ex-presidente Evo Morales,
impedido de participar do pleito, vem pregando o voto nulo. Nesse cenário, os
principais candidatos ligados à esquerda aparecem mais atrás nas pesquisas,
ambos desgastados pela associação com o MAS – há quase 20 anos no poder em meio
a uma persistente crise econômica.
Os candidatos da esquerda são
Andrónico Rodríguez, atual presidente do Senado, e Eduardo del Castillo,
ex-ministro do atual governo de Luis Arce, do MAS, que desistiu de se reeleger
em meio à baixíssima aprovação do governo. Se não houver mudanças, os dois
candidatos da direita é que devem ir ao segundo turno, marcado para o dia 19 de
outubro
Incertezas
Porém, o alto índice de votos indefinidos, entre nulos, brancos e indecisos, e
dúvidas sobre voto rural, historicamente mais difícil de medir na Bolívia,
adicionam elementos de incertezas sobre os resultados deste domingo.
A doutoranda em ciência
política na Universidade de São Paulo (USP) Alina Ribeiro ponderou à Agência
Brasil que as pesquisas na Bolívia costumam não ser muito precisas.
“Nas eleições de 2020, o apoio
ao Luis Arce foi muito subnotificado. Eu acho que essa fração da população que
está indecisa, ou que vai votar nulo ou branco, ela é primordial para os
resultados da eleição”, avalia a pesquisadora do Núcleo de Democracia e Ação
Coletiva do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (NDAC-Cebrap).
A pesquisa mais recente,
publicada na sexta-feira (15) pela AtlasIntel, mostra que 23% da população
indicou voto branco, nulo ou ainda não sabe em quem votará.
Favoritos
O candidato que aparece à frente nas pesquisas, Tuto Quiroga, foi ministro da
Fazenda em 1992 e eleito vice-presidente da Bolívia em 1997. Em 2005, na
primeira eleição que o MAS ganhou, ele ficou em segundo lugar, perdendo para
Evo. O candidato tem sinalizado que, se vencer as eleições, vai romper relações
com Venezuela, Cuba e Irã, mas admitiu que vai manter a Bolívia como membro
parceiro do Brics, devido ao vínculo comercial com China e Índia.
Em entrevista à CNN, Tuto
questionou a participação da Bolívia no Mercosul e propôs um acordo com Chile e
Argentina para exploração do lítio, mineral fundamental para indústria da
tecnologia. Estima-se que as maiores reservas do mineral estejam nesses três
países latino-americanos.
O candidato usa linguagem
semelhante ao presidente argentino, Javier Milei, ao citar que usará uma
“motosserra” para cortar gastos públicos. O equipamento foi uma das marcas do
presidente ultraliberal da Argentina durante a campanha.
“Motosserra, facão, tesoura e
tudo o mais que você encontrar. É um desperdício e um roubo sem fim aqui. Hoje,
o governo boliviano custa 11 vezes mais do que custava quando esses infelizes
começaram, 20 anos atrás”, disse.
A pesquisadora Alina Ribeira
acrescentou que Jorge “Tuto” Quiroga vem falando em fazer reformas econômicas,
judiciais e constitucionais. “Prometeu ainda soltar o Luiz Fernando Camacho.
Essa é uma posição muito simbólica pelo que ele representa. Tuto olha para o
Camacho como um preso político”, disse.
Camacho foi governador da
província de Santa Cruz, na Bolívia, e preso por participar dos motins de 2019
que levaram à renúncia do presidente Evo Morales, episódio considerado um golpe
de Estado.
Medina
Em seguida, nas pesquisas, aparece Samuel Doria Medina, que tem se apresentado
como um político mais moderado. Ele é um megaempresário boliviano da indústria
do cimento, da hotelaria, alimentação e tem grandes propriedades imobiliárias.
Medina já se candidatou à
Presidência duas vezes, ficando em segundo lugar em 2014. Ele promete
estabilizar a economia da Bolívia em 100 dias de governo.
“O problema econômico da
Bolívia é fundamentalmente fiscal. Este ano, o déficit fiscal é superior a 10%.
Nenhuma economia pode sustentar um déficit dessa magnitude. O déficit deve ser
corrigido. Praticamente metade desse déficit são os subsídios para gasolina e
diesel. Na Bolívia, um litro de gasolina ou diesel custa 25 centavos”, disse em
entrevista ao Infobae.
Esquerda rachada
A esquerda boliviana rachou após a divisão da legenda entre os apoiadores do
ex-presidente Evo Morales e do atual presidente Luis Arce. O candidato do atual
presidente, o ex-ministro Eduardo del Castillo, que vinha amargando 2% das
intenções de votos em pesquisa do jornal El Deber, chegou a pontuar 8,1% na
última pesquisa da AtlasIntel.
Andrónico também perdeu apoio
de algumas organizações de base do MAS por manter na sua chapa, como vice, a
ex-ministra de Planejamento Mariana Prado.
O líder cocaleiro indígena
mostrou alguma recuperação na pesquisa da AtlasIntel, chegando a 11%. Em
pesquisas anteriores, ele pontuaram 8% nas intenções de votos.
“São mudanças relevantes nas
pesquisas, mas elas ainda não colocam a esquerda em pé de igualdade com a
direita”, comentou Alina. Para a especialista em Bolívia, foi um erro o MAS não
ter apoiado a candidatura de Andrónico.
“O Andrónico simboliza esse
novo sujeito indígena e camponês. Ele simboliza esse grupo que liderou o
processo do começo dos anos 2000 e levou o MAS ao poder. Quando o MAS apoia a
candidatura do Eduardo del Castillo, que é um homem branco e mais distanciado
dessa base eleitoral que compõe o MAS, o partido contribuiu para essa divisão
interna dentro da esquerda”, comentou.
Para Alina Ribeiro, a briga
entre Evo e Arce impediu que o MAS apoiasse Andrónico, que era muito ligado ao
ex-presidente Evo. “Eles avaliaram que não seria interessante postular a
candidatura do Andrónico porque ainda era uma figura muito associada ao histórico
do Evo Morales”, concluiu.
Agência Brasil

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