O tarifaço imposto pelos EUA está impactando diretamente o setor produtivo no RN. As empresas locais já começaram a registrar prejuízos concretos?
É algo que nós estamos buscando entender. Das grandes produções do RN que
exportam para os Estados Unidos, o principal impacto será para o atum fresco.
Somos o maior vendedor desse pescado no Brasil e temos mais de 170 barcos de
cerca de cinco empresas atuantes nesse segmento, o qual destina 80% das
exportações para o mercado norte-americano. Então, existe uma preocupação muito
grande. Desde o anúncio da taxação, a governadora Fátima Bezerra tem pedido
para dialogar com o setor, a fim de entender onde é possível apoiar. De
antemão, uma das medidas foi o decreto que trata dos incentivos fiscais para as
empresas contempladas pelo Proedi [Programa de Desenvolvimento Industrial do
RN], que terão aumento da desoneração do ICMS. O Governo Federal também
anunciou algumas medidas que foram demandadas, inclusive, pelos estados, e que
devem permitir às empresas de pescado do RN atravessarem esse momento com maior
tranquilidade. Mas a gente vive um grande ponto de interrogação sobre quando o
governo americano vai sentar para negociar com o Brasil. Então, estamos
conversando e procurando ouvir bastante nosso empresariado. Há uma estimativa
de que pelo menos 3 mil empregos sejam impactados. Tem empresas com 150
funcionários, e a gente não sabe se há condição de colocá-los em férias
coletivas, por exemplo.
Quais ações estão sendo planejadas, então, para minimizar os efeitos sobre o pescado?
O setor é afetado desde 2018, com o embargo da União Europeia (UE) por conta de
irregularidades sanitárias em uma carga enviada pelo estado de Santa Catarina.
Haja vista o bom relacionamento que o governo Lula tem com os chefes daqueles
países, a gente está na expectativa pelo fim desse embargo. E não podemos
esquecer que o camarão entrou nesse bolo. Para se ter uma ideia, até 2005 o Rio
Grande do Norte e o Ceará exportavam bastante esse crustáceo – cerca de 70% iam
para a UE. Então, se a gente conseguir quebrar essa barreira [do embargo] nos
próximos meses, pode ser que o impacto no nosso pescado seja totalmente
revertido. Além disso, solicitamos a abertura do mercado chinês tanto para o
pescado quanto para o camarão. A governadora está entregando à Embaixada da
China e aos ministros da Agricultura [Carlos Fávaro], Pesca [André de Paula] e
da Indústria e Comércio [Geraldo Alckmin], que participam das relações de
comércio internacional junto com o Itamaraty, uma solicitação para que haja
celeridade na apreciação desse pedido. A retomada do acesso a esses dois
mercados é muito importante para nós. Hoje o transporte de peixe fresco é feito
de avião, da seguinte forma: a aeronave desce em São Paulo, onde um novo frete
é pago para os EUA, algo que encarece muito as vendas para aquele país. Mas já
temos aqui no RN um voo diário com destino à Europa, com duração de seis horas
e um frete muito mais barato. Isso [a Europa como mercado] com certeza vai
ajudar o setor a atravessar essa crise. Acreditamos que até o final deste ano
haja essa reabertura para a UE, que tem uma demanda gigantesca, paga um preço
bacana, tem competitividade e se mostra até melhor do que os EUA. Com relação à
China, um desafio são as rotas marítimas. A boa notícia é que surgiu um novo
roteiro, que passa pelo Porto de Pecém (CE), segue para Salvador (BA) e faz
praticamente um percurso direto para o país asiático. Com isso, é possível
mandar produtos congelados, como o nosso camarão, que é de extrema qualidade.
Já o atum fresco tem que ir, obrigatoriamente, para a UE.
E quais ações estão em curso para apoio aos pequenos produtores e exportadores do pescado potiguar?
Além das reuniões com o setor produtivo, o governo está em um movimento de
ouvir os setores afetados para entender o que é possível fazer. Esta semana
surgiu a possibilidade de colocar o atum na merenda escolar. Tivemos conversas
com a Secretaria da Educação [SEEC] e o assunto vai ser posto em pauta para
entendermos o tamanho dos estoques atuais desse pescado.
A fruticultura também deve ser impactada com a taxação americana, embora em menor quantidade. Nesse caso, a melhor opção seria o mercado interno ou direcionar para outros mercados no exterior?
A fruticultura potiguar atravessa um bom momento. O Brasil como um todo não é
um grande exportador de fruta. Mas somos o terceiro maior produtor mundial de
fruta, perdendo apenas para China e Índia. Temos um mercado consolidado na
Europa e um potencial de crescimento fantástico. As águas do São Francisco, o
Ramal do Apodi e a Barragem de Oiticica garantem segurança hídrica e vão
impulsionar esse potencial. É bom lembrar que, de 2018 para 2024, as
exportações de frutas do RN cresceram 78%. Nós saímos de US$ 112 milhões para
US$ 220 milhões nesse período. Somando isso a outros produtos, como aqueles do
agro, da cana-de açúcar, a castanha, o mel e outras frutas que, juntas com o
melão, formam o que a gente chama de 4Ms (melancia, manga e mamão), batemos US$
250 milhões. E a gente pode crescer mais. Só que o mercado americano não é um
grande comprador por causa de uma tarifa que já compromete a competitividade
brasileira. Então, já temos outros mercados – além da Europa, temos o Mercosul,
o Canadá e até mesmo a China, onde recentemente tivemos um grupo formado por
empresários, Apex [Agência Brasileira de Promoção de Exportações e
Investimentos], e Abrafrutas [Associação Brasileira dos Produtores e
Exportadores de Derivados de Frutas] para mostrar nosso potencial. Somente um
atacadista visitado importa 300 contêineres de frutas por semana, isso é quase
um navio. O grande desafio é uma logística que permita a saída de um navio
direto de um porto do Nordeste, preferencialmente de Natal, direto para a
China, sem paradas, o que levaria em torno de 28 dias, o melhor cenário para manter
a qualidade da fruta.
O governo estadual anunciou um pacote de medidas para socorrer os principais exportadores. Esse pacote vai ser suficiente ou precisará ser ampliado para atender novas demandas?
As portas do Governo estão sempre abertas para o diálogo. E sempre que surgir
uma demanda nova o Estado vai avaliar a ampliação e o aperfeiçoamento dessas
medidas. O que pode ser feito nesse primeiro momento, que é a questão
tributária, já foi feito. Estamos conversando para sentar à mesa se for
necessário fazer algo mais. No momento, nosso grande foco, repito, é a abertura
desses dois mercados.
Como estão as negociações com a China em relação às exportações do melão e qual é a maior dificuldade para esse mercado?
Como eu falei, a China é um mercado extremamente comprador. E só quem pode
mandar melão para lá é quem tem área livre de mosca das frutas. Nós temos isso
aqui junto com o Ceará. O grande desafio, mais uma vez é a logística, mas eu
acredito que muito em breve teremos uma boa notícia referente a essa nova rota
direta. As negociações caminham bem e eu acredito que no próximo ano a gente já
consegue mandar um primeiro navio-teste para a China.
No meio de todo esse imbróglio do tarifaço está o leilão do Terminal Pesqueiro, que foi adiado para a próxima segunda-feira (18). O tarifaço pode inviabilizar o leilão?
A gente está com uma expectativa muito boa – temos duas empresas que
demonstraram interesse em participar e se habilitaram. Estou muito otimista de
que o tarifaço não deverá impactar no leilão.
O embarque de frutas para a Europa através do Porto de Natal foi retomado esta semana. Como foi feita a articulação para essa retomada e quais as perspectivas para a movimentação deste ano?
Em 2022, quando a CMA/CGM anunciou que sairia do Porto de Natal, houve um
momento difícil para o terminal marítimo, com poucos investimentos. Hoje, a
situação é diferente, o que colabora para esse novo momento. Tivemos o anúncio
das defensas do cais e da ponte Newton Navarro, que são muito importantes para
a segurança dos navios e para a movimentação à noite, algo que hoje não existe.
É um porto de pouco movimento, mas nós estamos tentando atrair mais cargas para
diversificar a operação. Acredito que ainda neste segundo semestre teremos o
anúncio de um novo produto potiguar que será exportado ao mercado árabe – por
enquanto, não posso adiantar nada além disso. Nossa proximidade com a África
nos torna mais competitivos em relação a Fortaleza e Salvador. O RN será o
maior exportador de frutas do Brasil, porque temos uma região que oferece
condições climáticas com segurança hídrica. Eu brinco até que essa segurança é
maior do que a do Vale do São Francisco. Outra vantagem nossa é a proximidade
com um porto – seja o de Natal, seja o de Mucuripe e Pecém (ambos no Ceará). No
Vale do São Francisco, o transporte de uma carreta para o porto é feito em mais
ou menos 2 mil quilômetros, ao custo de cerca de R$ 25 mil por frete. Aqui, a
depender da região produtora, o transporte é feito em no máximo 300
quilômetros, e o frete pode cair para até R$ 5 mil. Ou seja, existe uma grande
competitividade no RN.
Recentemente foi noticiado que a Estação Experimental Terras Secas, de Pedro Avelino, que foi ocupada pelo MST, poderá ser desapropriada para fins de assentamento. Na sua visão, isso traz insegurança jurídica para o RN e pode afugentar investidores?
Ali é uma propriedade que pertence à Embrapa. São cerca de 1,6 mil hectares de
terra, com uma extensão muito grande de reserva florestal, que não pode ser
mexida. A Emparn é quem está tocando esse tema junto com a Procuradoria Geral,
sob o direcionamento de que a Embrapa pediu a reintegração de posse. Mediante
um entendimento para fazer algo que seja ordenado com autorização da Embrapa,
eu não vejo problema de pegar um pedaço dessa propriedade e transformar num
assentamento produtivo para as pessoas que queiram trabalhar. Mas é preciso
cumprir o regramento e o ordenamento jurídico brasileiro, com muito diálogo
para que a questão seja tratada de forma responsável.
QUEM
Guilherme Saldanha é
engenheiro agrônomo formado pela antiga Escola Superior de Agricultura de
Mossoró – ESAM (atual Ufersa) e produtor rural. Ele assumiu a Secretaria de
Agricultura e Pesca do RN em 2016, onde segue desde então. Antes disso, foi
coordenador de Agricultura Irrigada da Sape durante o governo de Wilma de Faria
(2003-2006) e presidente do Distrito de Irrigação do Baixo-Açu (Diba) por sete
anos.
Tribuna do Norte

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