A ginecologista Maria da Guia
de Medeiros Garcia, da Maternidade Escola Januário Cicco (MEJC), unidade
vinculada à UFRN e à Rede Ebserh, explica que o câncer de ovário afeta
principalmente mulheres idosas, fator que costuma provocar confusão em relação
à identificação dos sintomas. “O ovário fica localizado na pelve. Como se trata
geralmente de mulheres idosas, é comum associar os sinais a problemas de
estômago ou intestino, por exemplo. Justamente por isso, o diagnóstico quase
sempre é tardio. Além disso, faltam esclarecimentos e a doença acaba sendo
subestimada”, explica a médica.
Os sintomas mais comuns são
aumento do volume abdominal, flatulência, alterações no apetite e mudanças no
funcionamento intestinal (constipação alternada com diarreia). “A mulher
atribui o crescimento abdominal a um ganho de peso que ela considera natural ou
acha que a constipação vem do fato de ela consumir pouca água e acaba não dando
a atenção devida”, relata Maria da Guia. O diagnóstico rápido é comprometido
ainda, segundo a médica, porque faltam exames específicos para a detecção da
doença.
“Não existem exames
preventivos contra o câncer de ovário. Se a gente pudesse dizer que existe algo
capaz de identificar a doença mais precocemente, esse procedimento seria a
ultrassonografia. Mas, considerando a população mundial de mulheres, é impossível
fazer uma ultra a cada dois anos. Logo, esse protocolo não é preconizado na
literatura médica, o que significa um grande limitador”, pontua a
ginecologista.
O diagnóstico, de fato,
geralmente é feito a partir da queixa da paciente. “Apenas quando existe a
queixa, é que se faz um exame de imagem (ultrassonografia simples, tomografia
ou ressonância). Havendo suspeita de câncer, é feita uma biópsia do ovário. Exames
de sangue, chamados marcadores tumorais, também são incluídos na investigação.
“Mas é a biópsia quem permite o diagnóstico fechado e quem vai dizer qual o
tratamento mais indicado para cada tipo de tumor”, fala a médica.
Ivete Matias, diretora da
Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Rio Grande do Norte (Sogorn), afirma
que a inexistência de rastreamento resulta nas estatísticas que se tem sobre a
doença. Ela defende que haja uma maior oferta de informações sobre a doença.
“De cada quatro casos de câncer de ovário, três são identificados em estágio
avançado. Conscientização e consultas periódicas com o ginecologista, portanto,
são cruciais. A Sogorn tem atuado bastante para levar essa conscientização”,
aponta.
Mulheres jovens também são
afetadas
Apesar de atingir
principalmente mulheres mais velhas – a partir dos 50 anos –, os casos em
pacientes jovens não são improváveis. A advogada Gabriella Medeiros descobriu
um câncer no ovário em 2019, aos 24 anos, em uma consulta de rotina com a
ginecologista. Inicialmente, ela e a médica imaginaram tratar-se de um cisto.
Como o tumor já estava três vezes maior do que o útero, Gabriella foi
encaminhada para uma cirurgia. Após o procedimento, ela conta que a
ginecologista percebeu ser um tumor, que uma biópsia detectou como maligno.
“Busquei um acompanhamento com
a ginecologista porque queria ter um filho. Fora o crescimento do suposto
cisto, que gerou um inchaço abdominal e alguns desconfortos semelhantes a
gases, a situação era tranquila. Após o resultado da biópsia, fui encaminhada
para a Liga Contra o Câncer, onde fui submetida a uma nova cirurgia para a
retirada do ovário esquerdo. Em seguida, fiz tratamento com quimioterapia”,
conta. Hoje, Gabriella está bem, celebrando um novo momento ao lado do filho,
de um ano e quatro meses.
No começo deste mês, ela
passou por novos exames, como tem feito desde 2020. “Graças a Deus, no
resultado não apareceu nada. O tratamento da doença foi muito difícil. Sou uma
pessoa que gosta de ter o controle das coisas. Não controlar minha saúde era muito
angustiante. Tive crises de ansiedade que afetaram, inclusive, meu
relacionamento. Minha mãe, que me acompanhava nas sessões de quimioterapia,
também sofreu bastante”, descreve a advogada, hoje com 30 anos.
A ginecologista Maria da Guia
de Medeiros Garcia, da MEJC, explica que o tratamento depende do tipo de tumor.
“As opções existentes para tratar o câncer de ovário são a cirurgia,
radioterapia, quimioterapia ou por meio de medicamentos, os chamados imunossupressores”,
fala. As chances de cura variam de acordo com o tempo de descoberta da doença.
“A gente prefere chamar de remissão, porque não é incomum que a doença volte em
cinco anos ou até um pouco mais. E, no caso das mulheres idosas, geralmente não
há uma sobrevida muito longa após o diagnóstico, mas isso tem a ver também com
nossa expectativa de vida”, diz a médica.
A oncologista Sulene Cunha
disse que, se descoberto nos estágios iniciais (1 e 2), as chances de cura do
câncer de ovário giram em torno de 95%. A identificação tardia (estágio 3 e 4),
no entanto, reduz essas chances para cerca de 40%. “Os estágios 3 e 4 indicam
que a doença está em um risco muito alto. Mas existem, sim, chances de cura –
que a gente prefere utilizar o termo ‘sem evidência da doença’, uma vez que, na
cura, teoricamente a doença não volta –, principalmente com os avanços dos
tratamentos atuais”, esclarece.
Tratamento também é feito via
SUS
No Rio Grande do Norte, o
tratamento e acompanhamento oncológico é ofertado via Sistema Único de Saúde
(SUS) na Liga Contra o Câncer, em Natal. Sulene Cunha, coordenadora da
Oncologia Clínica da unidade, detalha que o atendimento pode ser iniciado por
meio da triagem on-line ou presencial. No primeiro caso, deverá ser enviada uma
cópia com o resultado de exames que apontem para a suspeita da doença, e
informações como nome, endereço e cartão SUS do paciente, na página da Liga na
internet (triagem.liga.org.br).
Para a triagem presencial, o
paciente precisa se deslocar, de segunda a sexta-feira, a partir das 6h, ao
Hospital Luiz Antônio, onde um médico vai avaliar o exame. Depois da triagem, o
profissional da Liga dará continuidade à investigação. “Ele poderá solicitar
exames como ressonância, tomografia, exames laboratoriais e ginecológicos,
marcadores tumorais e outros. Em seguida, programa a biópsia para, caso seja
confirmado o câncer, aplicar o tratamento”, afirma Sulene Cunha. Os protocolos
de atendimento são os mesmos para qualquer tipo de neoplasia.
Quando há necessidade de
cirurgia, o procedimento é agendado pela própria unidade no menor intervalo de
tempo possível. Para os casos de quimioterapia, Sulene conta que a Liga
disponibiliza uma equipe multidisciplinar, que envolve acompanhamento com uma enfermeira,
nutricionista e psicólogo antes de chegar à oncologia. Segundo ela, por ano são
registrados 70 novos casos de câncer de ovário, em média, na unidade. Em todo o
País, são projetados 7.310 novos casos para cada ano do triênio 2023-2025.
Fatores como estresse, alimentação e qualidade de vida contribuem para aumentar
as chances da doença.
A prevenção pode ser feita combatendo os fatores de risco. Além disso, questões genéticas também podem influenciar. “Cerca de 20% das pacientes que a gente recebe carregam genes relacionados ao câncer de ovário, ou seja, há um fator hereditário também. Nesses casos, temos um oncogeneticista que avalia os parentes dessa mulher para atuar na prevenção”, afirma Sulene.

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