São mais de 480 milhões de
dispositivos digitais em uso – uma média de 2,2 aparelhos por habitante,
segundo levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV), divulgado em junho de
2024. A revolução tecnológica do final do século 20 e início do século 21
colocou em nossas mãos aparelhos que transformaram o modo em que vivemos,
mediando praticamente todas as atividades presentes em nossas rotinas.
As telas, presentes em
smartphones, tablets e outros dispositivos digitais, nos oferecem um fluxo
constante - quase infinito - de informações e conteúdos que se renovam a todo
momento. É impossível absorver tudo isso.
De acordo com o psiquiatra
Pedro Pan, “fomos evoluindo como sociedade, nessas últimas décadas, fomos
assumindo muitas tarefas e tentando tocar várias coisas ao mesmo tempo. E, na
verdade, a percepção é que o cérebro não conseguiu acompanhar toda essa ideia e
tudo que a tecnologia trouxe para a gente de possibilidade”.
E as grandes empresas de
tecnologia sabem disso. Quanto mais tempo gastarmos com redes sociais, por
exemplo, mais fácil para elas de capitalizar.
“Para você prender cada vez
mais a atenção das pessoas, você precisa de produtos que viciam as pessoas. A
gente tem que ter em conta que o que as plataformas querem, o principal modelo
de negócio das plataformas é o engajamento”, afirma o diretor executivo do
Núcleo Jornalismo, Sérgio Spagnuolo.
A atenção humana é um produto
– um negócio bilionário, que acaba por produzir efeitos significativos em nosso
cérebro. Índices de casos de ansiedade explodiram no mundo – não
apenas pelo efeito isolado da revolução digital, é claro, mas eles seguem em
paralelo ao aumento do número de dispositivos móveis em nossos bolsos e mãos. A
oferta interminável de conteúdo ultrassegmentado e fragmentado vem destruindo
nossa capacidade de concentração. Será que conseguimos nos lembrar de algo que
nos chamou a atenção na internet hoje? Será que formei alguma memória a
respeito do que vi no meu feed na rede social?
Leonardo Ramos é estudante de
história e assume que o uso excessivo de telas tem prejudicado sua vida.
“A gota d’água, quando eu
percebi que eu realmente estava dependente, foi na época de vestibular. No
segundo ano do Ensino Médio eu estava tentando estudar por fora. E todo dia eu
falava: ah, vou estudar física. Quando eu via, meu dia já tinha acabado”, diz.
O estudante já chegou a ficar
14 horas conectado ao celular, vendo vídeos e redes sociais.
Com os celulares cada vez mais
presentes, as telas estão fisgando as crianças cada vez mais cedo, em estágios
cruciais para o seu desenvolvimento. Um estudo do Cetic, órgão vinculado ao
Comitê Gestor da Internet no Brasil, revelou que quase metade das crianças até
2 anos – 44% delas – já têm acesso à internet. Depois da pandemia da covid-19,
o número de crianças com idades entre 6 e 8 anos que têm seu próprio telefone
celular quase dobrou. Passou de 18% para 36%.
Esse uso precoce de telas por
muitas horas traz preocupação, como ressalta o pediatra e presidente da
Associação Brasileira de Pediatria, Clóvis Constantino.
“Se ela estiver muito exposta
às duas dimensões, uma tela, sem oferta da interação social, da interação com
os pais, da interação com a natureza, com o meio ambiente, porque ela exagera
ou foi ofertado a ela inadequadamente as telas, ela vai ter prejuízo no seu
desenvolvimento psíquico, social. Os primeiros anos de vida são fundamentais
para que haja um bom desenvolvimento neuromotor ou não. E as telas? Oferecidas
de maneira inadequada influenciam negativamente nesse desenvolvimento”, afirma.
Nas escolas, o uso de
celulares distrai e prejudica o aprendizado, ao mesmo tempo em que inibe as
experiências de socialização. Diante desse cenário, especialistas
recomendam limites diários no tempo de uso de celulares por crianças e
adolescentes - alguns defendem até que eles não tenham acesso a
dispositivos com redes sociais nessa idade.
No início deste ano, foi
sancionada uma lei federal que proíbe o uso de eletrônicos portáteis nas
escolas públicas e particulares de ensino – inclusive nos recreios e intervalos
entre as aulas. A medida exige diálogo com a comunidade escolar e
adaptações que não são simples de se implantar, afinal, nossas vidas
dependem dos celulares – e os jovens sequer chegaram a conhecer um mundo em que
não tivessem todos os recursos eletrônicos à disposição.
Isabella Gobbo estuda em uma
escola estadual de São Paulo e tem 17 anos de idade. Ela assume que o
celular nas escolas atrapalhava. Mas está com dificuldades para limitar o
uso quando chega em casa, depois de tantas horas sem o aparelho.
“Quando eu chego em casa, eu
poderia usar aquele tempo para botar, sei lá, matéria em ordem e essas coisas
assim, fazer trabalho. Só que como eu fiquei o dia todo sem usar [celular], eu
acabo usando esse tempo que eu estou na minha casa para compensar o tempo que
eu não fiquei no celular”, confessa.
Para a diretora de uma escola
particular de São Paulo Cláudia Tricate, o desafio de “desmamar” os
adolescentes é um longa tarefa e que impactou tanto os alunos como os pais.
“Para mim o maior de todos os
efeitos foi perceber o drama que é para os adultos e para crianças e
adolescentes não dar notícias. Eu fiquei impactada com o quanto aquilo foi
pesado para as famílias e para eles. Porque as famílias, até então, achavam
ótimo. Meus filhos vão ficar longe das telas. Mas na hora que aconteceu, eles
falavam: mas como que eu falo com eles? Como eu faço agora? Como que eu vou
saber se eles não estiverem bem?”.
Sobre o programa
Produção jornalística semanal
da TV Brasil, o Caminhos da Reportagem leva o telespectador para
uma viagem pelo país e pelo mundo atrás de pautas especiais, com uma visão
diferente, instigante e complexa de cada um dos assuntos escolhidos.
No ar há mais de uma década,
o Caminhos da Reportagem é uma das atrações jornalísticas mais
premiadas não só do canal, como também da televisão brasileira. Para contar
grandes histórias, os profissionais investigam assuntos variados e revelam os
aspectos mais relevantes de cada assunto.
Saúde, economia,
comportamento, educação, meio ambiente, segurança, prestação de serviços,
cultura e outros tantos temas são abordados de maneira única. As matérias
temáticas levam conteúdo de interesse para a sociedade pela telinha da emissora
pública.
Questões atuais e polêmicas
são tratadas com profundidade e seriedade pela equipe de profissionais do
canal. O trabalho minucioso e bem executado é reconhecido com diversas
premiações importantes no meio jornalístico.
Exibido às segundas-feiras, às
23h, o Caminhos da Reportagem tem horário alternativo na madrugada
para terça-feira, às 4h30. A produção disponibiliza as edições especiais
no site http://tvbrasil.ebc.com.br/caminhosdareportagem e no YouTube da
emissora pública em https://www.youtube.com/tvbrasil. As matérias anteriores
também estão no aplicativo TV Brasil Play, disponível nas versões Android
e iOS, e no site http://tvbrasilplay.com.br.
Tribuna do Norte

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