Para os produtores, a transição para um modelo estruturado garantiu avanços em qualidade e sustentabilidade. “Fazíamos o extrativismo aqui e, de certa forma, era um cultivo predatório, sem repor os bancos naturais”, lembra Rafael Amaro, que preside a Associação dos Produtores de Ostras (Aproostras-RN), em Tibau do Sul, cidade que concentra 17 das 45 famílias que trabalham com a ostreicultura sustentável no Estado. Além de Tibau do Sul, Senador Georgino Avelino e, mais recentemente, Canguaretama, formam a cadeia produtora potiguar.
“Quando chegaram aqui, a gente
ficou meio assim, porque imagina só: a gente cabeça dura, extrativista,
pensamos logo que não daria certo, que as sementes de laboratório eram pequenas
demais, difícil demais, mas, para nossa surpresa, em seis meses a gente já
estava tirando ostra para fazer a comercialização. Foi então que começamos a
entender que a parte predatória não fazia mais parte do nosso cotidiano”,
completa o produtor Rafael Amparo.
A produção de ostras nativas
no Rio Grande do Norte é resultado de um modelo inovador e sustentável.
Diferente dos estados do Sul do Brasil, onde a criação ocorre em águas frias e
por meio do sistema suspenso longline, no RN a ostreicultura acontece em mesas
fixas dentro dos estuários e manguezais com águas mais aquecidas. Esse método
favorece o crescimento das ostras em um ambiente mais controlado e propício ao
desenvolvimento da espécie nativa, o que garante um produto de excelente
qualidade e alto valor agregado.
O crescimento da atividade tem
sido acompanhado pela regularização de áreas aquícolas e pelo incentivo à
adoção de boas práticas de manejo. Em 2023, três Relatórios Anuais de Produção
(RAPs) foram apresentados ao governo federal para reforçar a transparência e a
organização da atividade no Estado. Além disso, a produção é frequentemente
averiguada pelo Instituto de Defesa e Inspeção Agropecuária (Idiarn) e
Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), por meio da adesão ao Programa
Higiênico-Sanitário de Moluscos Bivalves, uma inovação no Nordeste.
Com as 45 famílias envolvidas
na produção, o projeto conta com três associações principais: a Associação dos
Produtores de Ostras do Rio Grande do Norte (Aproostras), sediada em Tibau do
Sul; a Associação dos Ostreicultores de Canguaretama (AOCA) e a Ostras
Guaraíras, em Senador Georgino Avelino. O fortalecimento dessas associações
permitiu que os produtores tivessem suporte técnico, acesso a insumos e
capacitação especializada do Sebrae-RN para aprimorar o manejo e a
comercialização.
Sementes selecionadas garantem
alta qualidade
Um dos grandes diferenciais da
ostreicultura potiguar é o controle sanitário e a garantia de rastreabilidade
da produção. O monitoramento contínuo das águas garante que as ostras sejam
cultivadas em um ambiente seguro, minimizando riscos para os consumidores e
agregando valor ao produto final, explica Rui Trombeta, consultor do Sebrae. “A
ostra tem uma particularidade, porque ela é um animal filtrador. Ela filtra a
água e desse processo retira os alimentos – microalgas, o fitoplâncton – e
também filtra sujeiras, poluentes. Ela é um bioindicador de qualidade de água”,
diz.
E acrescenta: “Se aquela água
onde ela foi extraída, tiver comprometida, essa ostra também vai estar
comprometida e as pessoas podem passar mal com isso. Então, hoje, com todo esse
monitoramento do Idiarn, do Ministério de Pesca e Agricultura, de análises
microbiológicas, de fitotoxinas, que são feitas em laboratórios de Mossoró e
Santa Catarina, a gente consegue essa segurança alimentar para os
consumidores”, conta Trombeta, que também é engenheiro de pesca.
A qualidade também está ligada
à produção de sementes, um dos fatores determinantes para o sucesso da
atividade. Nesse sentido, o laboratório Primar Aquacultura desempenha um papel
crucial ao fornecer larvas selecionadas para os ostreicultores potiguares.
Diferente de Santa Catarina, onde universidades federais são responsáveis pela
produção de sementes, no RN a iniciativa privada e o Sebrae viabilizaram o
acesso dos produtores a uma semente de alto padrão genético, pontua Mona
Nóbrega, gerente de Desenvolvimento Rural e Negócios do Sebrae.
“A Primar é a empresa que
produz as sementes, que são entregues aos produtores ainda minúsculas, e esse
produtor termina o manejo dentro da Lagoa de Guaraíras. Então, nessa parceria
entre o Sebrae e a Primar, a gente entra com o manejo, a assistência técnica
para esses produtores; a gente já entrega parte dessas sementes e são
subsidiadas, inclusive, com nossa prestação de serviço. Os produtores pagam a
parte, o Sebrae subsidia uma outra e a Primar entra nessa parceria fornecendo
essas sementes”, detalha Nóbrega.
Zé da Ostra, 72 anos, dedicou meio
século ao cultivo do molusco | Foto: Magnus Nascimento
Expansão de mercado e
valorização
O reconhecimento da
ostreicultura potiguar ultrapassa as divisas do RN e consolida o Estado como
referência nacional. A ostra nativa, por ser adaptada ao ambiente tropical,
apresenta características diferenciadas em termos de sabor e textura, o que a
torna uma opção valorizada no mercado gastronômico. Mesmo com a liderança
nacional, o potencial do setor ainda está longe de ser completamente explorado.
Mona Nóbrega, do Sebrae-RN,
destaca que, apesar do avanço da ostreicultura, o setor ainda tem um grande
caminho a percorrer. “Diferente de Santa Catarina, que hoje é o maior produtor,
a espécie aqui é nativa, própria nossa. E isso faz com que a gente desponte
como os grandes produtores dessa espécie. E, apesar de ser uma cadeia
relativamente pouco explorada, existe um potencial gigante do mercado para que
o médio produtor também e o grande empresário possam se apropriar desse
potencial e entrar também nessa cadeia de valor. Não só os pequenos”, afirma.
O crescimento da cultura
econômica também gerou um impacto positivo no turismo e na economia regional.
Restaurantes e bares de Natal, Recife e Pipa, na própria Tibau do Sul, já
oferecem ostras nativas potiguares em seus cardápios. O turismo de experiência
também se fortaleceu, com visitantes buscando conhecer o processo de cultivo e
degustar as ostras frescas direto dos viveiros.
Prova disso é o restaurante
flutuante Sorriso da Ostra, de “Seu Zé da Ostra”. O local é um point turístico
e oferece a iguaria em diversos preparos. “Temos a ostra natural, gratinada,
grelhada, no bafo, com vinagrete de abacaxi, com geleia de maracujá. Hoje
muitos turistas vêm aqui. Temos muitos produtores, são 17 famílias aqui da
região. Forneço também para Fernando de Noronha, Recife. Temos uma produção que
mudou bastante graças ao Sebrae e a Fundação Banco do Brasil, que montou essa
estrutura”, diz.
Com 72 anos de idade, Zé da
Ostra dedicou meio século ao cultivo do molusco. “Quando eu comecei a criar
ostra, ninguém criava na região; eu fui o primeiro criador de ostra daqui.
Muita coisa mudou nesses 50 anos, chegaram mais famílias produtoras. A ostra
representa tudo na minha vida. Tudo que eu tenho devo a esse trabalho. Eu criei
seis filhos somente criando ostra. Estão todos bem criados”, conta o produtor.
Produção de ostras nativas no
RN
2020: 0,80 toneladas
2021: 25 toneladas
2022: 132 toneladas
2023: 152 toneladas
Em 2023, os outros estados que
produziram ostras nativas foram Santa Catarina (25,2 toneladas); e Paraná (13,5
toneladas).
Fonte: Boletim da Aquicultura em Águas da União (MPA)
Bruno Vital
Repórter
Tribuna do Norte

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