Em 2024, o comércio entre
Brasil e Espanha registrou movimentação significativa. As importações
brasileiras de produtos espanhóis somaram US$ 1,23 bilhão, com destaque para
máquinas, equipamentos, automóveis, produtos químicos, medicamentos e
aeronaves. Já as exportações do Brasil para a Espanha alcançaram US$ 1,43
bilhão, lideradas por produtos como soja, café, açúcar, carne bovina e frutas.
O saldo comercial foi positivo para o Brasil, com superavit de US$ 200 milhões,
conforme dados da Câmara.
O vice-presidente da Câmara de Comércio Brasil-Espanha, Cássio Romano, ressalta
que os dois países vivem um momento de grande integração econômica. “O Brasil e
a Espanha estão em ‘lua de mel’. São dois países que se complementam, e hoje
você pode ver na prática todas as empresas que estão aqui. O Santander, por
exemplo, que é de origem espanhola, hoje tem mais negócios no Brasil do que na
própria Espanha. A Vivo, que é do grupo Telefónica, e a Prosegur, com mais de
40 mil empregados no Brasil, são exemplos desse protagonismo”, afirma.
A Espanha é atualmente o segundo maior investidor estrangeiro no Brasil, atrás
apenas dos Estados Unidos, e supera países como a China em volume de aportes
financeiros. Entre as empresas espanholas atuantes no Brasil estão gigantes do
setor de energia, como Iberdrola, Naturgy, Repsol e Acciona, além de companhias
de infraestrutura, segurança, turismo, telecomunicações e alimentação.
Segundo Romano, os investimentos espanhóis no Brasil são caracterizados pelo
foco em longo prazo. “Geralmente, os investimentos espanhóis e europeus de
forma geral são de longo prazo. Quem investe em energia, por exemplo, não faz
um investimento para sair no dia seguinte. São empresas que chegam para se
consolidar, trazendo recursos, patrocinando e expandindo suas operações ao
longo do tempo”, explica.
No Rio Grande do Norte, o setor agropecuário tem se beneficiado da relação
comercial com a Espanha, especialmente na produção de frutas para exportação. O
secretário de Estado da Agricultura, Pecuária e Pesca, Guilherme Saldanha,
destaca que o mercado europeu é o principal destino das exportações potiguares
e que há um grande potencial para ampliar essa participação.
“O Rio Grande do Norte está muito bem inserido nesse contexto da produção de
frutas para o mercado europeu, com 90% das nossas exportações voltadas para
esse destino. A Espanha já é um grande investidor no Estado, não apenas em
energia e telecomunicações, mas também na produção e exportação de frutas”,
afirma Saldanha.
O secretário aponta ainda que mudanças climáticas na Europa têm impactado a
produção agrícola local, o que abre espaço para que o RN amplie sua presença.
“A UE tem enfrentado dificuldades na produção de frutas devido às altas
temperaturas no verão. Esse cenário reforça a necessidade de ampliarmos nossas
exportações, além de buscarmos investimentos para setores como a produção de
camarão e atum, que ainda enfrentam algumas barreiras comerciais, mas que têm
um enorme potencial”, pontua.
A Federação da Agricultura e Pecuária do RN (Faern) também enxerga a
aproximação com a Espanha como um fator essencial para o crescimento do setor
agropecuário potiguar. O presidente da entidade, José Vieira, destaca que a
presença de empresários espanhóis no Estado fortalece a troca de experiências e
a expansão do comércio bilateral.
“É dessa forma que se fazem negócios, reunindo empresários e fortalecendo as
relações comerciais. O Rio Grande do Norte tem uma característica importante
para a Espanha: nossas frutas são de excelente qualidade e vão para a Europa,
que é um dos principais mercados consumidores”, afirma Vieira.
Natal quer investidores internacionais
A gestão municipal de Natal também tem trabalhado para atrair investidores
estrangeiros, incluindo os grupos espanhóis que já atuam no Brasil. O
secretário de Concessões, Parcerias, Empreendedorismo e Inovações de Natal,
Arthur Dutra, explica que a criação da secretaria teve como objetivo fomentar
esse tipo de parceria.
“A gestão Paulinho Freire, ao criar a Secretaria de Parcerias e Concessões,
teve em vista a atração de investimentos e parceiros internacionais, como os
grupos espanhóis que estão representados na Câmara de Comércio. A Espanha está
disponível para estreitar esses laços, estabelecer relações comerciais e
conhecer as oportunidades de negócios”, destaca Dutra.
Ele reforça que o setor de turismo é um dos mais promissores para captação de
investimentos espanhóis. “Falando em turismo e Natal, nem preciso dizer muito.
Temos imensas possibilidades de investimento, mas também um ecossistema de
empreendedorismo e inovação que pode atrair ainda mais investidores espanhóis.
A gente tem um excelente ecossistema que vai dar grandes oportunidades de
investimento também na parte de infraestrutura, até de alguns serviços
públicos.”, acrescenta.
Bate papo Alejandro Goméz,
diretor executivo da Câmara Oficial Espanhola de Comércio no Brasil
É possível que um potiguar consuma algum produto ou serviço espanhol e nem saiba. Quão forte é a relação comercial do RN e do Brasil com a Espanha?
As empresas espanholas no Brasil e aqui na região Nordeste já estão adaptadas
ao Brasil. Então, para elas, a filial brasileira é uma empresa brasileira com
capital espanhol, mas eles querem ser brasileiros, tocados por brasileiros, com
funcionários brasileiros. Então, o investimento é espanhol, mas eles gostam
dessa cultura, sobre a cultura de onde eles estão. A gente tem o caso da
Neoenergia. A Neoenergia tem uma presença forte aqui no Brasil, no Rio Grande
do Norte, e é importante eles se sentirem brasileiros. A presidente é uma
brasileira, da empresa de concessão de eletricidade aqui no Nordeste, e é feita
por brasileiros. Então, é importante a gente fazer essa consideração. Tem
empresas espanholas que querem vir para o Brasil? Sim. É importante a gente
mostrar para eles o que o Rio Grande do Norte tem de bom, de oportunidades. E é
isso que a gente quer fomentar, com o governo e com as entidades de classe que
estiveram presentes hoje aqui.
Quais são os principais desafios para atração de novos investimentos europeus para cá?
A segurança jurídica. A previsibilidade é fundamental. Uma empresa que quer
investir 30 anos, porque vai pegar uma concessão de uma estrada, de uma
rodovia, ou de uma rede de ferrovia, ou de um porto, ela vai construir esse
empreendimento, mas espera que, em 30 anos, receba o retorno desse
investimento. Se durante esse tempo houver alguma mudança nas regras que eles
se comprometeram no começo, isso espanta, afugenta esses investimentos. Então,
a primeira coisa é previsibilidade e segurança jurídica. A gente espera – a
gente viu um avanço no Brasil, em algumas regiões mais que outras – que isso
aconteça aqui, para que o Estado possa trazer mais investidores.
De que forma esse encontro pode contribuir para o intercâmbio de investimentos entre os dois países?
O mais importante no mundo é a informação. A informação precisa andar, precisa
correr, precisa ser divulgada. A Câmara é um veículo de informação importante
para chegar essa informação nas empresas. Então, a primeira coisa é a gente se
informar. Eu desconhecia muita coisa que eu vi hoje aqui, que eu vou preparar
um informe para informar nossas empresas. Isso é importante, porque vocês
concorrem, o Rio Grande do Norte concorre com outros estados e as empresas
conhecem mais talvez um estado X, que seja mais presente, que faça uma política
de informação muito mais presente. O estado do Rio Grande do Norte precisa
fazer essa política, precisa fazer essa interlocução com as Câmaras, com as
entidades internacionais, para mostrar que tem muita coisa bacana aqui, muitas
oportunidades importantes e fortalecer, focar nos setores de atuação. Não
adianta vocês pensarem um setor que não tem muita presença e tentar forçar esse
setor; reforcem aqueles que são mais importantes. Foi falado hoje aqui em
agricultura, questão do camarão, peixe, foi comentado hoje o projeto de
hidrogênio verde, eólica, solar; vocês são líderes, tem um potencial enorme,
foquem nessa área, porque é a área que vai tracionar mais a economia no estado.
Tribuna do Norte

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