“A gente espera que seja algo
positivo para a escola, para o ensino. Eu gosto da ideia, porque vou passar
mais tempo com meus amigos e professores, aproveitando melhor esse último ano”,
destaca a estudante.
Uma pesquisa conduzida pelo Ministério da Educação (MEC), em diálogo com as
secretarias estaduais de Educação, identificou que a falta de infraestrutura
adequada nas escolas é uma das principais barreiras para a implementação do
ensino integral. Muitas unidades de ensino não possuem estrutura compatível com
a carga horária ampliada, carecendo de espaços como refeitórios, quadras
esportivas, bibliotecas e vestiários.
“As principais barreiras enfrentadas pelos estados consistem na falta de infraestrutura das escolas, que não têm adequação para receber um modelo de carga expandida, e questões econômicas dos alunos, que nesta etapa concorrem ainda mais com a escola”, informou a pasta.
Em nota, a Secretaria Estadual de Educação do RN reafirmou o compromisso com a
expansão do Ensino Médio em Tempo Integral. Para viabilizar a ampliação, o
governo estadual investe na infraestrutura das escolas, com reformas e
aquisição de equipamentos. Somente este ano, estão previstos R$ 40 milhões para
melhorias estruturais. Além disso, um concurso para o magistério reforçará o
quadro docente.O programa Pé-de-Meia, desenvolvido em parceria com o governo
federal, também busca garantir a permanência dos alunos por meio de incentivo
financeiro.
O Ensino integral é aplicado tanto na educação básica, quanto no ensino médio.
Atualmente, 53 escolas potiguares fazem parte do Programa de Ensino Médio em
Tempo Integral (EMTI), sendo monitoradas pelo Censo Escolar. Segundo o MEC, o
total de matrículas pactuadas no Rio Grande do Norte para o ciclo 2023/2024 foi
de 9.939. Para o ciclo 2024/2025, o número subiu para 10.175. O repasse de
recursos federais também acompanhou essa expansão, com um montante de R$
14.911.596,15 destinados ao RN na última fase do programa.
Ex-diretor acredita que ensino integral melhora a educação|
Foto.Magnus Nascimento
O promotor de educação do Ministério Público (MPRN), Oscar Hugo de Souza Ramos,
reforça que a infraestrutura é um dos principais entraves para a implantação
efetiva do ensino integral. Segundo ele, a maioria das escolas não possui
espaços apropriados para descanso, lazer e alimentação adequada. “A escola
regular tem apenas um lanche. No modelo integral, é necessário oferecer também
almoço, o que exige uma estrutura de cozinha mais robusta, por exemplo. Em
muitas unidades, improvisa-se o descanso dentro da sala de aula”, explicou.
De acordo com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), em 2024,
o estado do Rio Grande do Norte possuía 173 obras passíveis de adesão ao Novo
Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), sendo que houve manifestação
de interesse de adesão de 116 edificações.
Do total de obras, 47 são quadras e coberturas de quadras, 40 são de educação
infantil, 23 para o ensino fundamental, 4 de ampliação e 2 de ensino
profissionalizante, sendo que desse total 47 obras já foram analisadas e
aprovadas. A partir do envio da documentação pelo gestor local, as edificações
são analisadas pela equipe técnica da Autarquia, que pode, se necessário,
solicitar a complementação das informações. O Ministério Público acompanha de
perto essas obras. “Se a obra atrasa, cobramos explicações da secretaria e, se
necessário, tomamos medidas legais para garantir que o direito dos alunos seja
respeitado”, destaca o promotor Oscar Hugo.
Perspectivas
O promotor Oscar Hugo destaca que o governo federal tem incentivado mais as
escolas de ensino fundamental do que as de ensino médio, pois a demanda é
maior. “Os pais querem mais escolas integrais para crianças do primeiro ao nono
ano. No ensino médio, os alunos muitas vezes preferem estudar meio período para
poder trabalhar”, explica.
Embora haja obstáculos, a tendência é que o modelo de ensino integral continue
se expandindo. O desafio principal agora é garantir que as escolas tenham
infraestrutura adequada e que a transição ocorra de forma planejada.
Na escola Alceu Amoroso, Ingridy Kiara enfatiza a importância de manter
atividades extracurriculares. “Essas atividades ajudam no aprendizado e tornam
a escola mais interessante. A banda, por exemplo, ensina a tocar instrumentos,
o que é algo que a gente pode levar para a vida”.
Ensino Integral potencializa
atividades
A Escola Municipal Alceu
Amoroso Lima, citada no início desta reportagem, está entre as unidades que
estão passando pelo processo de adaptação para o ensino integral. Os gestores
da escola acreditam que o novo modelo vai potencializar os projetos pedagógicos.
A mudança vem sendo discutida desde 2017, quando a gestão escolar começou a
desenvolver um modelo de educação integral que envolvia projetos
multidisciplinares e o envolvimento da comunidade.
Segundo o ex-diretor da unidade, Reinan Alessandro de França, o projeto começou
a ganhar força em 2018, quando a Secretaria Estadual de Educação passou a
cogitar a ideia. “Mas nós não tínhamos estrutura física para que o aluno
passasse o dia todo dentro da escola. E a gente colocou duas condicionantes:
que mantivessem os dois níveis, fundamental 1 e 2, e que tivesse a reforma”,
afirmou Reinan.
Segundo ele, a localização da Alceu Amoroso Lima em uma área vulnerável da
cidade foi um dos fatores que reforçaram a necessidade da implantação do ensino
em tempo integral que, na sua visão, funciona melhor nas escolas de periferia.
“É onde o aluno está inserido, é a comunidade onde ele vive. Quando ele passa
mais tempo dentro da escola, ele perde o contato com a rua, com a
vulnerabilidade, com a criminalidade, com a droga, com a violência. Ele também
vai ter uma segurança alimentar, que muitas vezes ele não tem em casa”,
ressaltou.
Mas apenas em 2024 houve a confirmação da obra e, com o atraso para a
conclusão, os alunos estão sendo acomodados provisoriamente no prédio da Escola
Estadual 15 de Outubro, distante cerca de 1 quilômetro. “Não tem a mesma
estrutura que teremos aqui. Faltam espaços como o laboratório de informática,
mas ganhamos a possibilidade de usar a quadra de esportes”, explicou Rosane de
Souza Silva, atual diretora da escola.
A última data prevista para a conclusão da reforma, dada pelo SEEC/RN, foi 30
de março de 2025. “A previsão inicial era outubro do ano passado, mas houve
questões de repasse financeiro e pendências de projetos, como os elétricos e
hidráulicos”, disse ela.
A reforma do prédio escolar inclui melhorias como climatização das salas,
ampliação da cozinha e reestruturação da área de lazer. “A reforma também nos
devolveu uma sala que estava interditada, que se tornará um auditório. Além
disso, a Secretaria nos informou que haverá uma quadra de areia e uma quadra
central coberta”, detalhou.
A diretora aponta que o número de vagas foi reduzido de 350 para 275, uma vez
que os alunos agora permanecem na unidade durante todo o dia. Entre as
novidades pedagógicas, a grade curricular passa a incluir cinco novos ateliês:
Assembleia de Classe, Linguagens Artísticas Integradas, Educação, Saúde e
Desporto, Estudo Orientado e Iniciação Científica. “Essas atividades serão
conduzidas por professores do nosso quadro e por novos profissionais que
chegaram recentemente”, disse a diretora.
Durante o intervalo de almoço, serão realizadas atividades pedagógicas e
educacionais, supervisionadas por profissionais da escola. Ainda faltam
professores de Educação Física e de Língua Inglesa, além de um merendeiro
adicional. Mesmo com os desafios, a gestão escolar se mostra confiante no novo
formato. “A comunidade escolar entende a importância do ensino integral e está
comprometida em fazer dar certo”, concluiu Rosane.
Tribuna do Norte

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