“Se pegar série histórica e
taxa de juros real, estamos num patamar historicamente elevado do ponto de
vista de aperto monetário. (…) É um momento desconfortável para as empresas e
famílias, que é um momento onde a inflação deve seguir em patamar desconfortável
fora da meta, e você espera que a politica monetária faça efeito gradualmente”,
disse.
Ele garantiu que o BC terá
cautela ao analisar os sinais de desaceleração emitidos pelos dados
recém-divulgados de atividade, como os de mercado de trabalho, inflação e
setores econômicos.
Agressividade e cautela
Nesta quarta-feira, o IBGE informou que o setor de serviços recuou 0,5% em
dezembro, segunda queda mensal consecutiva. Galípolo concedeu hoje sua primeira
palestra desde que assumiu a presidência do Banco Central. Ele participou de
seminário sobre política monetária brasileira na Casa das Garças, instituto
dirigido por Edmar Bacha e dedicado a estudos e debates econômicos.
Segundo o presidente do BC, se
a autoridade monetária deve adotar uma posição mais agressiva num momento de
elevar os juros, ela deve, por outro lado, ser mais cautelosa ao decidir pela
queda da taxa básica de juros.
Ele disse que é normal os
agentes econômicos darem atenção aos números de atividade, mas ponderou que os
dados de alta frequência costumam ter “alta volatilidade” e que podem
apresentar uma tendência que, no fim, não se confirma. Por isso, o “BC precisa ter
parcimônia”: “O Banco Central vai tomar tempo necessário para ter a certeza de
que os dados que estão chegando confirmam uma tendência e não uma volatilidade
de dados de alta frequência”.
Efeito fiscal
Galípolo reconheceu que o impulso fiscal acabou sendo maior do que o
inicialmente projetado, mesmo com o mesmo nível de gastos públicos que era
previsto no início do ano passado. Esse efeito, segundo ele, pode ser explicado
por dois fatores principais. O primeiro foi o papel desempenhado pelo crédito.
O segundo, mais relevante, foi o caráter distributivo das políticas de
transferência de renda, que segundo ele colocaram dinheiro nas mãos de famílias
com maior propensão ao consumo. Esse tipo de estímulo, de acordo com Galípolo,
gerou uma demanda mais resiliente, contribuindo para pressões inflacionárias.
“Do ponto de vista do fiscal,
o impulso foi maior do que se imaginava. Talvez porque existiu um componente
distributivo da política da transferência de renda, que acaba colocando
dinheiro na mão de quem tem propensão de consumir mais elevada, e isso apresenta
uma resiliência maior e um impulso maior do ponto de vista da demanda, que me
parece ter sido traduzido nas questões das pressões inflacionárias, somadas à
questão de impacto climático e desvalorização da moeda”.
Arminio Fraga: ‘A coisa não
está bem’
O ex-presidente do Banco
Central Arminio Fraga disse na quarta-feira, 12, ao atual chefe da autarquia,
Gabriel Galípolo, que a instituição precisa de ajuda da área fiscal para fazer
seu trabalho e resumiu o quadro econômico atual dizendo que “a coisa não está
bem”.
Galípolo participou na manhã da quarta do seminário sobre Política Monetária
Brasileira, promovido pelo Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das
Garças (IEPE/CdG), no Rio. Fraga estava na plateia.
“Eu acho que o problema, em
última instância, é que o Banco Centralprecisa de ajuda. E só tem um lugar que
pode ajudar, que é o fiscal”, avaliou o economista. Ele citou, por exemplo, a
alta inflação e as taxas implícitas, assim como a dívida do País na casa de 75%
do Produto Interno Bruto (PIB), que está crescendo em alta velocidade. O
economista, afirmou, porém, que não arriscaria fazer projeções sobre o
desempenho da economia.
“A coisa não está bem, mas o
remédio funciona”, comentou sobre o resultado do aperto da política monetária,
acrescentando que Galípolo, como presidente do Banco Central, vai ter de tomar
um “suco amargo” ao apertar juros.
O sócio-fundador da Gávea
Investimentos sugeriu ao atual presidente do BC que, como uma pessoa de
confiança das altas autoridades do País, possa tentar convencê-las de que não
há mágica. “Isso que aconteceu até agora foi muito bom: o emprego estar baixo é
um sonho, mas agora a festa meio que acabou”, considerou. Para o economista,
não há um problema de comunicação no governo ou no BC. “O Banco Central não faz
milagres, não é?”
Tribuna do Norte

Nenhum comentário:
Postar um comentário