“Eu reparava na diferença do
tratamento dado a Brasília e ao Gama. Mas sabemos que todos têm direito a
morar bem, com boa qualidade de vida. As pessoas que vieram trabalhar aqui para
construir a capital federal foram mandadas para longe do centro”, aponta.
As diferenças cotidianas foram
insumos para que a universitária refletisse sobre a importância de sua futura
profissão e sobre formas de melhorar o acesso das pessoas a uma arquitetura
sustentável.
Angélica é uma das
adolescentes e jovens mulheres agraciadas pela Sociedade Brasileira de
Progresso da Ciência (SBPC) com o Prêmio Carolina Bori Ciência & Mulher –
Meninas na Ciência. Ela vai receber R$ 10 mil, na categoria humanidades, como
reconhecimento do seu trabalho de iniciação científica Diagnóstico das
dimensões da sustentabilidade urbana no município de Cavalcante-GO e Urbanismo
Kalunga: sustentabilidade, ancestralidade e identidade, desenvolvido na
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UnB.
Se os exaustivos percursos
inspiraram reflexões urbanísticas em Angélica quando universitária, foi a
expectativa da família em receber uma casa própria que levou a futura
arquiteta, ainda criança, com 4 anos, a fazer seus primeiros desenhos de casa.
“Eu ficava desenhando, imaginando como é que seria a nossa casa. Como é que eu
ia decorar meu quarto
Apesar de inscrita há 20 anos
em programas habitacionais para famílias carentes, a mãe de Angélica nunca foi
contemplada com um imóvel. A casa e o quarto ficaram na imaginação, mas os
primeiros esboços da menina não foram em vão.
“Eu sempre gostei de
arquitetura, e sempre pensei nela como algo para ajudar as pessoas. Acho que é
porque não temos casa própria.”
Pesquisa
A pesquisa de iniciação
científica de Angélica teve continuidade no trabalho de conclusão de curso,
onde Angélica apresentou propostas para o plano diretor de Cavalcante, com
sugestões para o desenvolvimento do município goiano. Ela também traçou o projeto
urbanístico de revitalização da Avenida da Vila Morro Encantado, bairro
majoritariamente quilombola na cidade.
Cavalcante, no norte de Goiás,
faz parte do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Além de ponto turístico
marcado pela paisagem natural do cerrado e muitas cachoeiras, a região abriga o
Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, o maior território remanescente
de comunidades quilombolas do Brasil.
A cerimônia de entrega da 6ª
edição do prêmio será na próxima quarta-feira (11), Dia Internacional das
Mulheres e Meninas na Ciência. A premiação foi criada para valorizar pesquisas
de impacto social desenvolvidas por jovens talentos femininos.
Novos projetos
Formada há um pouco mais de um
ano, Angélica integra o Programa Periferia Viva, do Ministério das Cidades,
desenvolvendo um projeto de urbanismo sustentável no assentamento Dorothy
Stang, em Sobradinho (DF), e segue como pesquisadora júnior no Laboratório
Periférico da FAU/UnB. Na faculdade, ainda faz pós-graduação (residência) em
Ciência, Tecnologia e Sociedade, enquanto espera a próxima seleção de mestrado.
Nas três atividades, lida com
problemas habitacionais comuns à parte mais pobre da população. Em sua visão,
as soluções podem ocorrer quando os arquitetos e urbanistas estão atentos às
demandas sociais. “Eu quero um urbanismo participativo. Quero que as comunidades
tenham direito à moradia e que elas morem com dignidade. Eu quero uma cidade
que tenha a infraestrutura básica, bem estabelecida, com tudo que deve ter em
uma cidade: áreas verdes, drenagem correta, áreas de lazer, parques, áreas
institucionais, tudo o que elas precisem.”
Os pontos de vista de Angélica
são endossados por sua orientadora, a professora Liza Maria Souza de Andrade,
que estimula o trabalho dos estudantes com pessoas em territórios como os das
periferias, assentamentos, quilombos e observa nessas interações uma importante
oportunidade de conhecimento e aprendizagem.
“Ela veio da periferia e é uma
pessoa que se dedicou muito para passar no vestibular e conseguir entrar na
universidade. É uma pessoa que tem habilidades como pesquisadora e como
projetista. Creio que ela descobriu parte de seus talentos aqui estando nesse
ambiente.”
Agência Brasil

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