A marcha é organizada pela
Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), com o apoio de
outras entidades sindicais. Participam camponesas, quilombolas, indígenas,
cirandeiras, quebradeiras de coco, pescadoras, marisqueiras, ribeirinhas e
extrativistas de todo o Brasil.
Ministros e ministras do
governo receberam, nesta quarta-feira (21), a pauta de reivindicações das
mulheres, em cerimônia no Palácio do Planalto.
“Representamos milhares de
mulheres que enraízam a sua existência em uma diversidade de territórios
rurais, mulheres que vêm de uma realidade bem difícil. Desempenhamos um
importante papel na produção de alimentos saudáveis, aquela comida que chega,
de verdade, na mesa do brasileiro. Somos fundamentais para preservação da
biodiversidade e para a conservação dos nossos biomas, somos guardiões dos
saberes populares que herdamos das nossas ancestralidades”, destacou a
coordenadora geral da Marcha das Margaridas, Mazé Morais.
Apesar disso, segundo ela,
essas mulheres vivem “as piores condições de acesso à terra, aos territórios, à
água, a renda, aos bens da natureza, a moradia digna, saneamento básico e aos
serviços e equipamentos de saúde”. “Além de vivenciarmos diversas situações de
violência, somos constantemente colocadas na invisibilidade social e política”,
acrescentou a trabalhadora.
De acordo com Mazé Morais, a
pauta da Marcha das Margaridas de 2023 foi construída em diversas reuniões pelo
país, realizadas desde 2021, e apresenta aquilo que as mulheres consideram
necessário para “combater a violência sobre os nossos corpos” e “efetivar
programas, medidas e ações que contribuam para nossa autonomia econômica”.
“Nós nos guiamos pelos
princípios de um feminismo anticapitalista, antirracista, anti-patriarcal que
reflete cada uma das nossas realidades; o feminismo que valoriza a vida,
vinculando a defesa da agroecologia, dos territórios, dos bens comuns.”
A pauta de reivindicações é
composta por 13 eixos:
Democracia participativa e
soberania popular
Poder e participação política
das mulheres
Vida livre de todas as formas
de violência, sem racismo e sem sexismo
Autonomia e liberdade das
mulheres sobre o seu corpo e a sua sexualidade
Proteção da natureza com
justiça ambiental e climática
Autodeterminação dos povos,
com soberania alimentar, hídrica e energética
Democratização do acesso à
terra e garantia dos direitos territoriais e dos maretórios (territórios
costeiros, influenciados pela maré)
Direito de acesso e uso social
da biodiversidade e defesa dos bens comuns
Vida saudável com agroecologia
e segurança alimentar e nutricional
Autonomia econômica, inclusão
produtiva, trabalho e renda
Saúde, previdência e
assistência social pública, universal e solidária
Educação pública não sexista e
antirracista e direito à educação do e no campo
Universalização do acesso à
internet e inclusão digital
Transversalidade
O diálogo com a coordenação da
marcha está sendo liderado pela Secretaria-Geral da Presidência e pelos
ministérios das Mulheres e do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar,
em uma agenda transversal com os demais ministérios do governo.
Segundo o ministro da
Secretaria-Geral, Márcio Macedo, na próxima segunda-feira (26) já há uma
reunião marcada para as equipes dos três ministérios se debruçarem sobre a
pauta da marcha, “para que possam ser alcançados os sonhos, os desejos e as
necessidades das margaridas, as mulheres desse país inteiro”. O objetivo é já
ter respostas para as demandas durante o evento em agosto.
A ministra das Mulheres, Cida
Gonçalves, destacou que o governo está aberto ao diálogo e afirmou a
importância da Marcha das Margaridas para democracia.
“Nós precisamos garantir a
democracia, nós precisamos garantir que homens e mulheres, que os pobres sejam
incluídos em todo o processo de construção desse país. Mas também é um momento
de discutir a questão da participação política das mulheres”, disse, defendendo
o enfrentando à misoginia e à perseguição às lideranças femininas.
Já o ministro do Desenvolvimento
Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, destacou que os estímulos do
plano safra para agricultura familiar, que deve ser lançado na semana que vem,
estarão centrados na agricultura que é dirigida por mulheres, na agroecologia e
no desenvolvimento de máquinas menores para apoio à produção.
“Vai ser um plano safra
feminista”, disse. “Dessa cartilha que vocês entregaram, praticamente todos os
itens dizem respeito, também, ao nosso ministério. Nós queremos o Pronera
[Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária] na zona rural, nós queremos
a cobertura de internet, nós queremos a agroindústria, nós queremos programas
para a sucessão rural que envolva as jovens mulheres, nós queremos atenção à
saúde na zona rural e nós vamos fazer um diálogo intragovernamental”,
acrescentou Teixeira.
Machismo
Organizada a cada quatro anos desde o ano 2000, o nome do evento é uma
homenagem à trabalhadora rural e líder sindical paraibana Margarida Maria
Alves, assassinada em 1983. Margarida é um dos maiores símbolos da luta das
mulheres por reconhecimento social e político, igualdade e melhores condições
de trabalho e de vida no campo e na floresta.
O presidente da Contag,
Aristides Veras dos Santos, destacou que a marcha é das mulheres, mas a luta
por direitos e igualdade envolve a todos, no combate ao machismo e aos
preconceitos. “Nós, os homens, temos que acabar com essa pecha de
superioridade, que de superioridade nós não temos nada”, disse.
“Nós temos que entender que esse mundo é pela igualdade, esse mundo é de respeito e o respeito tem que ser tratado com muita força. A marcha traz todo esse processo. Nós não fazemos uma marcha apenas para reivindicar, mas também para mudar a alma e o coração das pessoas e seus comportamentos. O Brasil precisa enfrentar esse debate, nós vivemos em uma sociedade dividida, uma sociedade muito violenta”, acrescentou Santos.
Agência Brasil

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