frente da Abrafrutas, Waldyr Promicia destaca o protagonismo do Rio Grande do Norte na fruticultura| Foto: Divulgação
O clima da região Nordeste, com destaque para o Rio Grande do Norte, pode ampliar a diversificação da produção de frutas e a presença do Brasil no mercado internacional. É o que avalia o presidente da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), Waldyr Promicia, um dos nomes presentes no Fórum de Negócios da Fruticultura. O evento foi sediado na Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Mossoró, com a proposta de debater os desafios e oportunidades da fruticultura brasileira.
Em entrevista à TRIBUNA DO
NORTE, Promicia destacou os reflexos esperados na fruticultura com o acordo de
livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, a importância de viabilizar
a abertura de uma rota do Rio Grande do Norte para a China, e os estímulos
necessários para que os produtores locais possam apostar em novas variedades de
frutas. Confira:
O senhor assumiu a presidência da Abrafrutas no final do ano passado, em um momento de crescimento das exportações do Brasil. Quais são as principais metas e prioridades da sua gestão para esses próximos anos à frente da associação?
A Abrafrutas tem se posicionado muito bem nesse setor, sendo a interlocutora
das necessidades do setor produtivo junto ao governo e às entidades
internacionais. A meta é continuar crescendo nessa linha e, nessa gestão,
também pretendemos lançar luz ao mercado interno para que possamos aumentar o
consumo da fruta no Brasil. Isso porque esse consumo no país ainda é pequeno,
frente ao que as entidades de saúde recomendam.
Essa necessidade de expandir o mercado interno do setor da fruticultura é uma das pautas prioritárias da Associação junto ao Governo Federal?
Sim, nós estamos trabalhando junto com o Governo, além das Centrais de
Abastecimento (Ceasas), como o Ceagesp, para fazer uma operação conjunta. No
momento estamos realizando uma pesquisa muito ampla sobre o porquê que o
brasileiro não consome tanta fruta, perguntando quais são as dificuldades, ou
seja, se é uma falta de hábito, ou se o problema está no preço, por exemplo.
Com esses dados em mãos, pretendemos fazer uma campanha ampla junto com o
Governo Federal, Sebrae e entidades de distribuição, como as Ceasas, para
promover a nossa fruta.
Entrando na pauta do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, que entrou em vigor em maio deste ano, como o Brasil e, especialmente o Rio Grande do Norte, pode se beneficiar desse acordo para elevar a sua produção e suas exportações de frutas?
É uma oportunidade gigantesca de ampliação, pois estamos ganhando mais
competitividade. Nós tínhamos uma perda de competitividade junto ao mercado
internacional, com taxas e tarifas para atender a União Europeia, que é o
mercado mais exigente do mundo e onde temos uma atuação relevante. Com essa
melhora nas taxas, poderemos ampliar não apenas as exportações de frutas com as
quais já trabalhamos, mas com outras que podem ser desenvolvidas. O Rio Grande
do Norte, principalmente, é uma vitrine para o mercado internacional, sendo
exemplo de resiliência e produção de frutas de qualidade.
O Rio Grande do Norte também é reconhecido por ser o maior produtor e exportador de melão do país, respondendo por cerca de 61% da produção interna. O Comitê Executivo de Fruticultura do RN avalia que esse número poderia ser maior se o Estado conseguisse viabilizar uma rota direta de embarque para a China, já que o país é autorizado a exportar para o mercado chinês desde 2019. Há alguma articulação na Abrafrutas para auxiliar na viabilização dessa rota?
O Rio Grande do Norte é um protagonista e a abertura de uma rota para a China
seria extremamente importante, porque a perecibilidade das frutas precisa ser
levada em conta. Então temos que ter rotas mais curtas e rápidas, além de
infraestrutura de estradas. Isso é algo que estamos sempre falando com companhias
e com o governo. Caso a rota fosse viabilizada, acredito que o Rio Grande do
Norte poderia dar um salto e dobrar ou até triplicar a sua produção. Do que
depender da Abrafrutas, nós vamos lutar para que isso aconteça.
Esse diálogo junto ao Governo e algumas companhias acontece de maneira periódica, sendo uma pauta permanente da associação?
Ainda não é uma pauta permanente, mas sim pontual, pois a Abrafrutas trabalha
por demanda. E essa [rota] é uma demanda válida não apenas para o melão, mas
também para outras frutas. Em breve o limão deve estar alcançando essa abertura
de mercado para a China, fruta essa que está despontando no cenário do Rio
Grande do Norte, que tem muita produção. Então estamos sempre atentos para buscar
soluções para o setor inteiro, o que beneficia toda a cadeia produtiva das
frutas. Viabilizando uma rota dessa, o envio de todas as frutas que podem ser
enviadas não apenas para a China, mas também para outros países, como a África
e a índia, será viabilizado.
Em relação ao mercado nacional, o Brasil é um dos maiores produtores de frutas do mundo, mas o que ainda falta para o país ganhar mais espaço no mercado internacional por meio das exportações?
A questão é exatamente esta: a cultura brasileira foi feita em cima do mercado
interno, e a exportação veio meio que de contrapeso, diferente de outros
países, como o Chile e Peru, que já construíram a fruticultura para exportação
porque não têm mercado interno. Além disso, algumas variedades que a gente tem
aqui [não são as consumidas pelo mercado externo]. O Brasil é um grande
produtor de abacate, por exemplo, mas esse abacate não é o ‘avocado’ que os
países de fora querem. Então é muito mais fácil você conseguir exportar uma
fruta que tanto o mercado interno quanto externo consomem. É uma questão
cultural de desenvolvimento de novas variedades e até de crescimento do que já
tem. A boa notícia é que todas as frutas que eles querem e que nós ainda não
produzimos na variedade certa, podemos produzir. Isso porque o nosso clima é
favorável a qualquer variedade que se queira implantar, além do que conseguimos
adaptar variedades para o nosso clima. O Brasil é um país com possibilidade de
produção o ano todo. Isso, no médio e longo prazos, vai dar cada vez mais
condições ao país dominar mercados mundiais por conta dessa continuidade de
safra . Então, eu vejo que principalmente no Nordeste, e no Rio Grande do
Norte, há uma condição climática para produção o ano todo de qualquer fruta.
E nesse processo de diversificação da produção para conseguir alcançar cada vez mais o mercado internacional, quais são os estímulos necessários para além do clima favorável que a gente encontra?
O estímulo é realizar contas e pesquisas, ou seja, trazer a Embrapa para dentro
do processo para mostrar ao produtor o que é viável e bom negócio plantar,
pensando nas regras e exigências internacionais, para você atender os mercados
nacional e internacional. Demonstrou isso, o produtor vai atrás e faz
acontecer.
Falando um pouco sobre desafios, uma das principais ameaças fitossanitárias à produção e exportação de frutas é a mosca da fruta. De que forma o trabalho da Abrafrutas tem contribuído para ampliar a segurança fitossanitária da produção nacional?
A gente faz um acompanhamento de todos os eventos que há dos controles
existentes no país e auxiliamos quando precisamos buscar mais recursos junto ao
Governo Federal. Então atuamos não como fiscais, mas como parceiros em todos
esses projetos de controle.
E ainda nesta pauta sobre desafios, de que forma os custos logísticos, principalmente diante de conflitos internacionais e das mudanças no comércio exterior, têm impactado o setor de fruticultura do país?
É um desafio atual. Estamos enfrentando aumentos do frete e a logística do
Brasil também não é favorável. Ainda falta uma melhor infraestrutura de cadeia
fria nos nossos portos, por exemplo, para podermos ter uma maior segurança. Mas
acredito que isso tudo passa e o agricultor de uma forma geral é muito resiliente.
Enquanto isso, ajustamos os nossos custos e damos o nosso jeito.
Como o senhor vê a importância hoje da fruticultura para a geração de emprego e renda, especialmente aqui no Rio Grande do Norte?
Eu estive na Ufersa. É incrível ver o que a fruticultura traz de
desenvolvimento para uma região. O índice do IDH de qualquer região frutífera é
mais elevado do que o resto do país. A fruticultura representa 16% de toda a
mão de obra empregada no agronegócio, [segundo dados da Abrafrutas]. É um setor
que exporta pouco, mas é gigantesca a nossa participação em termos de mão de
obra. Além disso, é uma mão de obra muito bem remunerada e que qualifica
pessoas em grande número. Uma fazenda de 100 hectares de fruta, por exemplo,
emprega no mínimo de 80 a 100 pessoas.
QUEM
Além de ser um dos fundadores
e atual presidente da Abrafrutas, Waldyr Promicia preside a Câmara Setorial da
fruticultura do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA). No setor
empresarial, atua como CEO da Itacitrus, reconhecida como uma das maiores produtoras
e exportadoras de limão Tahiti orgânico do mundo.
Tribuna do Norte

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