quarta-feira, 10 de junho de 2026

Projeto promove acolhimento em UTIs neonatais através do artesanato

Polvos de crochê ajudam bebês prematuros a não tentar retirar a sonda. Projeto é voluntário e se mantém através de doações e de parcerias. Foto: Alex Régis

Em maternidades de Natal, polvos de crochê têm mudado a atmosfera das Unidades de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal. Produzidos por artesãs potiguares, os objetos apresentam cores e características variadas, mas mantêm um mesmo objetivo: auxiliar no acolhimento dos bebês prematuros durante o período de internação. A distribuição dos animais é realizada pelo Projeto Octo Natal, desde 2018, que até o momento já distribuiu cerca de 8,5 mil polvos na capital potiguar.

A iniciativa integra o Projeto Octo, criado na Dinamarca em 2013. A arquiteta e embaixadora do projeto na capital potiguar, Andriza Giantomassi, de 50 anos, conta que conheceu a iniciativa por meio do marido, que é médico pediatra, e comentou com ela sobre o projeto nacional. Sem perder tempo, ela resolveu conversar com uma amiga que realizava crochês, tendo como objetivo avaliar a possibilidade de realizarem os polvinhos para a mobilização.

O desejo da embaixadora tinha uma motivação clara: “Meu marido sempre vinha para casa chateado porque as crianças tiravam muito a sonda do nariz e ficavam com a mãozinha solta e sem ter o que tocar. E os tentáculos do polvo lembram o cordão umbilical. Então, quando a criança põe a mãozinha neles, os profissionais apontam que isso diminui a frequência cardíaca”.

Após Andriza conversar com sua amiga na época, as duas entraram em contato com o Projeto Octo Brasil, onde receberam orientações e a receita para a produção dos polvinhos. Após produzirem o primeiro animal de crochê, resolveram apresentar a ideia na Maternidade Escola Januário Cicco (MEJC/UFRN), a primeira a acolher a iniciativa em Natal.

Com o tempo, o projeto foi ganhando espaço em outras unidades, incluindo a Unimed, Hapvida, Maternidade Delfin Gonzalez/Hospital Rio Grande e no Hospital Pediátrico Maria Alice Fernandes. A embaixadora esclarece que cada Unidade é responsável pelo processo de esterilização dos polvos a partir dos próprios processos internos.

Entre os voluntários do projeto, além da responsabilidade na produção adequada dos polvos, Andriza Giantomassi explica que são distribuídas atividades técnicas e administrativas. Atualmente são 62 voluntárias no Estado, das quais 10 são crocheteiras ativas e seis participam da coordenação. Os encontros da equipe acontecem uma vez ao mês, na Casa do Zíper, parceria da iniciativa.

A embaixadora explica que o projeto não apresenta fins lucrativos e mantém a sustentabilidade por meio de doações e parcerias. A ajuda, muitas vezes, parte da própria comunidade médica: “Vários enfermeiros, médicos e fisioterapeutas adoram o projeto e abraçam a gente. Isso não acontece muito em outros estados, então aqui em Natal realmente é fora da curva”.

Há oito anos atuando no projeto voluntário, Andriza compartilha ter como combustível a alegria das famílias com bebês acolhidos pelo projeto. “Muitas mães mandam as fotos das crianças com cinco/seis anos, ainda com o polvinho. Então vemos o bebê minúsculo com o polvinho e, anos depois, esse mesmo polvo vira até tema de aniversário. Então são essas famílias que movem o projeto”, relata.

Para o terapeuta ocupacional Zilmar Filho, da MEJC/UFRN, o Projeto Octo Natal mostra como o cuidado com a saúde exige acolhimento e humanização. “Quando uma família tem um bebê prematuro internado, ela enfrenta um período muito delicado, cheio de expectativas, medos e desafios. O polvo de crochê acaba se tornando um símbolo de carinho e cuidado dentro desse contexto”, compartilha.

O especialista compartilha que no dia a dia da UTI Neonatal é comum observar muitos bebês interagindo com o polvo de crochê. Isso porque, uma vez que os tentáculos lembram o cordão umbilical, algo que fazia parte da vivência do bebê na gestação, o contato traz maior conforto e segurança.

“Além disso, mesmo sendo muito pequenos, os prematuros estão aprendendo sobre o mundo o tempo todo. Eles exploram através do toque, dos movimentos e das sensações. Quando seguram o polvo, estão exercitando justamente essas formas iniciais de interação com o ambiente”, explica o especialista.

Para participar do Projeto Octo Natal, basta entrar em contato com a iniciativa por meio do perfil do Instagram @projetooctonatal.

Tribuna do Norte

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