quarta-feira, 10 de junho de 2026

Delação de Vorcaro enfrenta impasse na PF e PGR, e defesa vê má vontade

Banqueiro Daniel Vorcaro é mantido preso na superintendência da Polícia Federal, no DF. Foto: Divulgação

Integrantes da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República (PGR) ainda não conseguiram chegar a um acordo com a defesa do banqueiro Daniel Vorcaro sobre a proposta de delação premiada, que está sendo negociada desde março, quando ele foi preso preventivamente pela segunda vez. Integrantes da PF consideram que os anexos entregues até agora carecem de fatos novos e meios de provas, condição essencial para uma colaboração. Também há uma percepção entre eles de que o banqueiro não está disposto a cooperar e estaria só tentando ganhar tempo longe de um presídio comum.

Após firmar um acordo de confidencialidade, que marcou o início das tratativas, Vorcaro foi autorizado a ficar numa cela especial na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, onde recebe diariamente os advogados das 9h às 17h.

Interlocutores da defesa do banqueiro, por sua vez, alegam que o material entregue na semana passada traz um conjunto de histórias inéditas e é consistente. Para eles, há uma avaliação de que os investigadores estão com má vontade em prosseguir com o acordo.

Os integrantes da PGR, por sua vez, ainda seguem analisando os novos anexos apresentados por Vorcaro, mas mantém um tom de cautela. Nos bastidores, a avaliação é que ainda não há elementos suficientes para uma definição sobre o futuro da proposta. Segundo eles, a nova proposta precisa ainda demonstrar de forma mais clara a capacidade de entregar fatos inéditos e elementos de corroboração. Um dos pontos observados é a necessidade de que as informações precisam ser confirmadas por documentos, registros ou outros meios de prova independentes.

Politização da delação

O entorno do banqueiro Daniel Vorcaro vê politização do processo de negociação de sua colaboração premiada e já prevê que ele deverá ficar preso pelo menos até o fim das eleições. Uma fonte próxima ao banqueiro avaliou que a negociação foi contaminada pela política e que este é o principal motivo pelo qual as autoridades deverão rejeitar a segunda proposta de colaboração premiada.

Na terça-feira (9), o advogado de Vorcaro, Sergio Leonardo, tentou fazer as últimas alterações na versão apresentada para tentar salvar a proposta, mas a percepção é de que não será suficiente. A leitura é de que qualquer nova alteração não deverá mudar a tendência de rejeição da proposta por parte da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República.

Há no entorno do banqueiro incômodo com o que consideram má vontade dos órgãos sobre o material que foi entregue, entendido como algo mais ampliado e aprofundado em relação à primeira versão e que detalha a relação do banqueiro com personagens dos Três Poderes.

Eles dizem, por exemplo, que Vorcaro sugere na delação caminhos possíveis para que sejam investigadas autoridades. No entanto, os investigadores têm exigido provas de corrupção que o banqueiro não teria em boa parte dos casos.

Na linguagem jurídica, ele não teria apresentado o chamado “ato de ofício”, a decisão oficial e legal tomada por essas autoridades para justificar os altos valores recebidos nos contratos do banqueiro com eles ou seus familiares. Isso valeria também para integrantes da oposição. O banqueiro não teria avançado, por exemplo, em detalhes sobre o patrocínio do filme Dark Horse.

A avaliação é que, como a delação de Vorcaro atingiria todos os poderes e matizes políticas, não interessaria neste momento avançar com algo que pudesse gerar amplo prejuízo político e que seria melhor aguardar as investigações avançarem por si só, mantendo Vorcaro preso pelo menos até o processo eleitoral ser concluído.

Suicídio de Sicário

O ministro da Justiça Wellington Cesar Lima admitiu na terça-feira (09) que Luiz Philip Mourão, o cúmplice de Daniel Vorcaro conhecido como Sicário, de fato atentou contra a própria vida na cela onde estava custodiado.

“Não houve menor dúvida da natureza do evento (suicídio) com base em perícias. Não assisti ao vídeo, mas oficiais disseram que era inequívoco. A PF (Polícia Federal) apurou com todo rigor”, disse.

O ministro ainda explicou que os detalhes sobre a morte de Mourão têm “muitas facetas sigilosas”, mas que devem ser destituídas de sigilo em algum momento.

Luiz Philip Machado de Moraes Mourão era descrito como braço operacional da organização encabeçada pelo ex-dono do Banco Master e foi réu por organização criminosa e lavagem de dinheiro. Considerado agiota pelo Ministério Público de Minas Gerais, Mourão era responsável pelo grupo que coletava informações de pessoas consideradas “desafetos” do ex-banqueiro.

A declaração foi feita durante a Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, promovida pela Câmara para que o Ministério prestasse esclarecimentos a respeito de diversos temas. Um dos tópicos também abordados foi a retirada de credenciais de um delegado brasileiro ligado à prisão de Alexandre Ramagem, na Flórida, em abril deste ano.

Quem foi Sicário?

Segundo a PF, Sicário era responsável pela “coordenação de atividades voltadas à obtenção de informações, monitoramento de pessoas e levantamento de dados considerados relevantes para os interesses do grupo”. A corporação apontou que ele obtia dados em sistemas restritos de órgãos públicos, incluindo bases de dados utilizadas por instituições de seugrança pública e investigação policial.

O investigado também teria atuado pela remoção de conteúdos e perfis em plataformas, com o objetivo de obter dados de usuários ou tirar de circulação possíveis críticas ao grupo.

No dia 4 de março deste ano, Mourão foi preso pela Polícia Federal e atentou contra a própria vida enquanto estava sob custódia. Ele foi levado imediatamente ao Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, e morreu dois dias depois, em seis de março.

Importante

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Tribuna do Norte

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