Banqueiro Daniel Vorcaro é mantido preso na superintendência da Polícia Federal, no DF. Foto: Divulgação
Integrantes da Polícia Federal
e da Procuradoria-Geral da República (PGR) ainda não conseguiram chegar a um
acordo com a defesa do banqueiro Daniel Vorcaro sobre a proposta de delação
premiada, que está sendo negociada desde março, quando ele foi preso preventivamente
pela segunda vez. Integrantes da PF consideram que os anexos entregues até
agora carecem de fatos novos e meios de provas, condição essencial para uma
colaboração. Também há uma percepção entre eles de que o banqueiro não está
disposto a cooperar e estaria só tentando ganhar tempo longe de um presídio
comum.
Após firmar um acordo de confidencialidade, que marcou o início das tratativas,
Vorcaro foi autorizado a ficar numa cela especial na Superintendência da
Polícia Federal, em Brasília, onde recebe diariamente os advogados das 9h às
17h.
Interlocutores da defesa do banqueiro, por sua vez, alegam que o material
entregue na semana passada traz um conjunto de histórias inéditas e é
consistente. Para eles, há uma avaliação de que os investigadores estão com má
vontade em prosseguir com o acordo.
Os integrantes da PGR, por sua vez, ainda seguem analisando os novos anexos
apresentados por Vorcaro, mas mantém um tom de cautela. Nos bastidores, a
avaliação é que ainda não há elementos suficientes para uma definição sobre o
futuro da proposta. Segundo eles, a nova proposta precisa ainda demonstrar de
forma mais clara a capacidade de entregar fatos inéditos e elementos de
corroboração. Um dos pontos observados é a necessidade de que as informações
precisam ser confirmadas por documentos, registros ou outros meios de prova
independentes.
Politização da delação
O entorno do banqueiro Daniel Vorcaro vê politização do processo de negociação
de sua colaboração premiada e já prevê que ele deverá ficar preso pelo menos
até o fim das eleições. Uma fonte próxima ao banqueiro avaliou que a negociação
foi contaminada pela política e que este é o principal motivo pelo qual as
autoridades deverão rejeitar a segunda proposta de colaboração premiada.
Na terça-feira (9), o advogado de Vorcaro, Sergio Leonardo, tentou fazer as
últimas alterações na versão apresentada para tentar salvar a proposta, mas a
percepção é de que não será suficiente. A leitura é de que qualquer nova
alteração não deverá mudar a tendência de rejeição da proposta por parte da
Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República.
Há no entorno do banqueiro incômodo com o que consideram má vontade dos órgãos
sobre o material que foi entregue, entendido como algo mais ampliado e
aprofundado em relação à primeira versão e que detalha a relação do banqueiro
com personagens dos Três Poderes.
Eles dizem, por exemplo, que Vorcaro sugere na delação caminhos possíveis para
que sejam investigadas autoridades. No entanto, os investigadores têm exigido
provas de corrupção que o banqueiro não teria em boa parte dos casos.
Na linguagem jurídica, ele não teria apresentado o chamado “ato de ofício”, a
decisão oficial e legal tomada por essas autoridades para justificar os altos
valores recebidos nos contratos do banqueiro com eles ou seus familiares. Isso
valeria também para integrantes da oposição. O banqueiro não teria avançado,
por exemplo, em detalhes sobre o patrocínio do filme Dark Horse.
A avaliação é que, como a delação de Vorcaro atingiria todos os poderes e
matizes políticas, não interessaria neste momento avançar com algo que pudesse
gerar amplo prejuízo político e que seria melhor aguardar as investigações
avançarem por si só, mantendo Vorcaro preso pelo menos até o processo eleitoral
ser concluído.
Suicídio de Sicário
O ministro da Justiça Wellington Cesar Lima admitiu na terça-feira (09) que Luiz Philip Mourão, o cúmplice de Daniel Vorcaro conhecido como Sicário, de fato atentou contra a própria vida na cela onde estava custodiado.
“Não houve menor dúvida da natureza do evento (suicídio) com base em perícias.
Não assisti ao vídeo, mas oficiais disseram que era inequívoco. A PF (Polícia
Federal) apurou com todo rigor”, disse.
O ministro ainda explicou que os detalhes sobre a morte de Mourão têm “muitas
facetas sigilosas”, mas que devem ser destituídas de sigilo em algum momento.
Luiz Philip Machado de Moraes Mourão era descrito como braço operacional da
organização encabeçada pelo ex-dono do Banco Master e foi réu por organização
criminosa e lavagem de dinheiro. Considerado agiota pelo Ministério Público de
Minas Gerais, Mourão era responsável pelo grupo que coletava informações de
pessoas consideradas “desafetos” do ex-banqueiro.
A declaração foi feita durante a Comissão de Segurança Pública e Combate ao
Crime Organizado, promovida pela Câmara para que o Ministério prestasse
esclarecimentos a respeito de diversos temas. Um dos tópicos também abordados
foi a retirada de credenciais de um delegado brasileiro ligado à prisão de
Alexandre Ramagem, na Flórida, em abril deste ano.
Quem foi Sicário?
Segundo a PF, Sicário era responsável pela “coordenação de atividades voltadas
à obtenção de informações, monitoramento de pessoas e levantamento de dados
considerados relevantes para os interesses do grupo”. A corporação apontou que
ele obtia dados em sistemas restritos de órgãos públicos, incluindo bases de
dados utilizadas por instituições de seugrança pública e investigação policial.
O investigado também teria atuado pela remoção de conteúdos e perfis em
plataformas, com o objetivo de obter dados de usuários ou tirar de circulação
possíveis críticas ao grupo.
No dia 4 de março deste ano, Mourão foi preso pela Polícia Federal e atentou
contra a própria vida enquanto estava sob custódia. Ele foi levado
imediatamente ao Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, e morreu dois dias
depois, em seis de março.
Importante
Se você ou alguém que você conheça estiver enfrentando momentos difíceis,
pensamentos suicidas ou depressão, procure ajuda profissional. O CVV (Centro de
Valorização da Vida) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso 24 horas por
dia pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br. Não hesite em buscar apoio.
Tribuna do Norte

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