domingo, 7 de junho de 2026

Mulheres lideram negócios de impacto e colocam o RN na rota da inovação sustentável

Criada pelas pesquisadoras Marbella, Rita e Carolina, a startup MicroCiclo leva a biotecnologia do RN à vitrine da inovação| Foto: Magnus Nascimento

Em uma fábrica no bairro de Ponta Negra, em Natal, bactérias cultivadas em biorreatores começam a transformar um problema comum da indústria em solução ambiental. A MicroCiclo, startup criada por pesquisadoras ligadas à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e apoiada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Rio Grande do Norte (Sebrae-RN), desenvolve uma tecnologia capaz de degradar óleo presente em resíduos industriais. A proposta é reduzir custos, diminuir impactos ambientais e permitir que parte da água tratada seja reutilizada pelas empresas.

A empresa representa uma nova fase do empreendedorismo potiguar: negócios liderados por mulheres que unem ciência, inovação e sustentabilidade para enfrentar desafios ambientais. Em um estado que, em 2025, foi reconhecido pelo quinto ano consecutivo como a economia mais inovadora do Nordeste no Índice Brasil de Inovação e Desenvolvimento (IBID), iniciativas como a MicroCiclo e a Plantis Sustentabilidade mostram que inovar também significa transformar a gestão de resíduos, medir emissões de carbono e repensar a relação das empresas com seus impactos socioambientais.

“A MicroCiclo nasceu de um grupo de pesquisa na UFRN. A gente trabalhava com um projeto que tinha como objetivo identificar bactérias presentes em amostras de poços de petróleo. Nesse mesmo período, uma das cofundadoras encontrou editais de empreendedorismo que ajudaram a pensar como uma ideia poderia entrar no mercado”, conta Marbella da Fonseca, doutora em Genética e uma das fundadoras da empresa, ao lado de Carolina Minnicelli e Rita Silva-Portela.

A pergunta que deu origem ao negócio partiu da própria ciência: se aquelas bactérias degradavam óleo, seria possível usar esse processo para tratar resíduos industriais? A resposta começou a aparecer quando a equipe se conectou a uma empresa metalúrgica de Joinville, em Santa Catarina, que gerava água oleosa no processo produtivo. “A gente fala que as bactérias comem o óleo, entre aspas, mas o que elas fazem é degradar. É um processo natural. O que a MicroCiclo faz é acelerar esse processo”, explica Marbella.

A tecnologia permite que o tratamento seja feito dentro da própria indústria, reduzindo a necessidade de transporte de resíduos perigosos e o uso de alternativas como aterro, incineração e tratamentos mais caros. Segundo a empresa, a solução pode reduzir custos operacionais entre 30% e 50%, permitir o reúso de até 80% da água tratada e, em testes industriais, reduzir em mais de 90% o teor de óleos e graxas.

Constituída em 2020, após os primeiros editais iniciados em 2019, a startup passou por pesquisa, validação, patente, licenciamento da tecnologia, provas de conceito e estruturação da produção. Nesse caminho, participou de programas como Centelha RN e Startup Nordeste, promovidos pelo Sebrae para desenvolver e acelerar negócios.

O reconhecimento da MicroCiclo ultrapassou as fronteiras do RN. Mais recentemente, foi selecionada entre as Top 100 Deep Tech Startups de 2026 pela Hello Tomorrow, em um universo de mais de 4.800 inscrições mundiais. Entre as 100 escolhidas, é uma das duas representantes brasileiras.

“Se você vai em qualquer um desses ambientes, percebe que ele é predominantemente masculino. A maioria dos CEOs e diretores são homens. Ser um exemplo e um destaque para outras mulheres é importante, porque mostra que elas também são capazes”, afirma Marbella.

A empresa busca ampliar a venda do Bac Clean, produto voltado para caixas de gordura, e intensificar testes remunerados com indústrias. “A gente passou por uma trajetória de validação de mercado e validação do produto. Agora precisa conquistar clientes. Em 2026, a meta é se sustentar vendendo”, diz Marbella.

Para David Góes, gerente da Unidade de Negócios, Inovação e Tecnologia do Sebrae-RN, casos como o da MicroCiclo ajudam a explicar o avanço do estado no ambiente de inovação. “Temos muitos bons cases no Rio Grande do Norte. A MicroCiclo é uma empresa totalmente formada por pesquisadoras, por mulheres, que vem crescendo rapidamente e construindo a sua indústria”, afirma.

O RN possui 605 startups mapeadas, segundo o Sebrae Startups Report Nordeste 2025, e ocupa a quarta posição regional no quesito. A maior parte está em fase inicial: 33,55% em ideação, e 34,88% em validação. Apenas 0,99% chegou à fase de escala, o que mostra que o desafio do RN não é apenas criar startups, mas fazer com que elas consigam se consolidar no mercado.

Sustentabilidade como estratégia de negócio para empresas

Se a MicroCiclo representa a inovação que nasce no laboratório, a Plantis Sustentabilidade mostra outro caminho: o da gestão. Criada em 2016, a consultoria ajuda empresas a transformar sustentabilidade em prática diária, com projetos de ESG (sigla em inglês para Environmental, Social and Governance, traduzido para Ambiental, Social e Governança), inventário de emissões, gestão de resíduos, compensação de carbono e educação ambiental.

A empresa diz já ter neutralizado mais de 170 mil quilos de carbono, quantificado mais de 1.140 toneladas de emissões e plantado mais de 8 mil árvores em área de Mata Atlântica. “A Plantis surgiu com o propósito de conectar a sustentabilidade de uma forma mais fácil, mais prática e mais acessível para pessoas e empresas. A gente tinha esse desejo genuíno de conectar gestão e sustentabilidade”, afirma Mariana Nunes, idealizadora da empresa.

Mariana Nunes é a idealizadora da Plantis, consultoria que ajuda empresas a transformar sustentabilidade em prática diária| Foto: Adriano Abreu

O início da consultoria foi em projetos de resíduos sólidos e economia circular, fazendo a ponte entre cooperativas de catadores de Natal e a indústria da reciclagem. Hoje, a Plantis atende empresas de pequeno e grande porte.

“A sustentabilidade precisa ser quantificada, transformada em métricas e indicadores, para que seja possível apresentar o impacto gerado. Ela não é só meio ambiente, também envolve o social, a economia, a gestão, a governança e o próprio negócio”, explica Mariana.

Ainda segundo ela, sustentabilidade não pode aparecer apenas em campanhas da Semana do Meio Ambiente nem ser usada como estratégia de imagem sem mudança real de processos. “O mais difícil é mostrar que sustentabilidade não é hype, é estratégia. Para o negócio continuar, ele precisa olhar de forma permanente para essa pauta. Tem que chegar a quem toma decisão, virar cultura, hábito e política da empresa”, afirma.

Um dos exemplos de aplicação da Plantis está no próprio Sebrae-RN, certificado como Empresa de Impacto Positivo pela neutralização de mais de 1.300 toneladas de CO² acumuladas entre 2021 e 2023. A jornada incluiu créditos de carbono, mudança no combustível da frota, coleta seletiva, compostagem e geração de energia solar. Segundo a idealizadora, mais de 60% dos resíduos que antes iriam para aterro passaram a ter outro destino.

Assim como a MicroCiclo, a Plantis também parte de uma mesma lógica: resolver problemas ambientais sem abrir mão da viabilidade econômica. Para o Sebrae-RN, esse é o ponto central dos negócios de impacto. Na visão de Mona Paula Nóbrega, gerente de Negócios de Impacto do Sebrae-RN, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) ajudam a mostrar quais problemas a inovação precisa enfrentar, como uso da água, crise climática, desigualdade social, conservação dos solos e transição agroecológica.

“A inovação social tem um papel fundamental de trazer base tecnológica, criatividade e soluções capazes de reduzir grandes problemas sociais e ambientais”, afirma Mona. Segundo ela, as mulheres têm ocupado espaços estratégicos nesse campo, principalmente em pautas ligadas à economia verde, economia circular, equidade racial, comunidades periféricas e transição agroecológica.

“São mulheres que lideram a pauta da transição agroecológica no universo rural, que são sensíveis a negócios mais sustentáveis e atuam fortemente na economia verde e na economia circular. A gente tem, sim, uma atuação estratégica de empreendedoras nos negócios de impacto socioambiental”, diz Mona.

O crescimento dessas iniciativas ocorre em um ambiente no qual a presença feminina nos negócios também avança. Um levantamento do Sebrae divulgado em 2026, com base em dados da Receita Federal, mostra que o número de empresas com mulheres no quadro societário no RN cresceu 78,6% em seis anos, passando de 79.658 para 142.273. Atualmente, 45% das empresas potiguares possuem participação feminina entre os sócios.

Nos pequenos negócios, a presença também é expressiva. Entre os 150.060 microempreendedores individuais registrados no RN, 68.042 são gerenciados por mulheres. Nas microempresas, são 50.204 com gestão feminina. Entre as empresas de pequeno porte, 8.111 são administradas por mulheres.

Segundo David Góes, o papel do Sebrae é apoiar essas empreendedoras com ferramentas para que os negócios consigam crescer de forma sustentável. “Os programas de empreendedorismo feminino estão apoiando bastante esse segmento de empresárias, mas sabemos que algumas passam por dupla jornada, e o nosso papel é dar ferramentas para que essas empreendedoras consigam performar”, diz.

Larissa Duarte/Repórter

Tribuna do Norte

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