domingo, 14 de junho de 2026

Crédito amplia negócios com foco em economia circular e biodiversidade no RN

A diretora-técnica Vanessa Fernandes destaca que o acesso ao crédito foi fundamental para expansão da Plantus, que conecta a agricultura familiar à cadeia de bioativos| Foto: Magnus Nascimento

A potiguar Elisângela Lemos, de 52 anos, não consegue dizer o ano exato em que o empreendedorismo entrou na sua vida. Mas, basta perguntar o foco do seu negócio que a resposta vem sem dificuldade: “Eu costumo dizer que a gente transforma caixinhas em amor”. Por trás do balcão da sua loja, localizada na cidade de Areia Branca, ela segura com orgulho as lembrancinhas que ganham vida a partir da reciclagem e fortalecem a economia circular no Rio Grande do Norte.

Neta de agricultores, a empreendedora acompanhava os avós nas plantações, colheitas e venda de produtos naturais. Percebeu que aquele trabalho independente era o que dava sustento para a família. Na adolescência, para continuar mantendo os estudos e alcançar sua própria independência, passou a atuar como revendedora por meio de revistas. “Eu sempre busquei os meus estudos. Como os recursos eram poucos, comecei a trabalhar”, relata.

Elisângela conseguiu terminar o ensino básico e se formou em Serviço Social, mas foi quando ficou desempregada que resolveu tornar o empreendedorismo sua fonte de renda principal. Sua loja, a E&G Cestas e Mensagens, nasceu por meio de um improviso na sala da casa da sua mãe. O negócio começou a se expandir, até alcançar um espaço independente com a ajuda do crédito do Banco do Nordeste (BNB).

A modalidade de crédito acessada pela empreendedora foi o Crediamigo. O empréstimo mais recente foi realizado para melhorar a infraestrutura da sua loja. De acordo com dados do BNB, de janeiro a abril de 2026, o programa concedeu R$ 219,9 milhões em 61,7 mil operações de crédito para iniciativas do Rio Grande do Norte. Em 2025, o montante foi de R$ 695,6 milhões, em mais de 195 mil empréstimos.

O superintendente estadual do BNB no Rio Grande do Norte, Jeová Lins, aponta que o Crediamigo tem como princípio a garantia solidária e foca em pessoas que têm vocação empreendedora, mas estão na informalidade. “Nosso objetivo é que no futuro ela [a pessoa que contrai o empréstimo] seja uma MPE ou uma grande empresa entrando pela porta da frente”, destaca.

Elisângela acessou o Crediamigo para melhorar a estrutura da loja| Foto: Cedida

O negócio de Elisângela, voltado à produção de cestas recicladas para presentes, é resultado de uma prática que ela adotava muito antes de a sustentabilidade se tornar um tema em evidência: “Eu sempre utilizei materiais recicláveis, como papel e papelão. Se tivesse um pedaço de MDF e a porta de um guarda-roupa por perto, eu recortava e montava alguma cestinha ou outra peça”, completa.

Os materiais utilizados na reciclagem pela empreendedora são frutos do seu próprio consumo, mas ela também atua em parceria com outros empreendedores locais para complementar as cestas e levar mensagens em um carro de som. Além do público em cidades potiguares, ela fidelizou clientes que hoje residem na até na Noruega e na Alemanha.

Quando não está na sua loja, Elisângela se mantém como uma presença forte em Areia Branca, seja ministrando oficinas para outras mulheres, ou buscando novas formas de se capacitar. “Isso é empreender: acreditar que o que você fez com carinho, seja uma cesta ou algo mais sofisticado, o cliente vai querer comprar de você. É fazer com que o lucro chegue na mesa do seu filho e da sua família”, destaca.

Valorização da biodiversidade e saberes locais

O desejo de impactar comunidades locais também acompanha Zelita Maria Santos Rocha, de 55 anos, fundadora e CEO da Plantus. A empresa está sediada em Nísia Floresta, na Grande Natal, e tem como foco o fornecimento de óleos essenciais, óleos vegetais, manteigas e extratos para a indústria de cosméticos, farmácia e alimentícia. No processo produtivo, a prioridade está no uso sustentável da matéria-prima e na geração de renda para a agricultura familiar.

Natural de Minas Gerais, ela mora no Rio Grande do Norte desde 1998, e em 2003 ingressou como pesquisadora em um projeto das Nações Unidas (ONU) voltado à conservação ambiental e sustentabilidade. A entrada na iniciativa foi possibilitada por sua atuação anterior em ações socioambientais, como Greenpeace e SOS Mata Atlântica.

Com um interesse genuíno por plantas medicinais, herdado pelos avós que lhe passaram conhecimentos orais sobre esses recursos, foi atuando como pesquisadora que Zelita começou a estudar o uso de ativos da biodiversidade para a indústria. Nesse momento, percebeu uma dor das comunidades de agricultores no Estado e na região Nordeste: permitir que seus produtos tivessem reprodutibilidade e alcançassem empresas que usam bioativos na fabricação de produtos.

A percepção do problema impulsionou a fundação da Plantus, que favorece a conexão entre a indústria e a agricultura familiar. “A visão da Plantus é essa: trabalhar com os pequenos produtores da agricultura familiar e buscar parceiros sérios que acreditem que trabalhar com biodiversidade e o orgânico é algo importante”, aponta a CEO da empresa.

O processo de expansão da empresa, especialmente na parte industrial para a compra de equipamentos e realização de reformas, foi possibilitado pelo acesso a programas de crédito do BNB para micro e pequenas empresas (MPE). De acordo com dados do BNB, foram concedidos R$ 518,6 milhões em 4,8 mil operações de crédito para MPEs no Rio Grande do Norte em 2025. Apenas nos quatro primeiros meses deste ano, foram R$ 126,7 milhões em 1,1 mil operações.

Jeová Lins, superintendente estadual do Banco do Nordeste no RN| Foto: Magnus Nascimento

O BNB classifica como microempresas negócios com faturamento anual de até R$ 360 mil, enquanto que para ser pequena empresa o valor parte de R$ 360 mil até R$ 4,8 milhões. De acordo com Jeová Lins, a principal vantagem é a possibilidade de financiar em até 100% o valor limite estabelecido para enquadrar cada empresa.

“O Banco é o maior parceiro da Plantus. Não tem como vermos crescimento sem esse apoio”, afirma Zelita, reforçando que a Plantus auxilia na ponte entre os agricultores e a instituição financeira.

A diretora-técnica da Plantus, Vanessa Fernandes, explica que inicialmente cerca de 80% dos ativos usados na empresa vinham dos pequenos produtores, incluindo desde famílias no RN até as de regiões da Amazônia. O treinamento dos trabalhadores sobre o cultivo sustentável foi possibilitado mediante uma parceria que ainda se mantém ativa com a ONG Fitovida.

Com o aumento da demanda por ativos, especialmente vindos de plantas exóticas, a empresa começou a trabalhar com fazendas próprias, sendo a primeira adquirida nos Estados Unidos. Já no Rio Grande do Norte, são quatro propriedades, localizadas em São José de Mipibu, Touros, Serra de São Bento e Pedra da Macambira, sendo esta última na divisa do Estado com a Paraíba. Em todas elas, são mantidas uma área de agrofloresta e uma de cultivo por meio do sistema agroflorestal.

Uma das fazendas é a de Japecanga, localizada em São José de Mipibu, que vem contribuindo para a preservação dos biomas caatinga e mata atlântica. É nesse local, também, que a Plantus realiza atividades com estudantes de duas escolas públicas da região com foco na conscientização sobre o uso sustentável de recursos naturais.

“A floresta de Japecanga ia ser derrubada para virar madeira para uma madeireira. Nós adquirimos a fazenda com o objetivo de preservar a floresta e fazer uso sustentável do entorno dela, além de reflorestar uma área que tinha sido devastada pelo antigo agricultor”, lembra Zelita Rocha.

Como metade da demanda da Plantus atualmente é suprida pelas suas fazendas, Vanessa Fernandes observa que a empresa buscou fortalecer a independência dos agricultores: “A gente sempre incentivou as nossas comunidades a não ficarem dependentes somente de um fornecedor, então recomendamos que distribuam entre diferentes clientes para que mantenham a própria sustentabilidade”.

Sustentabilidade como pilar

A professora Marjorie Medeiros, coordenadora do Programa de Educação Ambiental (ProEA) da Diretoria de Meio Ambiente (DMA) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), aponta que a valorização das comunidades locais está entre os princípios de modelos de negócio sustentáveis. Quando ocorre o uso sustentável da biodiversidade, especialmente, o processo tem um conceito definido: “É o que chamamos de bioeconomia, que consiste no uso de recursos biológicos renováveis para produzir, alimentos, energia, materiais e medicamentos”.

Já quando o foco está na transformação de resíduos em novos produtos, conforme explica o professor Julio Rezende, do Departamento de Engenharia de Produção da UFRN, a iniciativa se encaixa no conceito da economia circular. “Esse processo diminui os impactos ambientais e gera valor econômico a partir de recursos que, de outra forma, seriam descartados”, destaca.

De acordo com Jeová Lins, que preside o BNB-RN, alcançar negócios de menor porte e de regiões mais afastadas é uma prioridade para o banco. “Se trabalhamos com o resgate da cidadania, geração de emprego e renda e promoção à igualdade social, temos que trabalhar no pequeno”, ressalta.

Crédito concedido

2025
MPEs - R$ 518,6 milhões em 4,8 mil operações de crédito
Crediamigo - R$ 695,6 milhões em mais de 195 mil operações

De 1º de janeiro a 30 de abril de 2026:
MPEs - R$ 126,7 milhões em 1,1 mil operações
Crediamigo - R$ 219,9 milhões em 61,7 mil operações.

Kayllani Lima Silva/Repórter

Tribuna do Norte

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