domingo, 10 de maio de 2026

Trabalhadores do RN contraíram R$ 1,18 bilhão em consignado CLT

No total, 117,4 mil profissionais aderiram à iniciativa e foram responsáveis pela captação de 254,7 mil empréstimos. Para especialistas, esse é um reflexo do endividamento dos trabalhadores.

O RN contabilizou 254,7 mil contratos de empréstimo consignado CLT, que somaram R$ 1,18 bilhão em pouco mais de um ano - Foto: ALEX RÉGIS

O Rio Grande do Norte ocupa a 5ª posição entre os estados da região Nordeste com mais trabalhadores que contraíram empréstimos por meio do crédito consignado CLT. No total, 117,4 mil profissionais aderiram à iniciativa e foram responsáveis pela captação de 254,7 mil empréstimos, que somaram R$ 1,18 bilhão em pouco mais de um ano. É o que apontam dados levantados pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) a pedido da reportagem da TRIBUNA DO NORTE. Os números correspondem ao período de 2025 (a partir de 21 de março, quando a modalidade entrou em vigor) até 7 de maio de 2026.

O levantamento aponta que o valor total dos empréstimos na região Nordeste foi de R$ 18,7 bilhões, com média de R$ 2,08 bilhões por estado. No recorte nacional, o valor total foi de R$ 127 bilhões, com 21 milhões de contratos para mais de nove milhões de trabalhadores, segundo dados do MTE.

Em número de trabalhadores que aderiram ao consignado no Nordeste, o Rio Grande do Norte, com 117,4 mil adesões, foi superado pelos estados da Bahia (476.109), Ceará (310.535), Pernambuco (302.843) e Maranhão (200.289). Já os estados com menos adesões de trabalhadores ao consignado CLT foram Piauí (67.581) e Sergipe (96.346).

O crédito consignado para CLT, conhecido como Crédito do Trabalhador, foi lançado pelo Governo Federal em março de 2025. Nessa modalidade de empréstimo, os contratos podem ser feitos diretamente pelo aplicativo da Carteira de Trabalho Digital (CTPS Digital) e os descontos das parcelas são realizados mensalmente na folha salarial.

Na época do lançamento, o governo apontou que a proposta da iniciativa era garantir acesso a empréstimos mais baratos pelos trabalhadores, com garantia do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), além de reduzir o superendividamento com a migração de dívidas. Na prática, no entanto, a adesão aponta uma realidade diferente.

O economista Robespierre do Ó avalia a adesão no Rio Grande do Norte como um reflexo do endividamento dos trabalhadores no Estado. Isso porque, na maioria dos casos, eles recorrem ao consignado CLT para conseguir quitar outras dívidas, tendo como principal motivação os juros mais baixos.

“O ideal seria pegar o empréstimo para fazer um investimento, como melhorar o conforto de casa ou comprar um carro. Mas, se olharmos para o perfil do consumidor e trabalhador brasileiro, eles estão usando esse dinheiro para fazer pagamento de dívidas. Isso ocorre porque nós temos hoje um salário mínimo de R$ 1.621, um dos mais baixos da América Latina, fazendo com que o trabalhador tenha dificuldade de fazer o pagamento das suas despesas”, destaca o economista.

Uma perspectiva semelhante é repercutida pelo economista Helder Cavalcanti. De acordo com ele, a alta adesão no Rio Grande do Norte reflete a busca por crédito para recomposição de renda, baixa capacidade de poupança das famílias e dependência financeira crescente. O resultado disso é uma maior vulnerabilidade ao superendividamento.

Helder Cavalcanti: economista - Foto: CEDIDA

“O Estado possui uma renda média inferior à de regiões mais industrializadas do país e enfrenta forte pressão inflacionária sobre itens essenciais, como alimentação, energia e combustíveis. Mesmo com crescimento do emprego formal em alguns setores, muitos trabalhadores ainda convivem com salários insuficientes para acompanhar o custo de vida atual”, completa o especialista.

Na falta de dinheiro para conseguir pagar as contas, os trabalhadores têm perdido o controle com as dívidas. Segundo Robespierre do Ó, mesmo em casos de parcelas com valores mais baixos, além da melhor condição de juros, os valores dos empréstimos podem pesar no bolso quando a maior parte do orçamento está comprometido.

No Rio Grande do Norte, segundo os dados do MTE, a média do valor dos empréstimos adquiridos por meio do consignado CLT corresponde a R$ 4.649,58. Os contratos são fechados com uma média de 26 parcelas no valor de R$ 181,99, e taxa de juros de 3,46%.

“Se pegarmos o valor médio do salário do Rio Grande do Norte, em torno de R$ 3,5 mil, essa parcela pode ser considerada baixa, pois corresponde a cerca de 5% dessa renda. Só que os trabalhadores também precisam arcar com despesas de alimentação, aluguel, escola e plano de saúde, por exemplo. Quando você soma, isso acaba pesando, pois o trabalhador pegou o empréstimo para quitar outro”, explica Robespierre do Ó.

Na avaliação de Helder Cavalcanti, a sustentabilidade financeira depende de três fatores principais: percentual da renda comprometida, finalidade do empréstimo e estabilidade da renda futura. Nos casos em que o consignado é utilizado para complementar a renda do mês ou cobrir um consumo recorrente, ele observa que os riscos de um desequilíbrio financeiro são maiores.

“O prazo médio de 26 parcelas também merece atenção. Embora reduza o valor mensal, ele prolonga o comprometimento da renda por mais de dois anos. Isso reduz a capacidade futura de reação financeira do trabalhador diante de imprevistos, desemprego, problemas de saúde ou novas altas do custo de vida”, afirma o economista.

NÚMEROS

Valor total de empréstimos no Nordeste:
R$ 18.778.440.395,96
Valor total de empréstimos no RN: R$ 1.184.544.696,96
Nº de empréstimos no RN: 254.764
Nº de empréstimos no Brasil: 21 milhões
Valor total de empréstimos no Brasil: R$ 127 bilhões

Número de trabalhadores que contraíram empréstimo por estado do NE
Bahia (476.109)
Ceará (310.535)
Pernambuco (302.843)
Maranhão (200.289)
Rio Grande do Norte (117,400)
Sergipe (96.346)
Piauí (67.581)

Vantagens e desvantagens do consignado CLT

Na hora de decidir ou não pela adesão ao consignado CLT, Robespierre do Ó orienta o trabalhador a analisar três condições do empréstimo: taxa de juros, prestação e prazo. Aliado a isso, ele aponta a n ecessidade de diagnosticar o motivo para fechar o contrato, como a necessidade de arcar com despesas médicas extras ou quitar prestações de um novo veículo. Após isso, o ideal é ter cautela para não precisar realizar novos empréstimos.

Segundo Helder Cavalcanti, o consignado pode ser uma solução para situações como troca de dívidas mais caras, renegociação do cartão de crédito, quitação do cheque especial e reorganização financeira emergencial. “Nesses casos, o trabalhador reduz o custo financeiro mensal e ganha previsibilidade no orçamento. Quando usado com planejamento, o consignado pode evitar um processo mais grave de inadimplência”, esclarece.

Ele pondera, por outro lado, que o risco está na dependência do empréstimo, gerando a redução da renda líquida e necessidade de novos empréstimos. “Além disso, embora o desconto em folha reduza a inadimplência bancária imediata, ele pode aumentar a inadimplência indireta do trabalhador em outras áreas. Muitas vezes a parcela do consignado é paga automaticamente, através do débito em conta, mas faltam recursos para contas como aluguel, contas básicas, alimentação, energia, cartão de crédito e comércio local”, completa.

Apesar dos riscos envolvendo o uso do consignado CLT como complemento da renda, Robespierre do Ó aponta que a tendência é de continuidade na adesão aos empréstimos pelos trabalhadores. A projeção considera um cenário de manutenção de salários apertados, taxas de juros elevadas e alta Inflação de alimentos, aspectos que prejudicam a organização financeira dos trabalhadores.

Para Helder Cavalcanti, além do endividamento das famílias e da inflação pressionando o custo de vida, a modalidade também deve ganhar força porque atende a um público expressivo de trabalhadores formais que antes tinham menos acesso a crédito com taxas menores. “Dentro desse cenário, cresce também a necessidade urgente de políticas estruturadas de educação financeira e comportamental, tanto por parte do Estado quanto das empresas”, destaca.

Educação financeira deveria ser política permanente

O economista observa que a falta de orientação na hora de acessar o crédito pode intensificar diversos problemas sociais. É o caso da ansiedade, adoecimento emocional, conflitos familiares, perda de produtividade no trabalho e quadros de depressão relacionados ao endividamento. “Hoje, a educação financeira não pode mais ser tratada apenas como um tema econômico. Ela passou a ser uma pauta de saúde pública, equilíbrio social e preservação da saúde mental das famílias brasileiras”, argumenta.

Na avaliação de Helder Cavalcanti, o cenário exige políticas permanentes pelo governo e pelas empresas, com foco, dentre outros pontos, na orientação sobre orçamento familiar, consumo consciente, prevenção ao superendividamento, formação de reserva financeira e educação financeira comportamental.

“As empresas também possuem papel estratégico nesse processo. Trabalhadores financeiramente adoecidos tendem a apresentar maior estresse, absenteísmo, queda de produtividade e dificuldades emocionais no ambiente profissional. Investir em educação financeira corporativa pode gerar benefícios tanto para os colaboradores quanto para a sustentabilidade das próprias organizações”, defende.

À TRIBUNA DO NORTE, o MTE afirmou que adota medidas de monitoramento voltadas à oferta de crédito consignado, com foco na prevenção de riscos como o superendividamento. A Resolução CGCONSIG/MTE nº 2/2026, por exemplo, estabelece diretrizes para monitoramento e controle de práticas abusivas relacionadas a juros e ao Custo Efetivo Total (CET).

Na avaliação do MTE, a norma contribui para maior transparência e equilíbrio nas operações. “Como medida de proteção, a norma busca coibir abusos e promover a concessão de crédito em bases mais sustentáveis, em benefício dos trabalhadores”, completa em nota do ministério.

Tribuna do Norte

 

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