No total, 117,4 mil profissionais aderiram à iniciativa e
foram responsáveis pela captação de 254,7 mil empréstimos. Para especialistas,
esse é um reflexo do endividamento dos trabalhadores.
O RN contabilizou 254,7 mil contratos de empréstimo consignado CLT, que somaram R$ 1,18 bilhão em pouco mais de um ano - Foto: ALEX RÉGIS
O
Rio Grande do Norte ocupa a 5ª posição entre os estados da região Nordeste com
mais trabalhadores que contraíram empréstimos por meio do crédito consignado
CLT. No total, 117,4 mil profissionais aderiram à iniciativa e foram
responsáveis pela captação de 254,7 mil empréstimos, que somaram R$ 1,18 bilhão
em pouco mais de um ano. É o que apontam dados levantados pelo Ministério do
Trabalho e Emprego (MTE) a pedido da reportagem da TRIBUNA DO NORTE. Os números
correspondem ao período de 2025 (a partir de 21 de março, quando a modalidade
entrou em vigor) até 7 de maio de 2026.
O
levantamento aponta que o valor total dos empréstimos na região Nordeste foi de
R$ 18,7 bilhões, com média de R$ 2,08 bilhões por estado. No recorte nacional,
o valor total foi de R$ 127 bilhões, com 21 milhões de contratos para mais de
nove milhões de trabalhadores, segundo dados do MTE.
Em
número de trabalhadores que aderiram ao consignado no Nordeste, o Rio Grande do
Norte, com 117,4 mil adesões, foi superado pelos estados da Bahia (476.109),
Ceará (310.535), Pernambuco (302.843) e Maranhão (200.289). Já os estados com
menos adesões de trabalhadores ao consignado CLT foram Piauí (67.581) e Sergipe
(96.346).
O
crédito consignado para CLT, conhecido como Crédito do Trabalhador, foi lançado
pelo Governo Federal em março de 2025. Nessa modalidade de empréstimo, os
contratos podem ser feitos diretamente pelo aplicativo da Carteira de Trabalho
Digital (CTPS Digital) e os descontos das parcelas são realizados mensalmente
na folha salarial.
Na
época do lançamento, o governo apontou que a proposta da iniciativa era
garantir acesso a empréstimos mais baratos pelos trabalhadores, com garantia do
Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), além de reduzir o
superendividamento com a migração de dívidas. Na prática, no entanto, a adesão
aponta uma realidade diferente.
O
economista Robespierre do Ó avalia a adesão no Rio Grande do Norte como um
reflexo do endividamento dos trabalhadores no Estado. Isso porque, na maioria
dos casos, eles recorrem ao consignado CLT para conseguir quitar outras
dívidas, tendo como principal motivação os juros mais baixos.
“O
ideal seria pegar o empréstimo para fazer um investimento, como melhorar o
conforto de casa ou comprar um carro. Mas, se olharmos para o perfil do
consumidor e trabalhador brasileiro, eles estão usando esse dinheiro para fazer
pagamento de dívidas. Isso ocorre porque nós temos hoje um salário mínimo de R$
1.621, um dos mais baixos da América Latina, fazendo com que o trabalhador
tenha dificuldade de fazer o pagamento das suas despesas”, destaca o
economista.
Uma
perspectiva semelhante é repercutida pelo economista Helder Cavalcanti. De
acordo com ele, a alta adesão no Rio Grande do Norte reflete a busca por
crédito para recomposição de renda, baixa capacidade de poupança das famílias e
dependência financeira crescente. O resultado disso é uma maior vulnerabilidade
ao superendividamento.
Helder
Cavalcanti: economista - Foto: CEDIDA
“O
Estado possui uma renda média inferior à de regiões mais industrializadas do
país e enfrenta forte pressão inflacionária sobre itens essenciais, como
alimentação, energia e combustíveis. Mesmo com crescimento do emprego formal em
alguns setores, muitos trabalhadores ainda convivem com salários insuficientes
para acompanhar o custo de vida atual”, completa o especialista.
Na
falta de dinheiro para conseguir pagar as contas, os trabalhadores têm perdido
o controle com as dívidas. Segundo Robespierre do Ó, mesmo em casos de parcelas
com valores mais baixos, além da melhor condição de juros, os valores dos
empréstimos podem pesar no bolso quando a maior parte do orçamento está
comprometido.
No
Rio Grande do Norte, segundo os dados do MTE, a média do valor dos empréstimos
adquiridos por meio do consignado CLT corresponde a R$ 4.649,58. Os contratos
são fechados com uma média de 26 parcelas no valor de R$ 181,99, e taxa de
juros de 3,46%.
“Se pegarmos o valor médio do salário do Rio Grande do Norte, em torno de R$ 3,5 mil, essa parcela pode ser considerada baixa, pois corresponde a cerca de 5% dessa renda. Só que os trabalhadores também precisam arcar com despesas de alimentação, aluguel, escola e plano de saúde, por exemplo. Quando você soma, isso acaba pesando, pois o trabalhador pegou o empréstimo para quitar outro”, explica Robespierre do Ó.
Na avaliação de Helder Cavalcanti, a sustentabilidade financeira depende de
três fatores principais: percentual da renda comprometida, finalidade do
empréstimo e estabilidade da renda futura. Nos casos em que o consignado é
utilizado para complementar a renda do mês ou cobrir um consumo recorrente, ele
observa que os riscos de um desequilíbrio financeiro são maiores.
“O
prazo médio de 26 parcelas também merece atenção. Embora reduza o valor mensal,
ele prolonga o comprometimento da renda por mais de dois anos. Isso reduz a
capacidade futura de reação financeira do trabalhador diante de imprevistos,
desemprego, problemas de saúde ou novas altas do custo de vida”, afirma o
economista.
NÚMEROS
Valor
total de empréstimos no Nordeste:
R$ 18.778.440.395,96
Valor total de empréstimos no RN: R$ 1.184.544.696,96
Nº de empréstimos no RN: 254.764
Nº de empréstimos no Brasil: 21 milhões
Valor total de empréstimos no Brasil: R$ 127 bilhões
Número
de trabalhadores que contraíram empréstimo por estado do NE
Bahia (476.109)
Ceará (310.535)
Pernambuco (302.843)
Maranhão (200.289)
Rio Grande do Norte (117,400)
Sergipe (96.346)
Piauí (67.581)
Vantagens
e desvantagens do consignado CLT
Na
hora de decidir ou não pela adesão ao consignado CLT, Robespierre do Ó orienta
o trabalhador a analisar três condições do empréstimo: taxa de juros, prestação
e prazo. Aliado a isso, ele aponta a n ecessidade de diagnosticar o motivo para
fechar o contrato, como a necessidade de arcar com despesas médicas extras ou
quitar prestações de um novo veículo. Após isso, o ideal é ter cautela para não
precisar realizar novos empréstimos.
Segundo
Helder Cavalcanti, o consignado pode ser uma solução para situações como troca
de dívidas mais caras, renegociação do cartão de crédito, quitação do cheque
especial e reorganização financeira emergencial. “Nesses casos, o trabalhador
reduz o custo financeiro mensal e ganha previsibilidade no orçamento. Quando
usado com planejamento, o consignado pode evitar um processo mais grave de
inadimplência”, esclarece.
Ele
pondera, por outro lado, que o risco está na dependência do empréstimo, gerando
a redução da renda líquida e necessidade de novos empréstimos. “Além disso,
embora o desconto em folha reduza a inadimplência bancária imediata, ele pode
aumentar a inadimplência indireta do trabalhador em outras áreas. Muitas vezes
a parcela do consignado é paga automaticamente, através do débito em conta, mas
faltam recursos para contas como aluguel, contas básicas, alimentação, energia,
cartão de crédito e comércio local”, completa.
Apesar
dos riscos envolvendo o uso do consignado CLT como complemento da renda,
Robespierre do Ó aponta que a tendência é de continuidade na adesão aos
empréstimos pelos trabalhadores. A projeção considera um cenário de manutenção
de salários apertados, taxas de juros elevadas e alta Inflação de alimentos,
aspectos que prejudicam a organização financeira dos trabalhadores.
Para
Helder Cavalcanti, além do endividamento das famílias e da inflação
pressionando o custo de vida, a modalidade também deve ganhar força porque
atende a um público expressivo de trabalhadores formais que antes tinham menos
acesso a crédito com taxas menores. “Dentro desse cenário, cresce também a
necessidade urgente de políticas estruturadas de educação financeira e
comportamental, tanto por parte do Estado quanto das empresas”, destaca.
Educação
financeira deveria ser política permanente
O
economista observa que a falta de orientação na hora de acessar o crédito pode
intensificar diversos problemas sociais. É o caso da ansiedade, adoecimento
emocional, conflitos familiares, perda de produtividade no trabalho e quadros
de depressão relacionados ao endividamento. “Hoje, a educação financeira não
pode mais ser tratada apenas como um tema econômico. Ela passou a ser uma pauta
de saúde pública, equilíbrio social e preservação da saúde mental das famílias
brasileiras”, argumenta.
Na
avaliação de Helder Cavalcanti, o cenário exige políticas permanentes pelo
governo e pelas empresas, com foco, dentre outros pontos, na orientação sobre
orçamento familiar, consumo consciente, prevenção ao superendividamento,
formação de reserva financeira e educação financeira comportamental.
“As
empresas também possuem papel estratégico nesse processo. Trabalhadores
financeiramente adoecidos tendem a apresentar maior estresse, absenteísmo,
queda de produtividade e dificuldades emocionais no ambiente profissional.
Investir em educação financeira corporativa pode gerar benefícios tanto para os
colaboradores quanto para a sustentabilidade das próprias organizações”,
defende.
À
TRIBUNA DO NORTE, o MTE afirmou que adota medidas de monitoramento voltadas à
oferta de crédito consignado, com foco na prevenção de riscos como o
superendividamento. A Resolução CGCONSIG/MTE nº 2/2026, por exemplo, estabelece
diretrizes para monitoramento e controle de práticas abusivas relacionadas a
juros e ao Custo Efetivo Total (CET).
Na
avaliação do MTE, a norma contribui para maior transparência e equilíbrio nas
operações. “Como medida de proteção, a norma busca coibir abusos e promover a
concessão de crédito em bases mais sustentáveis, em benefício dos
trabalhadores”, completa em nota do ministério.
Tribuna do Norte

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