Na contramão do que vem sendo
observado no cenário nacional, o custo dos fretes marítimos nas exportações do
Rio Grande do Norte ainda não disparou de forma significativa após a guerra no
Oriente Médio, segundo relatos ouvidos pela reportagem. No entanto, há uma
preocupação com o futuro da atividade à medida que o conflito continua.
Enquanto setores como o da pesca não registraram impacto, há casos de aumento
de cerca de 40% no frete para regiões do conflito.
Dados da Solve Shipping
apontam que o preço dos fretes marítimos subiu 67%, entre março e abril, na
exportação de contêineres do Brasil para o Mediterrâneo, que serve de rota ao
Oriente Médio. Outros trajetos de exportação com alta foram a rota para o Norte
da Europa (aumento mensal de 80%) e para o Golfo do México (89%), de acordo com
a consultoria.
A logística interna no RN teve
um impacto mais imediato, com o aumento do preço do combustível — também
reflexo da guerra. Cabe lembrar que o modal marítimo concentrou 86,6% do valor
total exportado pelo RN em 2025, somando US$ 941,1 milhões e movimentando um
volume de 2,5 bilhões de quilogramas líquidos, segundo levantamento do
Sebrae-RN.
O impacto sobre a exportação
tende a ser mais sentido nos setores com forte perfil exportador e menor margem
para absorver custos, como fruticultura, sal, pescados e aquicultura, avalia a
Federação das Indústrias do RN (Fiern). Na visão da entidade, isso ocorre
porque esses são segmentos sensíveis ao custo logístico e à necessidade de
prazos eficientes.
De acordo com especialistas, o
impacto no RN existe, mas ainda não foi tão sentido por alguns segmentos ou
empresas. Uma das razões disso é que a fruticultura, um dos principais setores
da pauta exportadora potiguar, está no período de entressafra e não exportou
tanto desde que a guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã começou, em
fevereiro.
Ainda assim, o sentimento é de
apreensão, diz o presidente do Comitê Executivo de Fruticultura do Estado
(Coex-RN), Fábio Queiroga. “Estamos bem apreensivos com o aumento dos fretes,
que sabemos que será um valor significativo, devido aos problemas logísticos
internacionais. Entretanto, ainda não sabemos a magnitude deste aumento”,
afirma.
Segundo ele, novas negociações
sobre preços de frete para a próxima safra deverão ocorrer a partir de junho. A
expectativa é de que haja aumento, o que desequilibra o custo de produção, que
“será mais elevado por consequência do aumento dos fretes devido ao caos
logístico marítimo, bem como dos fretes rodoviários até o porto”, explica
Queiroga. “Também teremos aumento de custo dos insumos que, em grande parte,
dependem do petróleo”.
Fábio Queiroga, do Coex-RN: “Estamos
bem apreensivos com o aumento dos fretes. Será um valor significativo” | Foto:
Arquivo TN
A Agrícola Famosa ainda não
sentiu o impacto no preço do frete marítimo, segundo Carlo Porro, CEO da
empresa. “Como os volumes já caíram muito [neste período de entressafra], o
impacto não foi relevante. A questão é o que vai ser para a próxima safra, que
a gente ainda não sabe. Mas com certeza o bunker [combustível usado em navios]
deve subir”.
“O maior impacto que o
produtor de melão está sentindo é no frete do mercado interno, por causa do
preço do diesel”, frisa Porro. Para ele, aumentar o custo da fruta pode ser a
única medida para compensar o maior custo do transporte. O mercado europeu é o
principal comprador dos melões potiguares.
Arimar França Filho,
presidente do Sindicato da Indústria da Pesca do Rio Grande do Norte e diretor
da empresa Produmar, afirma que o setor da pesca não está exportando muitos
itens por via marítima. Dessa forma, ainda não foi afetado diretamente pela dinâmica
da guerra.
Já o presidente do Coex-RN
destaca que o RN não envia frutas para a região onde está havendo bloqueio de
navios, o Estreito de Ormuz. O problema é a falta de contêineres disponíveis
para o transporte das mercadorias, pois há muitos navios para transporte de
produtos resfriados parados neste momento.
40% de impacto
Luiz Eduardo Simas, diretor de
Exportações da Simas Industrial — fabricante de balas, pirulitos e caramelos —
cita o exemplo de alguns clientes da companhia no Leste Europeu e no Oriente
Médio que aguardam uma possível mudança de cenário nas próximas semanas para
autorizarem o envio dos contêineres.
“Para essa região, o impacto
do valor do frete foi maior, bem como no acesso aos portos de destino. Por ser
na região dos conflitos, o valor aumentou em torno de 40%”, afirma Simas.
O primeiro efeito ocorreu nos
valores dos fretes terrestres até os portos, que já subiram pelo menos 15%
devido à alta do combustível, diz o diretor. “O aumento dos fretes
internacionais tem impacto na competitividade dos produtos, já que isso tem
efeito direto no custo dos produtos”.
“Frete mais caro [representa
um] custo de produto mais alto. Os clientes não conseguem absorver os aumentos
de imediato e acabam ‘segurando’ um pouco as compras até que o cenário mude”,
observa. No caso da Simas Industrial, a maior parte das exportações segue para
a América do Norte, América Central e América do Sul.
A empresa mantém contrato de
frete com as companhias de navegação até o final de junho. Quando os contratos
vencerem, deve haver novas negociações, mas não há previsão de quanto será o
impacto. Por isso, alguns clientes ainda avaliam o desenrolar da guerra.
Custo do frete reduz
competitividade
A Fiern avalia que o aumento
dos fretes marítimos reduz a competitividade da indústria exportadora do RN, ao
elevar custos e pressionar margens. “O cenário também traz mais incerteza às
operações e dificulta o planejamento das empresas”, frisa o presidente da
entidade, Roberto Serquiz.
O professor Carlos Alberto
Freire Medeiros, do Departamento de Ciências Administrativas da Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, pontua que o efeito desse cenário é maior em
setores cuja pauta é composta por commodities, como a fruticultura e a indústria
salineira, porque se tratam de produtos com margens de lucro mais estreitas e
forte dependência da logística marítima.
“No caso dos combustíveis,
também há impacto, mas ele pode ser parcialmente compensado pela elevação dos
preços internacionais do petróleo”, acrescenta. Na avaliação do professor, o
cenário é de instabilidade e cautela, devido às tensões geopolíticas e seus
reflexos sobre o transporte marítimo internacional.
Com a continuidade do
conflito, os riscos para as exportações potiguares são elevados, além da
incerteza sobre custos, prazos e rotas. Isso pode comprometer a rentabilidade
de setores relevantes da pauta exportadora potiguar, diz Medeiros. “Para o
futuro, a tendência é de continuidade da pressão sobre os custos logísticos e
consequente inflação mundial, o que impõe desafios adicionais às exportações
potiguares de sal, frutas e outros produtos de menor margem.”
Enquanto isso, desenha-se um
cenário de incertezas e de possíveis adaptações que as empresas exportadoras do
RN podem precisar fazer, afirma o professor. Isso inclui estratégias como
renegociar contratos para recompor preços, revisar custos logísticos, buscar
maior previsibilidade no transporte e diversificar mercados.
“A Fiern defende investimentos
em infraestrutura logística, maior eficiência nas operações portuárias e
diversificação de mercados e rotas. E, diante de um cenário global, tem
dialogado com o setor público, buscando manter minimamente as condições atuais”,
afirma Serquiz.
Contexto nacional
Em curso há cerca de dois
meses, a guerra pressionou fretes de exportação no Brasil em abril. Os aumentos
chegaram a 89% em algumas rotas, enquanto o custo de contêineres refrigerados
mais que dobrou no trajeto ligado ao Oriente Médio. As informações são do
jornal Valor Econômico.
O jornal apurou que a alta é
explicada pelo encarecimento do petróleo, redução da capacidade global de
transporte e congestionamentos em rotas alternativas. Além disso, empresas
passaram a cobrar taxas extras, como “risco de guerra”, além do frete regular.
Há também a falta de combustível, a escassez de contêineres e novos aumentos
caso o conflito continue.
Já nas importações, o impacto
tem sido menor no Brasil. Na rota da Ásia, a principal para o país, por
exemplo, a alta mensal em abril foi de 4,65%. Além disso, portos que servem de
alternativa ao Estreito de Ormuz enfrentam congestionamento, em países como
Paquistão, Omã, Singapura e Arábia Saudita, segundo o Valor.
No mesmo dia em que o Irã
anunciou a reabertura do Estreito de Ormuz, nesta sexta-feira (17), veículos da
imprensa noticiaram que o país ameaçou voltar atrás da decisão após ações dos
EUA. Até o fechamento desta edição, a incerteza sobre os rumos do conflito e da
abertura ou não do estreito permanecia.
Fernando Azevêdo/Repórter
Tribuna do Norte

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