sábado, 18 de abril de 2026

Risco de aumento no custo do frete por conta da guerra preocupa exportadores

Impacto sobre a exportação deve ser mais sentido nos setores com perfil exportador e menor margem para custos, como fruticultura, sal e pescados | Foto: Arquivo TN

Na contramão do que vem sendo observado no cenário nacional, o custo dos fretes marítimos nas exportações do Rio Grande do Norte ainda não disparou de forma significativa após a guerra no Oriente Médio, segundo relatos ouvidos pela reportagem. No entanto, há uma preocupação com o futuro da atividade à medida que o conflito continua. Enquanto setores como o da pesca não registraram impacto, há casos de aumento de cerca de 40% no frete para regiões do conflito.

Dados da Solve Shipping apontam que o preço dos fretes marítimos subiu 67%, entre março e abril, na exportação de contêineres do Brasil para o Mediterrâneo, que serve de rota ao Oriente Médio. Outros trajetos de exportação com alta foram a rota para o Norte da Europa (aumento mensal de 80%) e para o Golfo do México (89%), de acordo com a consultoria.

A logística interna no RN teve um impacto mais imediato, com o aumento do preço do combustível — também reflexo da guerra. Cabe lembrar que o modal marítimo concentrou 86,6% do valor total exportado pelo RN em 2025, somando US$ 941,1 milhões e movimentando um volume de 2,5 bilhões de quilogramas líquidos, segundo levantamento do Sebrae-RN.

O impacto sobre a exportação tende a ser mais sentido nos setores com forte perfil exportador e menor margem para absorver custos, como fruticultura, sal, pescados e aquicultura, avalia a Federação das Indústrias do RN (Fiern). Na visão da entidade, isso ocorre porque esses são segmentos sensíveis ao custo logístico e à necessidade de prazos eficientes.

De acordo com especialistas, o impacto no RN existe, mas ainda não foi tão sentido por alguns segmentos ou empresas. Uma das razões disso é que a fruticultura, um dos principais setores da pauta exportadora potiguar, está no período de entressafra e não exportou tanto desde que a guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã começou, em fevereiro.

Ainda assim, o sentimento é de apreensão, diz o presidente do Comitê Executivo de Fruticultura do Estado (Coex-RN), Fábio Queiroga. “Estamos bem apreensivos com o aumento dos fretes, que sabemos que será um valor significativo, devido aos problemas logísticos internacionais. Entretanto, ainda não sabemos a magnitude deste aumento”, afirma.

Segundo ele, novas negociações sobre preços de frete para a próxima safra deverão ocorrer a partir de junho. A expectativa é de que haja aumento, o que desequilibra o custo de produção, que “será mais elevado por consequência do aumento dos fretes devido ao caos logístico marítimo, bem como dos fretes rodoviários até o porto”, explica Queiroga. “Também teremos aumento de custo dos insumos que, em grande parte, dependem do petróleo”.

Fábio Queiroga, do Coex-RN: “Estamos bem apreensivos com o aumento dos fretes. Será um valor significativo” | Foto: Arquivo TN

A Agrícola Famosa ainda não sentiu o impacto no preço do frete marítimo, segundo Carlo Porro, CEO da empresa. “Como os volumes já caíram muito [neste período de entressafra], o impacto não foi relevante. A questão é o que vai ser para a próxima safra, que a gente ainda não sabe. Mas com certeza o bunker [combustível usado em navios] deve subir”.

“O maior impacto que o produtor de melão está sentindo é no frete do mercado interno, por causa do preço do diesel”, frisa Porro. Para ele, aumentar o custo da fruta pode ser a única medida para compensar o maior custo do transporte. O mercado europeu é o principal comprador dos melões potiguares.

Arimar França Filho, presidente do Sindicato da Indústria da Pesca do Rio Grande do Norte e diretor da empresa Produmar, afirma que o setor da pesca não está exportando muitos itens por via marítima. Dessa forma, ainda não foi afetado diretamente pela dinâmica da guerra.

Já o presidente do Coex-RN destaca que o RN não envia frutas para a região onde está havendo bloqueio de navios, o Estreito de Ormuz. O problema é a falta de contêineres disponíveis para o transporte das mercadorias, pois há muitos navios para transporte de produtos resfriados parados neste momento.

40% de impacto

Luiz Eduardo Simas, diretor de Exportações da Simas Industrial — fabricante de balas, pirulitos e caramelos — cita o exemplo de alguns clientes da companhia no Leste Europeu e no Oriente Médio que aguardam uma possível mudança de cenário nas próximas semanas para autorizarem o envio dos contêineres.

“Para essa região, o impacto do valor do frete foi maior, bem como no acesso aos portos de destino. Por ser na região dos conflitos, o valor aumentou em torno de 40%”, afirma Simas.

O primeiro efeito ocorreu nos valores dos fretes terrestres até os portos, que já subiram pelo menos 15% devido à alta do combustível, diz o diretor. “O aumento dos fretes internacionais tem impacto na competitividade dos produtos, já que isso tem efeito direto no custo dos produtos”.

“Frete mais caro [representa um] custo de produto mais alto. Os clientes não conseguem absorver os aumentos de imediato e acabam ‘segurando’ um pouco as compras até que o cenário mude”, observa. No caso da Simas Industrial, a maior parte das exportações segue para a América do Norte, América Central e América do Sul.

A empresa mantém contrato de frete com as companhias de navegação até o final de junho. Quando os contratos vencerem, deve haver novas negociações, mas não há previsão de quanto será o impacto. Por isso, alguns clientes ainda avaliam o desenrolar da guerra.

Custo do frete reduz competitividade

A Fiern avalia que o aumento dos fretes marítimos reduz a competitividade da indústria exportadora do RN, ao elevar custos e pressionar margens. “O cenário também traz mais incerteza às operações e dificulta o planejamento das empresas”, frisa o presidente da entidade, Roberto Serquiz.

O professor Carlos Alberto Freire Medeiros, do Departamento de Ciências Administrativas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, pontua que o efeito desse cenário é maior em setores cuja pauta é composta por commodities, como a fruticultura e a indústria salineira, porque se tratam de produtos com margens de lucro mais estreitas e forte dependência da logística marítima.

“No caso dos combustíveis, também há impacto, mas ele pode ser parcialmente compensado pela elevação dos preços internacionais do petróleo”, acrescenta. Na avaliação do professor, o cenário é de instabilidade e cautela, devido às tensões geopolíticas e seus reflexos sobre o transporte marítimo internacional.

Com a continuidade do conflito, os riscos para as exportações potiguares são elevados, além da incerteza sobre custos, prazos e rotas. Isso pode comprometer a rentabilidade de setores relevantes da pauta exportadora potiguar, diz Medeiros. “Para o futuro, a tendência é de continuidade da pressão sobre os custos logísticos e consequente inflação mundial, o que impõe desafios adicionais às exportações potiguares de sal, frutas e outros produtos de menor margem.”

Enquanto isso, desenha-se um cenário de incertezas e de possíveis adaptações que as empresas exportadoras do RN podem precisar fazer, afirma o professor. Isso inclui estratégias como renegociar contratos para recompor preços, revisar custos logísticos, buscar maior previsibilidade no transporte e diversificar mercados.

“A Fiern defende investimentos em infraestrutura logística, maior eficiência nas operações portuárias e diversificação de mercados e rotas. E, diante de um cenário global, tem dialogado com o setor público, buscando manter minimamente as condições atuais”, afirma Serquiz.

Contexto nacional

Em curso há cerca de dois meses, a guerra pressionou fretes de exportação no Brasil em abril. Os aumentos chegaram a 89% em algumas rotas, enquanto o custo de contêineres refrigerados mais que dobrou no trajeto ligado ao Oriente Médio. As informações são do jornal Valor Econômico.

O jornal apurou que a alta é explicada pelo encarecimento do petróleo, redução da capacidade global de transporte e congestionamentos em rotas alternativas. Além disso, empresas passaram a cobrar taxas extras, como “risco de guerra”, além do frete regular. Há também a falta de combustível, a escassez de contêineres e novos aumentos caso o conflito continue.

Já nas importações, o impacto tem sido menor no Brasil. Na rota da Ásia, a principal para o país, por exemplo, a alta mensal em abril foi de 4,65%. Além disso, portos que servem de alternativa ao Estreito de Ormuz enfrentam congestionamento, em países como Paquistão, Omã, Singapura e Arábia Saudita, segundo o Valor.

No mesmo dia em que o Irã anunciou a reabertura do Estreito de Ormuz, nesta sexta-feira (17), veículos da imprensa noticiaram que o país ameaçou voltar atrás da decisão após ações dos EUA. Até o fechamento desta edição, a incerteza sobre os rumos do conflito e da abertura ou não do estreito permanecia.

Fernando Azevêdo/Repórter

Tribuna do Norte

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