Antônio de Pádua coleciona figurinhas desde os oito anos de idade e já perdeu a conta de quantos álbuns guarda. Para ele, a Copa é especial | Foto: Alex Régis
A cena se repete a cada quatro anos: mãos ansiosas para rasgar os pacotes e a expectativa de encontrar a figurinha que falta. Mesmo antes do lançamento do álbum da Copa do Mundo de 2026, colecionadores de Natal já aguardam com entusiasmo a edição, que será lançada em 1º de maio. Para muitos, é nesse momento que começa, de fato, o clima de Copa — antes mesmo da bola rolar.
A coleção oficial do álbum da
Copa do Mundo de 2026, que já está em pré-venda, será uma das maiores da
história. Ao todo, serão 980 figurinhas — sendo 912 em papel couché e 68
especiais em material metalizado — número recorde impulsionado pela ampliação do
torneio para 48 seleções. Todas as equipes classificadas estarão representadas
nas páginas do álbum.
Dono de uma das bancas mais
conhecidas de Natal, Joanilson Júnior da Silva, o “Jr Figurinhas”, tem
recebido, há semanas, a mesma mensagem de diferentes clientes. “A pergunta que
mais chega ultimamente é: ‘Jr, o álbum chega quando?’”, conta o proprietário
enquanto aponta para o celular.
A banca localizada no bairro
Candelária vende figurinhas há 20 anos. Apesar de comercializar álbuns e cromos
de diferentes temáticas ao longo do ano, é a Copa do Mundo que concentra a
maior procura. Durante o período do torneio, a demanda cresce significativamente,
impulsionada pelo interesse de colecionadores de todas as idades.
O interesse pelas figurinhas
muitas vezes começa dentro de casa, passado de geração em geração. “Eu tenho
colecionadores que frequentam a banca de Copa em Copa, porque isso já vem dos
pais, dos avós que tinham esse hábito de colecionar com relação à Copa do
Mundo”, revela Júnior.
Ele conta que já presenciou
casos de álbuns de Copas antigas avaliados em mais de R$ 20 mil — e, ainda
assim, os donos não abrem mão das coleções, justamente pelo valor afetivo e
pela tradição familiar que carregam.
Como colecionador, ele sabe
que juntar não é apenas mera diversão, mas guardar momentos. “O colecionismo é
algo ímpar. Eu não entendo de onde vem. Eu, por exemplo, comecei a colecionar,
tinha nove anos de idade. Meu primeiro álbum de figurinhas foi com nove anos.
Hoje, já incentivei meus filhos a colecionar também”, recorda.
Colecionador apaixonado, o
proprietário da banca tem álbuns de diversas Copas do Mundo, além de edições
especiais da seleção brasileira e de períodos pré-Copa. Parte dessas coleções
sequer teve as figurinhas coladas, preservadas com cuidado ao longo dos anos. O
envolvimento é tanto que Júnior conhece de memória as figurinhas da seleção
brasileira, identificando jogadores apenas pelo número da cartela em diferentes
edições.
Segundo ele, não existe idade
para entrar nesse universo: “eu tenho crianças com quatro anos de idade que
começam a colecionar e eu tenho senhores hoje com 80 anos de idade que
colecionam álbuns de figurinhas”.
O advogado Antônio de Pádua
coleciona figurinhas desde os oito anos de idade e já perdeu a conta de quantos
álbuns guarda. A coleção é diversa — inclui filmes, desenhos animados,
campeonatos ao redor do mundo e diferentes modalidades esportivas —, mas são as
Copas do Mundo que ocupam um lugar especial. “Na Copa do Mundo tudo se
transforma, tudo fica mais alegre, mais colorido, devido a que todo mundo quer
que sua seleção seja vitoriosa. E você ter um álbum da Copa do Mundo com o seu
país que foi vitorioso é lindo demais”, disse.
Apesar de reunir álbuns de
diferentes edições, ele afirma que o interesse nunca diminui e já aguarda com
ansiedade a Copa de 2026.
Para o colecionador, cada
álbum carrega uma história própria, pois desperta lembranças pessoais do ano
vivido. “Cada Copa traz memórias. Você vem trazendo emoções únicas, porque em
cada Copa você está com um grupo diferente, você está ou com a família, ou está
com amigos”, destaca Antônio.
Álbum será mais difícil de
completar
Antônio de Pádua avalia que a
edição de 2026 traz uma empolgação extra justamente pelo desafio que representa
para os colecionadores. As 980 figurinhas representam um número
significativamente superior ao da edição anterior, da Copa do Mundo do Catar,
em 2022, que teve 670 cromos.
O aumento no número de
figurinhas está diretamente relacionado à ampliação de seleções participantes
no torneio. Enquanto em 2022 eram 32 países que disputaram a competição, este
ano contará com 48 seleções.
De acordo com ele, essa
ampliação torna a experiência ainda mais envolvente e desafiadora para quem
busca completar a coleção. “As expectativas são as melhores possíveis. Vai ser
a maior Copa e a mais grandiosa, pela quantidade de países participando da Copa
do Mundo, que teve um crescimento bastante considerável”, avalia Antônio de
Pádua.
O novo álbum também chega com
mudanças nos preços. Cada pacote custará R$ 7 e trará sete figurinhas. Para
efeito de comparação, na Copa do Mundo de 2022, no Catar, os pacotes eram
vendidos por R$ 4 e continham cinco cromos, o que reforça o aumento no investimento
necessário para completar a coleção.
O empresário Bruno Lorenski,
que também coleciona álbuns da Copa, destaca que o desafio será ainda maior
nesta edição e já prepara as estratégias. “Vai ser um álbum bem mais difícil de
completar. No dia do lançamento eu vou abrir 4 mil pacotes”, afirma sobre a
preparação.
Trocas
Estimativas baseadas na
probabilidade de repetição indicam que completar o álbum da Copa de 2026 pode
custar até R$ 7 mil, sem considerar as trocas de figurinhas. Com as trocas,
esse valor pode cair para cerca de R$ 1.500.
A troca de figurinhas é um dos
momentos mais especiais para os colecionadores — e também faz parte das
memórias de Joanilson Júnior.
A trajetória como colecionador
de álbuns da Copa começou em 2006. Ao abrir o primeiro pacote de figurinhas,
tirou justamente o escudo do Brasil — uma peça chamativa, toda prateada. Ainda
assim, acabou cedendo a figurinha para um cliente que também queria completar a
coleção.
Depois, quando decidiu fechar
o próprio álbum, não conseguiu de imediato. Faltava a figurinha do escudo do
Brasil. Foi então que passou a trocar figurinhas com todo mundo, em busca do
escudo novamente. “Fiquei na ansiedade, pedindo a todo mundo”, lembra.
No fim, recebeu cinco
figurinhas repetidas do escudo e fez questão de agradecer a cada cliente que
lhe deu. “A gente coleciona figurinha, mas a gente faz amizade também”, disse
Júnior.
Para ele, o colecionismo vai
além do álbum: cria laços. Hoje, esse espírito se mantém nas trocas que
organiza todos os fins de semana, reunindo pais e filhos, avós e netos, tios e
sobrinhos em um espaço dedicado à troca de figurinhas.
Coleções trazem lembranças de
infância
Na banca de Júnior, as
figurinhas também viraram ferramenta de incentivo para as crianças. Alguns pais
adotam um método simples: boas notas, leitura em dia ou bom comportamento
rendem como recompensa um pacote de figurinhas. Segundo os frequentadores, a estratégia
tem se mostrado eficaz por estimular hábitos positivos e ajudar a reduzir o
tempo de exposição às telas.
Bruno Lorenski guarda na
memória os primeiros contatos com o universo das figurinhas. Ele lembra com
clareza de quando tinha seis anos e o pai chegava em casa com pacotes da Copa
do Mundo, ajudando-o a colar cada uma no álbum. Aos 18 anos, passou a comprar
os próprios pacotes e a montar suas coleções de forma independente, mantendo
viva a tradição iniciada na infância.
Dono de uma banca, Joanilson Júnior
da Silva relata que colecionadores estão ansiosos | Foto: Alex Régis
Hoje, Bruno reúne álbuns desde
1994 e ampliou o interesse ao longo dos anos. A partir de 2010, passou a
colecionar também edições de outros países. “Tenho o álbum da Suíça, o
americano e o brasileiro. Em 2014, já tenho de mais países ainda”, conta. Ao todo,
são oito Copas diferentes acompanhadas de perto, mas mais de 20 álbuns
distintos reunidos na coleção.
Apesar do valor afetivo e das
lembranças despertadas, ele destaca que o principal atrativo está na
convivência proporcionada pelo hobby. “A parte mais legal é socializar,
conhecer gente nova. Você troca figurinha tanto com uma criança de quatro anos
quanto com um senhor de 90. A sensação é de que todo mundo é igual,
independentemente da idade ou da classe social”, afirma.
Para ele, o colecionismo
também é uma tradição que atravessa gerações. “Às vezes você chega na banca e
estão o avô, o pai e o neto juntos. O netinho vem mostrar a figurinha que
conseguiu, e todo mundo passa a procurar as mesmas peças. É bem legal ver isso
acontecendo”, relata.
Ananda Miranda/Repórter
Tribuna do Norte

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