No RN, 31% dos empreendedores anotam contas em caderno, 29% usam planilha e 19% aplicativo | Foto: Magnus Nascimento
No Rio Grande do Norte, 65% dos pequenos empreendedores misturam as contas pessoais com os negócios, conforme mostra um levantamento do Sebrae. No Nordeste, o índice é de 67%, enquanto que no País 61% dos pequenos empreendedores realizam pagamentos da empresa com contas pessoais. Levando em conta a Região Nordeste, o RN é o quarto estado onde o cenário é observado com mais força, atrás da Bahia (71%), do Ceará (70%) e de Pernambuco (67%). De acordo com o estudo, essa prática indica falta de organização financeira e traz problemas como risco fiscal, informações contábeis imprecisas, além de dificuldade de crédito.
Ainda segundo o estudo, cinco
em cada 10 donos de pequenos negócios no País possuem um controle ainda
precário da gestão das contas. Apenas 30% realizam o controle das empresas em
planilhas de computador, 25% utilizam anotações de caderno, 20% fazem uso de
aplicativo ou sistema digital, 13% contam com auxílio de contador e 10%
confessam não ter qualquer forma de gestão.
O controle financeiro varia
pelo país: Sudeste e Sul lideram no uso de planilhas (33%), com destaque para
São Paulo (39%) e Santa Catarina (35%). No RN, 31% fazem anotações em caderno,
29% utilizam planilhas, 19% usam aplicativo ou sistema digital, 14% têm apoio
de um contador e 7% não fazem nenhum controle.
As regiões Norte e Nordeste
concentram mais anotações em caderno, puxadas por Piauí (43%), Pará (40%), Acre
(37%) e Sergipe (36%). O maior uso de aplicativos digitais aparece em Santa
Catarina (25%), enquanto Minas e Paraíba (ambos com 18%) se destacam por deixar
a tarefa ao contador. A ausência de controle é mais comum especialmente no Mato
Grosso (18%).
Daniel Brandão, proprietário
de uma açaiteria no bairro da Ribeira, na zona Leste de Natal, conta que
utiliza um sistema digital para controlar as contas da empresa, mas não
dispensa o uso do caderno. Ainda assim, não é incomum misturar as contas
pessoais com as despesas do negócio, de acordo com ele.
“Tento separar, mas tem hora
que eu misturo tudo e as contas não batem. Às vezes, o que cai na minha conta
eu tiro para pagar algo da empresa. Mesmo assim, acho que não atrapalha. Uso
duas formas para fazer o controle: um sistema digital e o caderno, que, no
final de tudo, é em quem confio bem, porque é o método mais antigo e mais
fácil. Basta a gente olhar rapidamente e já consegue conferir alguma
informação”, conta o proprietário.
Setores mais afetados
O levantamento do Sebrae
indica que, em todo o Brasil, o setor de construção civil, comércio e serviços
são os mais afetados pela prática de misturar as contas pessoais e
empresariais. Marcelo Queiroz, presidente da Federação do Comércio de Bens,
Serviços e Turismo do RN (Fecomércio RN), afirma que a situação compromete a
saúde financeira, sobretudo dos pequenos negócios. Sem a devida separação,
segundo ele, o empreendedor perde a real noção de lucratividade, o que
dificulta o planejamento, o controle de custos e a tomada de decisões.
“Retirar dinheiro do caixa da
empresa para despesas pessoais, sem controle, é uma prática que pode gerar
desequilíbrio financeiro, atrasos em pagamentos, endividamento e até
inviabilizar o funcionamento do negócio. Além disso, compromete a gestão do
capital de giro, essencial para manter estoques, pagar fornecedores, honrar
compromissos operacionais e evitar a contratação de crédito com juros
elevados”, aponta Queiroz.
O presidente da Fecomércio RN
recomenda que o empreendedor estabeleça uma separação clara entre pessoa física
e jurídica. “Isso começa pela definição de um pró-labore (retirada fixa mensal)
e pela utilização de contas bancárias distintas. Também é fundamental manter um
controle financeiro organizado, com o registro de todas as entradas e saídas,
além do acompanhamento do fluxo de caixa. A educação financeira e o uso de
ferramentas de gestão são aliados importantes nesse processo”, diz.
Para Thiago Machado,
presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no RN (Abrasel), o
problema acaba se somando ao fato de que muitos empreendedores do segmento de
alimentação fora do lar têm dificuldade em calcular custos de mercadorias e de
precificar produtos para a venda. “Isso leva à mortalidade das empresas de uma
forma muito mais rápida”, explica Machado. Segundo ele, a Abrasel faz o
acompanhamento dos empreendimentos associados, a fim de amenizar os efeitos
desse hábito. “A gente monitora os negócios e tenta fazer com que o empresário
esteja munido de informações e cursos e que esteja inserido dentro de um
networking saudável com outros empresários”, fala o presidente da Abrasel no
estado.
Décio Lima, presidente do
Sebrae Nacional, diz que o empreendedor pode contar com o apoio da entidade
para aperfeiçoar a gestão. “No portal do Sebrae, existem cursos online
gratuitos disponíveis para lidar com esse e outros desafios do empreendedor
brasileiro. Todos são cursos rápidos, de 4 a 10 horas cada um, que permitem uma
alavancagem do conhecimento do pequeno empreendedor”, afirma.

Nenhum comentário:
Postar um comentário