quinta-feira, 26 de março de 2026

No RN, 65% dos pequenos empreendedores misturam contas pessoais com empresariais

No RN, 31% dos empreendedores anotam contas em caderno, 29% usam planilha e 19% aplicativo | Foto: Magnus Nascimento

No Rio Grande do Norte, 65% dos pequenos empreendedores misturam as contas pessoais com os negócios, conforme mostra um levantamento do Sebrae. No Nordeste, o índice é de 67%, enquanto que no País 61% dos pequenos empreendedores realizam pagamentos da empresa com contas pessoais. Levando em conta a Região Nordeste, o RN é o quarto estado onde o cenário é observado com mais força, atrás da Bahia (71%), do Ceará (70%) e de Pernambuco (67%). De acordo com o estudo, essa prática indica falta de organização financeira e traz problemas como risco fiscal, informações contábeis imprecisas, além de dificuldade de crédito.

Ainda segundo o estudo, cinco em cada 10 donos de pequenos negócios no País possuem um controle ainda precário da gestão das contas. Apenas 30% realizam o controle das empresas em planilhas de computador, 25% utilizam anotações de caderno, 20% fazem uso de aplicativo ou sistema digital, 13% contam com auxílio de contador e 10% confessam não ter qualquer forma de gestão.

O controle financeiro varia pelo país: Sudeste e Sul lideram no uso de planilhas (33%), com destaque para São Paulo (39%) e Santa Catarina (35%). No RN, 31% fazem anotações em caderno, 29% utilizam planilhas, 19% usam aplicativo ou sistema digital, 14% têm apoio de um contador e 7% não fazem nenhum controle.

As regiões Norte e Nordeste concentram mais anotações em caderno, puxadas por Piauí (43%), Pará (40%), Acre (37%) e Sergipe (36%). O maior uso de aplicativos digitais aparece em Santa Catarina (25%), enquanto Minas e Paraíba (ambos com 18%) se destacam por deixar a tarefa ao contador. A ausência de controle é mais comum especialmente no Mato Grosso (18%).

Daniel Brandão, proprietário de uma açaiteria no bairro da Ribeira, na zona Leste de Natal, conta que utiliza um sistema digital para controlar as contas da empresa, mas não dispensa o uso do caderno. Ainda assim, não é incomum misturar as contas pessoais com as despesas do negócio, de acordo com ele.

“Tento separar, mas tem hora que eu misturo tudo e as contas não batem. Às vezes, o que cai na minha conta eu tiro para pagar algo da empresa. Mesmo assim, acho que não atrapalha. Uso duas formas para fazer o controle: um sistema digital e o caderno, que, no final de tudo, é em quem confio bem, porque é o método mais antigo e mais fácil. Basta a gente olhar rapidamente e já consegue conferir alguma informação”, conta o proprietário.

Setores mais afetados

O levantamento do Sebrae indica que, em todo o Brasil, o setor de construção civil, comércio e serviços são os mais afetados pela prática de misturar as contas pessoais e empresariais. Marcelo Queiroz, presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do RN (Fecomércio RN), afirma que a situação compromete a saúde financeira, sobretudo dos pequenos negócios. Sem a devida separação, segundo ele, o empreendedor perde a real noção de lucratividade, o que dificulta o planejamento, o controle de custos e a tomada de decisões.

“Retirar dinheiro do caixa da empresa para despesas pessoais, sem controle, é uma prática que pode gerar desequilíbrio financeiro, atrasos em pagamentos, endividamento e até inviabilizar o funcionamento do negócio. Além disso, compromete a gestão do capital de giro, essencial para manter estoques, pagar fornecedores, honrar compromissos operacionais e evitar a contratação de crédito com juros elevados”, aponta Queiroz.

O presidente da Fecomércio RN recomenda que o empreendedor estabeleça uma separação clara entre pessoa física e jurídica. “Isso começa pela definição de um pró-labore (retirada fixa mensal) e pela utilização de contas bancárias distintas. Também é fundamental manter um controle financeiro organizado, com o registro de todas as entradas e saídas, além do acompanhamento do fluxo de caixa. A educação financeira e o uso de ferramentas de gestão são aliados importantes nesse processo”, diz.

Para Thiago Machado, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no RN (Abrasel), o problema acaba se somando ao fato de que muitos empreendedores do segmento de alimentação fora do lar têm dificuldade em calcular custos de mercadorias e de precificar produtos para a venda. “Isso leva à mortalidade das empresas de uma forma muito mais rápida”, explica Machado. Segundo ele, a Abrasel faz o acompanhamento dos empreendimentos associados, a fim de amenizar os efeitos desse hábito. “A gente monitora os negócios e tenta fazer com que o empresário esteja munido de informações e cursos e que esteja inserido dentro de um networking saudável com outros empresários”, fala o presidente da Abrasel no estado.

Décio Lima, presidente do Sebrae Nacional, diz que o empreendedor pode contar com o apoio da entidade para aperfeiçoar a gestão. “No portal do Sebrae, existem cursos online gratuitos disponíveis para lidar com esse e outros desafios do empreendedor brasileiro. Todos são cursos rápidos, de 4 a 10 horas cada um, que permitem uma alavancagem do conhecimento do pequeno empreendedor”, afirma.

 Felipe Salustino/Repórter

Tribuna do Norte

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