As obras previstas nos leilões devem ampliar a capacidade de escoamento de energia do NE, hoje com restrições devido aos efeitos dos cortes de geração | Foto: Alex Régis
Os investimentos em infraestrutura de transmissão de energia no Rio Grande do Norte já ultrapassam R$ 1,37 bilhão até 2030, considerando os dois últimos leilões realizados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). O montante é resultado da soma do Leilão de Transmissão nº 1/2026, realizado na última sexta-feira (27), com o certame nº 04/2025, ocorrido em outubro do ano passado.
No leilão mais recente, na
sede da B3, em São Paulo, duas subestações localizadas no Rio Grande do Norte
foram contempladas. Na ocasião, a empresa Engie Transmissão de Energia
Participações S.A arrematou os sublotes 3A e 3D do certame, ofertando para eles
R$ 22.817.987,58 e R$ 21.635.252,88, respectivamente.
O sublote 3A contempla um
compensador síncrono na subestação Ceará Mirim II. Já o sublote 3D contempla um
compensador síncrono na subestação Açu III. O investimento estimado no RN soma
cerca de R$ 570 milhões. As obras de melhoria na rede de transmissão devem ser
concluídas em até 42 meses após as assinaturas dos contratos, que devem ocorrer
até junho de 2026.
O RN estava inscrito no Lote
3, junto ao Ceará. Esse lote somou mais de R$ 1,38 bilhão em investimentos, com
previsão de gerar até 3.944 empregos diretos e indiretos. Ao todo, a primeira
etapa do LT nº 01/2026 ofereceu cinco lotes, com investimento estimado de R$
3,3 bilhões e previsão de criação de mais de 8.498 empregos no Brasil, em 11
estados.
O secretário-adjunto da
Secretaria de Desenvolvimento Econômico do RN (Sedec), Hugo Fonseca, lembra
que, em 2025, o último leilão de transmissão também contemplou o RN. O LT nº
04/2025, em outubro do ano passado, licitou três compensadores síncronos no RN
(dois na Subestação Açu III e um na Subestação João Câmara III), com
investimentos de R$ 805 milhões e prazo para conclusão das obras em até 42
meses. Somados, ambos os leilões representam mais de R$ 1,37 bilhão investido
até 2030.
Segundo a Aneel, o objetivo
dos compensadores síncronos é aumentar a capacidade do sistema de transmissão.
Os leilões ofereceram concessões do serviço público de transmissão de energia
elétrica, incluindo a construção, a operação e a manutenção de instalações de
transmissão da rede básica do Sistema Interligado Nacional.
O leilão realizado nesta
sexta-feira (27) foi considerado positivo para interlocutores do setor de
energias renováveis do RN. “Foi positivo porque tivemos uma empresa que é de
casa, que já atua no RN tanto na transmissão como também na geração de energia.
Tem subestações que [a Engie] já opera aqui”, diz o secretário-adjunto da
Sedec-RN, Hugo Fonseca.
A Engie Transmissão de Energia
Participações S.A venceu os outros dois sublotes, para instalação de
compensadores em Quixadá e Morada Nova, no Ceará. As ofertas foram de R$
20.636.101,60 e R$ 39.599.369,24. A empresa disputou o ativo com diversos
outros grupos, entre eles a Axia Energia e um fundo de investimentos do BTG.
Melhorias no escoamento de
energia
Para o diretor-presidente do
Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), Darlan Santos, o
mais recente leilão era aguardado com muita expectativa pelo setor. Segundo
ele, as obras previstas no certame devem resultar na ampliação da capacidade de
escoamento de energia da região nordeste, hoje com restrições, devido aos
efeitos de curtailment (cortes de geração determinados pelo Operador Nacional
do Sistema Elétrico quando há excesso de produção de energia, pouca demanda de
consumo e problemas no escoamento de energia).
“Os equipamentos vão permitir
que os geradores de energia renovável da região consigam escoar a energia que
hoje é impedida devido às restrições de infraestrutura. Importante ressaltar,
que mesmo que a infraestrutura que será instalada em outros estados da região,
contribuem de forma global para o escoamento da produção renovável do nordeste,
sendo dessa forma, uma importante ação para equalizar o ambiente de negócios,
hoje sobre questionamento de toda a cadeia renovável no nordeste”, afirma
Darlan Santos.
A instalação dessa tecnologia
atua na melhoria do escoamento de energia, o que evita gargalos no sistema
elétrico e traz mais segurança na transmissão da geração. A interrupção de
geração acarreta prejuízos bilionários ao setor. Em 2025, o RN teve R$ 2,24
bilhões em prejuízos, segundo dados da consultoria Volt Robotics.
As melhorias na rede de
transmissão, que devem demorar a ser concluídas, visam ampliar a capacidade de
escoamento de energia e mitigar os impactos dos cortes. Na visão de Darlan
Santos, o leilão é considerado um “ponto de alívio no impacto financeiro das
empresas”.
Sérgio Azevedo, presidente da
Comissão Técnica de Energias Renováveis da Fiern (Coere), concorda que a
instalação dos compensadores síncronos deve enfrentar parte dos gargalos que
hoje afetam o setor de energias renováveis no estado.
“Esses equipamentos ajudam a
reforçar a estabilidade do sistema, melhorar o controle de tensão e aumentar a
confiabilidade da rede, o que é fundamental em um estado com forte presença de
geração eólica e solar”, explica.
Ele pondera, no entanto, que
apenas essa medida não resolve o problema estrutural. “O Rio Grande do Norte
precisa voltar a ser competitivo na atração de investimentos. E isso passa,
necessariamente, pela construção de um ambiente regulatório e legal mais
moderno, mais previsível, mais eficiente e mais convidativo do que o dos
estados vizinhos”, avalia Sérgio Azevedo.
Darlan Santos, do Cerne,
concorda ao afirmar que o leilão é apenas um dos pontos necessários para
normalizar a produção e escoamento de energia. “Necessita-se de um planejamento
mais robusto para ampliar a infraestrutura de conexão a longo prazo, que seja
melhor acoplada ao calendário de geração, evitando, assim, o aumento das
restrições dos geradores eólicos e fotovoltaicos num futuro próximo”, pondera.
Hugo Fonseca diz que os
compensadores síncronos objetos dos recentes leilões podem viabilizar o
armazenamento de energia em baterias. “Na medida em que há garantia da
segurança do sistema elétrico através dessas obras de infraestrutura, o RN
poderá retomar a comercialização de energia no mercado e viabilizar outros
mercados, como o de armazenamento de bateria”, explica.
Para tanto, Sérgio Azevedo
defende que a legislação de licenciamento ambiental no RN precisa avançar. “O
estado precisa atualizar sua base legal para compatibilizar proteção ambiental
com agilidade, previsibilidade e competitividade. Isso é especialmente
importante em agendas estratégicas como data centers e sistemas de
armazenamento por baterias”, afirma.
“O RN precisa ter uma
legislação moderna e convidativa. Não basta apenas acompanhar os outros
estados, é preciso competir melhor do que eles. Se um estado vizinho estabelece
procedimento simplificado para um data center de até 150 MW, o Rio Grande do
Norte precisa ter a ousadia de oferecer uma condição ainda mais atrativa. O
investidor compara prazo, clareza, segurança jurídica e facilidade de
implantação. Se aqui for mais lento, mais confuso ou mais burocrático, o
capital vai para outro destino”, diz Azevedo.
Darlan Santos acrescenta que
“o planejamento a longo prazo requer a ampliação de novas subestações, reforço
nas linhas de transmissão, deliberações quanto ao despacho de renováveis na
região Nordeste e ações quanto à ampliação e ocupação do sistema, devido à
ampliação na matriz elétrica da geração distribuída”.
Demais lotes
A 1ª fase do leilão ofereceu
cinco lotes, com investimento estimado de R$ 3,3 bi e previsão de criação de
mais de 8.498 empregos. A licitação pública destinou-se à construção e
manutenção de 798 km em linhas de transmissão e de 2.150 MVA em expansão da capacidade.
Ao todo, as empresas
vencedoras ofertaram R$ 286 mi, valor que se refere à receita a que o
empreendedor terá direito pela prestação do serviço de transmissão. No RN
(sublotes 3A e 3D), o valor foi de R$ 44,45 mi. O lote 1 foi vencido pela CYMI
Construções e Participações, com oferta de R$ 46,6 mi. As obras devem ser
concluídas em 49 meses. A mesma empresa venceu o lote 5, com obras no MT e no
PA. O valor ofertado pela empresa nesse lote foi de R$ 91,1 mi. Já o lote 2 foi
arrematado pela Engie Transmissão de Energia Participações S.A, que ofertou R$
18,1 mi. O Consórcio BR2ET Transmissora venceu o lote 4, destinado ao aumento
da capacidade de transmissão de Sergipe e expansão do sistema de transmissão do
nordeste baiano. A oferta foi de R$ 25,5 mi.
Fernando Azevêdo/Repórter
Tribuna do Norte

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