domingo, 17 de maio de 2026

Acesso a crédito e capacitação fomentam produção de mel no RN

Em cinco anos, as contratações de crédito para a apicultura no RN junto BNB totalizaram um volume de R$ 23,2 milhões. Foto: Alex Régis

Favorecidas pelas condições ideais da Caatinga potiguar e pela possibilidade de geração de renda, a apicultura e a meliponicultura vêm ganhando cada vez mais espaço no Rio Grande do Norte, impulsionando a produção de mel de qualidade, com característica e sabor únicos. Uma prova disso é a procura por crédito para investimentos na área. Dados do Banco do Nordeste (BNB) apontam que, em cinco anos, as contratações de crédito para a apicultura no Estado junto à instituição totalizaram um volume de R$ 23,2 milhões. O acompanhamento de entidades como o Sebrae também tem sido fundamental para o avanço dessa cadeia produtiva.

De acordo com o BNB, no ano passado foram contratados R$ 9,7 milhões para a apicultura no RN, um número quase sete vezes maior do que o volume de 2020 (R$ 1,4 milhão). O apicultor Jean Carlos Rufino, 47, está entre os produtores que buscaram financiamento junto à instituição. Apesar de trabalhar na área há 20 anos, foi apenas em 2021 que ele decidiu focar na criação de abelhas com ferrão na comunidade Baixa Verde II, em Apodi, no Oeste potiguar, onde foram investidos os cerca de R$ 20 mil do financiamento.

“Comecei a me interessar realmente pela fabricação de mel com a chegada dos consultores do Sebrae e do Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural), que me ajudaram a despertar para esse setor. Estou em um momento de multiplicar as abelhas. Atualmente, tenho 180 caixas povoadas, o que já me garante uma renda interessante quando a safra é boa. No meu melhor ano na apicultura, consegui tirar 27 quilos de mel por caixa”, conta o produtor. A meta é ampliar a criação de abelhas até julho.

“No começo do ano, eu tinha 120 caixas. Consegui multiplicar esse número e, agora, com o período de chuvas, pretendo dobrar, até o final de julho, a quantidade que eu tinha em janeiro”, planeja.

O aumento das colmeias, aliado aos bons índices de chuva registrados na região, tem despertado otimismo em Jean, que também está com planos para a meliponicultura (criação de abelha sem ferrão). “Até o final de agosto, pretendo povoar 50 caixas no meliponário”, afirma o produtor, animado.

“A promessa para este ano, de modo geral, está muito boa. Acredito que, na apicultura, vou superar os 27 quilos por caixa. Já conseguimos uma colheita da flor do marmeleiro, que é da mata nativa, e estamos esperando a florada de outras plantas como a sambacaitá, bamburral, jitirana e vassourinha de botão”, diz Jean que, apesar de ainda considerar tímida a produção de mel, encontrou na atividade sua principal fonte de renda.

Quem também já começou a dar os primeiros passos na criação de abelhas foi Neto Lúcio, de 51 anos, do distrito Córrego II, em Apodi. Embora tenha como atividades principais a produção de verdura orgânica e o Viveiro de Plantas Vida Nova, há dois anos ele optou por investir na meliponicultura e buscou um financiamento de R$ 6 mil. Com apoio do BNB, Neto tem como meta ampliar o plantel no quintal produtivo que possui em casa até 2027. “Hoje tenho 40 caixas de abelha, mas pretendo dobrar esse número no próximo ano”, conta.

Apicultor Jean Carlos Rufino. Foto: cedid

Sustentabilidade e capacitação

Neto Lúcio tem como premissa em todas as atividades que desenvolve o foco na sustentabilidade. Com a meliponicultura, não é diferente. Apesar da produção incipiente – ele realizou uma única colheita no ano passado, quando retirou três litros de mel - o produtor não abriu mão de seguir os parâmetros necessários para obter a certificação sustentável. A necessidade de preservação ambiental com o desenvolvimento da cadeia de produção é um dos aspectos que o atraíram para a atividade.

A manutenção e expansão do plantel, que requer manejo sustentável, seguem como prioridades. Por isso, o foco do meliponicultor é a ampliação do número de enxames para fortalecer a marca Jardim das Abelhas, criada por ele. “Estou investindo para que a produção de mel se torne minha fonte de renda mais importante. A região aqui oferece vários tipos de plantas que são muito boas para a abelha. Graças a isso, a gente obtém um mel mais gostoso, amarelinho”, conta. Para essa ampliação, ele pretende buscar novamente crédito junto ao BNB.

Jean Carlos Rufino, que cria especialmente abelhas com ferrão em outra comunidade de Apodi, fala que as condições da região são um convite natural à expansão da atividade. Mas, para isso, é essencial acesso a crédito. “Aqui a gente produz um mel que é muito bem aceito no mercado. Somos privilegiados por natureza, mas é preciso de dicação intensa todos os dias e um bom investimento, porque o material necessário não é barato. Felizmente, agora estou na fase de investir parte dos ganhos, algo que antes não era possível, porque não tinha dinheiro”, afirma.

Dentre os investimentos planejados estão a regularização de um novo terreno para a instalação dos próximos apiários. Ainda de olho na ampliação da apicultura, Jean não descarta adquirir novas áreas para a criação das abelhas.

“Hoje, uma colmeia com 2 mil abelhas varia entre R$ 400 e R$ 500. E tem a parte estrutural, com mesa e centrífuga, além do terreno para colocar as instalações. É preciso um reforço financeiro, mas é importante dizer que é um investimento duradouro”, destaca o produtor, que obteve crédito junto ao BNB por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).

Jean defende que, para garantir a expansão das atividades, é preciso também se capacitar. E foi o que ele fez, com apoio do Sebrae e do Senar. “Quanto à meliponicultura, comecei com apenas uma caixa povoada com abelhas. Na semana passada, como resultado de uma consultoria do Sebrae, fizemos uma divisão e conseguimos ampliar o número de caixas povoadas para cerca de 30. Acredito que o dinheiro e o conhecimento precisam andar juntos. E o conhecimento nós temos adquirido junto ao Sebrae e ao Senar”, pontuou Jean Carlos Rufino.

Neto Lúcio, produtor em Apodi. Foto: Cedida

Crédito para produtores rurais do RN

A maior produção de mel de abelha da série histórica no RN, conforme mostram os dados da última pesquisa Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), do IBGE, tem como reflexos a busca por crédito para o desenvolvimento da apicultura. Se em 2024, de acordo com a PPM, o RN produziu mais de 1,1 mil toneladas de mel (1.190.489 quilos), o melhor resultado desde 2009, a procura por investimentos na área fez com que o interesse por crédito rural para a apicultura registrasse crescimento de forma ininterrupta entre 2020 e 2025.

No BNB, o volume de contratações para a atividade só cresceu nos últimos cinco anos. Em 2020, o volume total na instituição foi de R$ 1,4 milhão; em 2022, R$ 2,3 milhões; no ano seguinte, mais R$ 3,5 milhões; já em 2024, o montante praticamente dobrou, chegando a R$ 6 milhões; e no ano passado, mais R$ 9,7 milhões.

Gustavo Saraiva, gerente regional do Agroamigo, explica que os dados se referem aos diferentes programas de crédito do BNB. De acordo com ele, o financiamento do Agroamigo atende ao Pronaf e tem como público os produtores de mel da Agricultura Familiar.

“No caso do Agroamigo, é possível fazer um investimento de até R$ 20 mil por produtor de mel. E o interessante é que a gente consegue atender toda a unidade familiar. Funciona da seguinte maneira: o casal pode fazer uma operação de até R$ 40 mil (R$ 20 mil para cada um). Para o filho desse casal é permitida uma operação de até R$ 8 mil. Além disso, é possível que a família faça outra operação de até R$ 3 mil para melhorias sanitárias em casa, como a construção de um banheiro”, explica.

“No total, uma única unidade familiar pode fazer operações de até R$ 51 mil”, acrescenta Saraiva. As regras descritas são válidas para famílias enquadradas no grupo B do Pronaf (aquelas com renda anual de até R$ 50 mil). “Para famílias com renda anual superior a R$ 100 mil, enquadradas no grupo V, também é possível fazer operações de até R$ 100 mil por pessoa”, explicou Gustavo Saraiva.

Felipe Salustino/Repórter

Tribuna do Norte

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