Em cinco anos, as contratações de crédito para a apicultura no RN junto BNB totalizaram um volume de R$ 23,2 milhões. Foto: Alex Régis
Favorecidas pelas condições
ideais da Caatinga potiguar e pela possibilidade de geração de renda, a
apicultura e a meliponicultura vêm ganhando cada vez mais espaço no Rio Grande
do Norte, impulsionando a produção de mel de qualidade, com característica e
sabor únicos. Uma prova disso é a procura por crédito para investimentos na
área. Dados do Banco do Nordeste (BNB) apontam que, em cinco anos, as
contratações de crédito para a apicultura no Estado junto à instituição
totalizaram um volume de R$ 23,2 milhões. O acompanhamento de entidades como o
Sebrae também tem sido fundamental para o avanço dessa cadeia produtiva.
De acordo com o BNB, no ano passado foram contratados R$ 9,7 milhões para a
apicultura no RN, um número quase sete vezes maior do que o volume de 2020 (R$
1,4 milhão). O apicultor Jean Carlos Rufino, 47, está entre os produtores que
buscaram financiamento junto à instituição. Apesar de trabalhar na área há 20
anos, foi apenas em 2021 que ele decidiu focar na criação de abelhas com ferrão
na comunidade Baixa Verde II, em Apodi, no Oeste potiguar, onde foram
investidos os cerca de R$ 20 mil do financiamento.
“Comecei a me interessar realmente pela fabricação de mel com a chegada dos
consultores do Sebrae e do Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural), que
me ajudaram a despertar para esse setor. Estou em um momento de multiplicar as
abelhas. Atualmente, tenho 180 caixas povoadas, o que já me garante uma renda
interessante quando a safra é boa. No meu melhor ano na apicultura, consegui
tirar 27 quilos de mel por caixa”, conta o produtor. A meta é ampliar a criação
de abelhas até julho.
“No começo do ano, eu tinha 120 caixas. Consegui multiplicar esse número e,
agora, com o período de chuvas, pretendo dobrar, até o final de julho, a
quantidade que eu tinha em janeiro”, planeja.
O aumento das colmeias, aliado aos bons índices de chuva registrados na região,
tem despertado otimismo em Jean, que também está com planos para a
meliponicultura (criação de abelha sem ferrão). “Até o final de agosto, pretendo
povoar 50 caixas no meliponário”, afirma o produtor, animado.
“A promessa para este ano, de modo geral, está muito boa. Acredito que, na
apicultura, vou superar os 27 quilos por caixa. Já conseguimos uma colheita da
flor do marmeleiro, que é da mata nativa, e estamos esperando a florada de
outras plantas como a sambacaitá, bamburral, jitirana e vassourinha de botão”,
diz Jean que, apesar de ainda considerar tímida a produção de mel, encontrou na
atividade sua principal fonte de renda.
Quem também já começou a dar os primeiros passos na criação de abelhas foi Neto
Lúcio, de 51 anos, do distrito Córrego II, em Apodi. Embora tenha como
atividades principais a produção de verdura orgânica e o Viveiro de Plantas
Vida Nova, há dois anos ele optou por investir na meliponicultura e buscou um
financiamento de R$ 6 mil. Com apoio do BNB, Neto tem como meta ampliar o
plantel no quintal produtivo que possui em casa até 2027. “Hoje tenho 40 caixas
de abelha, mas pretendo dobrar esse número no próximo ano”, conta.
Apicultor Jean Carlos Rufino. Foto: cedid
Sustentabilidade e capacitação
Neto Lúcio tem como premissa em todas as atividades que desenvolve o foco na
sustentabilidade. Com a meliponicultura, não é diferente. Apesar da produção
incipiente – ele realizou uma única colheita no ano passado, quando retirou
três litros de mel - o produtor não abriu mão de seguir os parâmetros
necessários para obter a certificação sustentável. A necessidade de preservação
ambiental com o desenvolvimento da cadeia de produção é um dos aspectos que o
atraíram para a atividade.
A manutenção e expansão do plantel, que requer manejo sustentável, seguem como
prioridades. Por isso, o foco do meliponicultor é a ampliação do número de
enxames para fortalecer a marca Jardim das Abelhas, criada por ele. “Estou
investindo para que a produção de mel se torne minha fonte de renda mais
importante. A região aqui oferece vários tipos de plantas que são muito boas
para a abelha. Graças a isso, a gente obtém um mel mais gostoso, amarelinho”,
conta. Para essa ampliação, ele pretende buscar novamente crédito junto ao BNB.
Jean Carlos Rufino, que cria especialmente abelhas com ferrão em outra
comunidade de Apodi, fala que as condições da região são um convite natural à
expansão da atividade. Mas, para isso, é essencial acesso a crédito. “Aqui a
gente produz um mel que é muito bem aceito no mercado. Somos privilegiados por
natureza, mas é preciso de dicação intensa todos os dias e um bom investimento,
porque o material necessário não é barato. Felizmente, agora estou na fase de
investir parte dos ganhos, algo que antes não era possível, porque não tinha
dinheiro”, afirma.
Dentre os investimentos planejados estão a regularização de um novo terreno
para a instalação dos próximos apiários. Ainda de olho na ampliação da
apicultura, Jean não descarta adquirir novas áreas para a criação das abelhas.
“Hoje, uma colmeia com 2 mil abelhas varia entre R$ 400 e R$ 500. E tem a parte
estrutural, com mesa e centrífuga, além do terreno para colocar as instalações.
É preciso um reforço financeiro, mas é importante dizer que é um investimento
duradouro”, destaca o produtor, que obteve crédito junto ao BNB por meio do
Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).
Jean defende que, para garantir a expansão das atividades, é preciso também se
capacitar. E foi o que ele fez, com apoio do Sebrae e do Senar. “Quanto à
meliponicultura, comecei com apenas uma caixa povoada com abelhas. Na semana
passada, como resultado de uma consultoria do Sebrae, fizemos uma divisão e
conseguimos ampliar o número de caixas povoadas para cerca de 30. Acredito que
o dinheiro e o conhecimento precisam andar juntos. E o conhecimento nós temos
adquirido junto ao Sebrae e ao Senar”, pontuou Jean Carlos Rufino.
Neto Lúcio, produtor em Apodi. Foto:
Cedida
Crédito para produtores rurais
do RN
A maior produção de mel de
abelha da série histórica no RN, conforme mostram os dados da última pesquisa
Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), do IBGE, tem como reflexos a busca por
crédito para o desenvolvimento da apicultura. Se em 2024, de acordo com a PPM,
o RN produziu mais de 1,1 mil toneladas de mel (1.190.489 quilos), o melhor
resultado desde 2009, a procura por investimentos na área fez com que o
interesse por crédito rural para a apicultura registrasse crescimento de forma
ininterrupta entre 2020 e 2025.
No BNB, o volume de contratações para a atividade só cresceu nos últimos cinco
anos. Em 2020, o volume total na instituição foi de R$ 1,4 milhão; em 2022, R$
2,3 milhões; no ano seguinte, mais R$ 3,5 milhões; já em 2024, o montante
praticamente dobrou, chegando a R$ 6 milhões; e no ano passado, mais R$ 9,7
milhões.
Gustavo Saraiva, gerente regional do Agroamigo, explica que os dados se referem
aos diferentes programas de crédito do BNB. De acordo com ele, o financiamento
do Agroamigo atende ao Pronaf e tem como público os produtores de mel da
Agricultura Familiar.
“No caso do Agroamigo, é possível fazer um investimento de até R$ 20 mil por
produtor de mel. E o interessante é que a gente consegue atender toda a unidade
familiar. Funciona da seguinte maneira: o casal pode fazer uma operação de até
R$ 40 mil (R$ 20 mil para cada um). Para o filho desse casal é permitida uma
operação de até R$ 8 mil. Além disso, é possível que a família faça outra
operação de até R$ 3 mil para melhorias sanitárias em casa, como a construção
de um banheiro”, explica.
“No total, uma única unidade familiar pode fazer operações de até R$ 51 mil”,
acrescenta Saraiva. As regras descritas são válidas para famílias enquadradas
no grupo B do Pronaf (aquelas com renda anual de até R$ 50 mil). “Para famílias
com renda anual superior a R$ 100 mil, enquadradas no grupo V, também é
possível fazer operações de até R$ 100 mil por pessoa”, explicou Gustavo
Saraiva.
Felipe Salustino/Repórter
Tribuna do Norte

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