domingo, 22 de fevereiro de 2026

RN tem prejuízo estimado em R$ 2,24 bilhões com curtailment em 2025

Do total de 11,27 milhões de MWh em cortes de geração no RN no ano passado, a energia eólica respondeu por cerca de 92,79% (10,45 milhões de Mwh)| Foto: Alex Régis

O Rio Grande do Norte liderou o ranking de estados com maior prejuízo devido ao curtailment – os cortes de geração determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) – em 2025. A restrição significou um prejuízo estimado em até R$ 2,24 bilhões aos geradores de renováveis no RN, considerando preços de contrato, segundo dados da consultoria Volt Robotics. Em seguida, aparecem Bahia (R$ 1,76 bilhão) e Ceará (R$ 849,73 milhões).

Proporcionalmente à sua capacidade de geração, o RN foi o terceiro estado que mais perdeu energia renovável no ano, quando teve 24% de cortes em parques eólicos e usinas fotovoltaicas, atrás de Minas Gerais (27,4%) e Ceará (25,8%). Na prática, isso significa que a cada 100 MWh que poderia gerar, o RN produziu 86 MWh. Para especialistas, o resultado não surpreende, mas preocupa.

A Volt Robotics aponta que houve cortes de 11,27 milhões de MWh no RN no ano passado. A energia eólica responde por cerca de 92,79% desse total (10,45 milhões de Mwh), e a fotovoltaica, 7,21% (0,81 milhões de MWh).

Considerando o PLD (preço de liquidação das diferenças), o RN teve R$ 1,88 bilhão em prejuízos. Conforme explica a Volt Robotics, a diferença entre os dois valores é que o cálculo por contrato traz “o valor do prejuízo calculado com base no preço do contrato de venda de energia que o gerador deixou de entregar por causa do corte”. Na prática, reflete a perda econômica “cheia” do gerador, aquilo que ele esperava faturar.

Já o PLD é o mesmo corte, mas calculado pelo preço de curto prazo do mercado – isto é, quanto a perda significou naquele momento. Em períodos de sobra de energia, o PLD tende a ser baixo. “Logo, o prejuízo calculado por PLD fica menor. Ele mostra o custo sistêmico, não necessariamente o prejuízo contratual”, diz a Volt.

Os dados da consultoria indicam que o Brasil perdeu cerca de 20% de energia renovável que poderia gerar em 2025 e registrou um impacto de R$ 6,5 bilhões no setor de renováveis devido aos cortes, valor 195% superior a 2024, quando o impacto foi de R$ 2,2 bilhões.

Curtailment

O curtailment é determinado pelo ONS e ocorre especialmente em dois cenários: quando a energia produzida é superior ao consumo e quando as linhas de transmissão não conseguem escoar a energia que seria produzida. Nesses contextos, o ONS determina o desligamento ou a redução de potência da usina, para gerir a energia em excesso.

De acordo com o ONS, o curtailment “é uma realidade estrutural em países com alta participação de renováveis” e uma “medida técnica necessária para preservar a segurança e a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN)”.

Especialistas afirmam que o problema é estrutural, pois a expansão das renováveis não foi acompanhada por melhorias no escoamento da energia produzida. Dessa forma, há um descompasso que obriga o operador a limitar a geração.

Para Darlan Santos, presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), os cortes não surpreendem quem acompanha a evolução do problema. “Acompanhamos isso com preocupação, mas não tínhamos uma expectativa diferente. O RN é um dos estados mais afetados, porque é um dos que têm a maior quantidade de projetos [de geração de energia renovável], na região e no país”, explica.

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Para Darlan Santos, presidente do Cerne, os cortes de geração ameaçam investimentos no RN| Foto: Alex Régis

Ele alerta que o problema ameaça investimentos no estado e afirma que 2026 não parece trazer perspectivas de melhoria. “Por mais que tenha tido ações importantes no final do ano passado, a exemplo do leilão da rede de transmissão e da compra de alguns equipamentos para melhorar a rede, essas ações de infraestrutura não são construídas em curtíssimo prazo”, acrescenta.

O secretário-adjunto de Desenvolvimento Econômico do RN, Hugo Fonseca, avalia que o momento é de “transição com acomodação de mercado” no setor, após anos de altos investimentos. “Tem um momento de pico e também um momento de acomodação, que é o que o mercado está vivendo agora. Há excesso de projetos que estão gerando energia”, diz.

Fonseca cita os leilões anunciados em 2025, que preveem ampliação e melhorias nas linhas de transmissão do RN, como ações para mitigar o curtailment. Ele reconhece que melhorias de infraestrutura, no entanto, levam tempo para se concretizar.

Relatório da Volt Robotics afirma que o curtailment reduz a receita para projetos de energia já existentes e a demanda aos fabricantes de equipamentos, além de aumentar o risco para financiamentos e a incerteza para novos investimentos.

“Hoje convivem: crescimento acelerado das renováveis, expansão explosiva da geração distribuída, gargalos de transmissão, padrões de consumo em mudança e ausência histórica de sinal econômico claro sobre quando consumir”, diz o relatório da Volt.

A Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica) avalia que o cenário de cortes de geração em 2025 “reforça que o Brasil enfrenta um problema estrutural no aproveitamento pleno da energia renovável já instalada. Os curtailments decorrem principalmente de gargalos de transmissão, restrições operativas do sistema e da inserção massivamente subsidiada de MMGD [micro e minigeração distribuída]”.

Na visão da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), empreendedores e investidores “estão sendo duplamente prejudicados pelos cortes de geração: impedidos de entregar sua energia limpa e competitiva […] e obrigados a arcar com os custos dos cortes, feitos em benefício do sistema e em prol de todos os consumidores”.

Medidas de mitigação

A Absolar defende “que o planejamento da transmissão caminhe de forma alinhada com a expansão da geração”. “Também é preciso investir em soluções de armazenamento e integração de grandes cargas, como os data centers e as plantas de hidrogênio verde”, diz a entidade, citando a previsão de um leilão de reserva de capacidade para baterias no primeiro semestre de 2026.

Hugo Fonseca concorda que o leilão será uma oportunidade para mitigar os cortes. “Na hora que estiver gerando energia, esse excedente vai ser todo armazenado em baterias. Provavelmente os conjuntos de baterias vão ficar dentro dos parques, e na hora que tiver pico de consumo, [o gerador] pode jogar essa energia no sistema e compensar essas perdas”, explica.

Ele diz que o Governo do Estado preparou uma norma para regulamentar os sistemas de armazenamento de energia por baterias (BESS), que deve ser apreciada pelo Conselho Estadual de Meio Ambiente entre o fim deste mês e o início de março.

Já a ABEEólica afirma que é preciso regulamentar os mecanismos de compensação dos cortes de geração previstos na Lei nº 15.269/2025, que ainda estão em discussão no setor após vetos do presidente Lula a artigos da legislação; reequilibrar as regras de alocação de custos e responsabilidades entre os diferentes tipos de geração; e acelerar soluções estruturais.

Limite crítico por excesso de ofertas

O sistema elétrico brasileiro registrou o salto de um para 16 dias de operação em limite crítico de segurança por excesso de oferta em 2025, impulsionado pelo crescimento acelerado das renováveis, segundo a Volt. Esse cenário forçou o ONS e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a adotarem medidas como a estruturação de um plano emergencial.

A Aneel afirma que promoveu discussões com o setor acerca do aprimoramento da regulamentação sobre o tema, o que resultou, por exemplo, na Lei nº 15.269/2025, que traz um item relativo ao ressarcimento por cortes de geração. “O tratamento do passivo encontra-se em regulamentação no Ministério de Minas e Energia”, esclarece.

Darlan Santos pontua que a compensação financeira “alivia” a questão econômica, mas é preciso avançar em infraestrutura para que o problema não persista. Hugo Fonseca estima que as obras previstas devem entrar em operação por volta do ano de 2030, o que deve trazer segurança para novos leilões e novas contratações de energia.

Cortes por fonte de energia

A Absolar aponta que a prevalência de cortes nos estados com maior capacidade instalada já era esperada. Na fonte solar fotovoltaica, os estados líderes em capacidade instalada de usinas solares de grande porte são Minas Gerais, com 8,2 GW, seguido por Bahia, com 2,6 GW e Piauí, com 2,4 GW.

Já o Rio Grande do Norte liderou os cortes na fonte eólica, seguido por Bahia e Ceará, e foi o quarto estado em índice de cortes na energia solar.

O RN tem capacidade instalada na fonte eólica de 10,6 GW, e de 1,5 GW na fonte solar. Juntas, elas somam 97,61% da capacidad e em operação no RN, segundo boletim da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico (Sedec-RN).

NÚMEROS

Ranking de cortes por contrato em 2025
RN: R$ 2.243.123.173
BA: R$ 1.759.893.080
CE: R$ 849.735.232
MG: R$ 778.174.095
PI: R$ 504.602.495
PE: R$ 167.772.352
PB: R$ 84.051.464
RS: R$ 57.816.619
SP: R$ 49.330.083
MA: R$ 36.354.637
SC: R$ 2.158.936
Total: R$ 6.533.012.167

Ranking de cortes valorados pelo PLD*
RN: R$ 1.880.766.619
BA: R$ 1.091.464.548
MG: R$ 677.834.251
CE: R$ 412.665.372
PI: R$ 349.400.667
PE: R$ 122.467.885
PB: R$ 68.148.001
SP: R$ 27.331.734
RS: R$ 22.238.251
MA: R$ 16.845.197
SC: R$ 2.159.065
Total: R$ 4.671.321.590

*O ranking usa o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) para valoração

Cortes de energia em 2025
RN: 11.268.033 MWh
BA: 10.332.659 MWh
MG: 4.822.717 MWh
PI: 3.378.468 MWh
CE: 3.039.832 MWh
PE: 1.050.934 MWh
PB: 634.640 MWh
SP: 308.369 MWh
RS: 254.401 MWh
MA: 188.065 MWh
SC: 24.805 MWh
Total: 35.302.923 MWh

Fonte: Volt Robotics

Fernando Azevêdo/Repórter

Tribuna do Norte

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