Segundo o gastroenterologista Fernando Lisboa, do HUOL, o câncer de pâncreas é considerado um dos mais agressivos | Foto: Alex Régis
A morte da atriz potiguar
Titina Medeiros, aos 48 anos, vítima de câncer de pâncreas, reacendeu o debate
sobre uma das doenças mais agressivas e letais da oncologia. Natural de Currais
Novos e criada em Acari, no interior do Rio Grande do Norte, Titina enfrentava
a doença há cerca de um ano e morreu neste domingo (11), em Natal. O
sepultamento ocorreu nesta segunda-feira (12), em Acari, após homenagens
prestadas no Teatro Alberto Maranhão, em Natal.
Conhecida nacionalmente pela personagem Socorro, a “personal colega” de Chayene, na novela Cheias de Charme, da TV Globo, em 2012, Titina travou uma luta discreta contra a doença. Em mensagem nas redes sociais, a irmã da atriz, Rejane Medeiros, destacou a rapidez da evolução do quadro. “Sabíamos que o câncer de pâncreas era agressivo, mas não esperávamos perdê-la em menos de um ano”, escreveu.
Segundo o gastroenterologista
Fernando Lisboa Junior, do Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL), o câncer
de pâncreas é considerado um dos mais agressivos justamente pela combinação
entre comportamento biológico e diagnóstico tardio. “É uma doença com altíssima
letalidade. Cerca de 50% dos tumores já apresentam metástases no momento do
diagnóstico, e ainda não existem protocolos de detecção precoce”, explica.
De acordo com o médico,
trata-se de um tumor que cresce de forma silenciosa e se espalha rapidamente
pelo organismo. “É um câncer que infiltra vasos sanguíneos e linfáticos
precocemente e, muitas vezes, já compromete todo o corpo quando os sintomas
aparecem”, afirma. Por isso, em grande parte dos casos, a cirurgia, única forma
de tratamento com potencial de cura, já não é possível. “Em cerca de 80% dos
pacientes, a doença está avançada demais no momento do diagnóstico, como
ocorreu com a atriz Titina Medeiros”, completa.
Entre os fatores de risco
estão tanto questões genéticas quanto hábitos de vida. O tabagismo é apontado
como o principal deles, seguido pelo consumo excessivo de álcool, obesidade,
sedentarismo e dietas ricas em gorduras e alimentos ultraprocessados. “Algumas
mutações genéticas também estão associadas ao câncer de pâncreas, o que
justifica, em casos específicos, o aconselhamento genético”, destaca Fernando
Lisboa.
No Brasil, segundo o
Ministério da Saúde, sem considerar os tumores de pele não melanoma, o câncer
de pâncreas ocupa a 14ª posição entre os tipos de câncer mais frequentes. É
responsável por cerca de 1% de todos os tipos de câncer diagnosticados e por 5%
do total de mortes causadas pela doença, cujo risco aumenta com o avanço da
idade e era raro antes dos 30 anos, tornando-se mais comum a partir dos 60.
O médico também observa que o
diagnóstico tem sido cada vez mais frequente em pessoas mais jovens, o que não
significa necessariamente aumento da incidência por sexo. “A incidência é
praticamente igual entre homens e mulheres. O que ocorre é uma maior exposição
a fatores de risco desde cedo e o uso mais frequente de exames de imagem, que
acabam detectando mais casos”, explica.
Os sinais de alerta, no
entanto, costumam surgir quando a doença já está em estágio avançado. Entre os
principais sintomas estão dor na parte superior do abdome, perda de peso, falta
de apetite, fadiga, icterícia (caracterizada pelo amarelamento da pele e dos
olhos) e urina escura. “Infelizmente, esses sintomas aparecem tardiamente na
maioria das vezes”, alerta o especialista.
No tratamento, apenas 15% a
20% dos pacientes são candidatos à cirurgia de retirada do tumor,
pancreatectomia. A quimioterapia pode ser utilizada antes ou depois do
procedimento, e parte das cirurgias já pode ser realizada por técnicas
minimamente invasivas. “A chance de cura depende diretamente do estágio da
doença no momento da cirurgia. Quanto mais precoce o diagnóstico, maiores são
as chances”, enfatiza o gastroenterologista.
A morte de Titina ocorre em um
contexto em que outros artistas também tornaram público o diagnóstico de câncer
de pâncreas recentemente, como o apresentador Edu Guedes e o músico Tony
Bellotto, reforçando a necessidade de informação e atenção aos fatores de
risco. Embora não haja exames de rastreamento de rotina para a população geral,
a orientação médica é clara: adotar hábitos de vida saudáveis, evitar o
tabagismo e procurar assistência especializada diante de sintomas persistentes
podem fazer a diferença.

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