Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
O calendário eleitoral impõe
ao eleitor uma tarefa que vai além da comparação de propostas e discursos. Em
um ambiente institucional que voltou a ser marcado pela recorrência de
investigações, operações policiais e questionamentos sobre a gestão de recursos
públicos, a avaliação da conduta de quem disputa o voto torna-se um elemento
central do processo democrático.
Nos últimos anos, multiplicaram-se episódios envolvendo suspeitas de irregularidades na administração pública. Operações policiais relacionadas ao uso de emendas parlamentares, apreensões de dinheiro em espécie e relações pouco transparentes entre agentes públicos e interesses privados deixaram de ser fatos isolados. Casos semelhantes surgem em diferentes estados e em diversos níveis de governo, indicando um padrão que merece atenção.
O episódio recente envolvendo
a gestão de Mossoró, assim como o caso do Banco Master, inserem-se nesse
contexto, independente dos valores eventualmente envolvidos. As conclusões
jurídicas cabem às instâncias competentes, mas ao eleitor cabe evitar que a sucessão
desses fatos produza a banalização. Quando situações dessa natureza se
acumulam, o debate público tende a tratá-las como parte do funcionamento normal
do sistema, reduzindo seu impacto e diluindo responsabilidades, gerando um
ciclo que se retroalimenta.
Essa naturalização do desvio
tem consequências diretas para a própria democracia. Enfraquece a confiança nas
instituições, desestimula o controle social e reforça a percepção de que
práticas questionáveis são toleradas desde que politicamente convenientes.
Trata-se de um custo institucional elevado, frequentemente subestimado no
debate eleitoral.
Em um ano em que estarão em
disputa cargos estratégicos que vão da Presidência da República aos governos
estaduais, passando pela escolha de senadores e deputados, critérios como
moralidade administrativa, transparência e compromisso com o interesse público
não devem ser tratados como acessórios. A trajetória dos candidatos, sua
atuação diante de crises e sua relação com estruturas de poder devem ser
elementos objetivos de avaliação por parte do eleitor.
Também merece atenção a forma
como gestores estruturam suas equipes. Não basta a um gestor descentralizar as
decisões como se assim sua responsabilidade fosse menor. A escolha de
assessores e auxiliares é parte indissociável do exercício do poder. Quadros
mal selecionados, sem critérios técnicos ou éticos consistentes, tendem a gerar
instabilidade administrativa e ampliar riscos institucionais. Ainda que não
haja responsabilização penal, há sempre uma responsabilidade política
envolvida.
O voto não deve ser um gesto
automático, nem deve estar submisso ao conformismo. Quanto maiores os
questionamentos éticos, maior deve ser a atenção e o discernimento do eleitor.
Avaliar comportamentos, e não apenas promessas, é uma condição necessária para
preservar a integridade da vida pública e a credibilidade das instituições
democráticas.

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