Estado afirma que aumentou o número de atendimentos. Ontem, houve encaixe de horário para alguns aprovados | Foto: Adriano Abreu
Aprovados nos concursos
públicos da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) e da Secretaria de
Estado da Educação, do Esporte e do Lazer (SEEC/RN) vivenciaram, nesta
quarta-feira (21), mais um dia no cenário de angústia e incerteza que vem sendo
a tentativa de cumprir uma das últimas etapas antes da posse: a realização dos
exames admissionais na Junta Médica do Estado, em Natal. Com a aproximação dos
prazos e desafios com o sistema de agendamento, dezenas de candidatos têm ido
presencialmente ao local em busca de encaixes, muitos sem qualquer perspectiva
de atendimento. Em resposta às queixas, a Sead destacou que desde o dia 20
foram designados mais médicos da Sesap para atuar de forma exclusiva em apoio à
Junta Médica.
Apesar do reforço, aprovados nos concursos aguardaram desde a madrugada e ao longo de todo o dia. Alguns chegaram a dormir no local, temendo perder o prazo e, consequentemente, a vaga conquistada após anos de estudo. Dentre os presentes, as queixas são as mesmas: atrasos no início dos atendimentos, número reduzido de médicos e ausência de informações claras sobre vagas disponíveis.
O caso é relatado por Ana
Luísa Barreto, de 25 anos, que foi aprovada no concurso da SEEC/RN: desde a
noite de terça-feira (20), ela aguardou na Junta Médica tentando um encaixe.
“Estou aqui desde às 21h de ontem e não consegui. Médicos que deveriam chegar
às 7h chegam às 9h. A gente tenta marcar pelo site, como manda o edital, mas
simplesmente não consegue”, desabafou à TRIBUNA DO NORTE.
Mesmo com o transtorno, Ana
Luísa foi uma das aprovadas que conseguiu atendimento neste dia 21. Ao final da
tarde da quarta, todos os futuros servidores que aguardavam atendimento foram
chamados para realizarem seus exames. “Graças a Deus consegui, mas isso foi
algo que só havia acontecido na segunda, apenas na segunda-feira (19) eles
zeraram a fila dessa forma”, afirmou.
Segundo Ana Luísa, há
candidatos passando até 14 horas por dia em frente ao computador, sem sucesso.
“Cada pessoa recebe uma informação diferente, ninguém sabe no que acreditar.
Tem gente vindo de outros municípios, gastando dinheiro, desesperadas porque o
tempo está correndo”, relata. Ela afirma já ter realizado todos os exames e
enviado a documentação, que sequer foi analisada. “É um sentimento de
impotência. Fiz tudo que estava ao meu alcance, estudei, passei, e agora corro
o risco de perder a vaga.” Os aprovados no exame da SEEC/RN têm até o dia 7 de
fevereiro para tomarem posse.
Em nota divulgada nesta
quarta-feira (21), a Secretaria de Estado da Administração afirmou que segue
adotando medidas emergenciais para regularizar os atendimentos da Junta Médica.
Segundo a pasta, em um intervalo de cerca de 20 dias, o Estado realizou mais de
3 mil nomeações, o maior volume já registrado na história do Rio Grande do
Norte, o que teria superado momentaneamente a capacidade operacional regular da
Junta.
Ainda de acordo com a Sead,
até o momento, mais de mil atendimentos já foram realizados, e desde dezembro
houve ampliação da oferta de médicos do trabalho para emissão do Atestado de
Saúde Ocupacional (ASO).
Os aprovados relatam um
cenário diferente. Aprovada no concurso da SEEC/RN, Rayane Rodrigues, de 30
anos, relata que, embora o envio de documentos pelo sistema seja simples, a
marcação da Junta Médica se tornou o maior obstáculo. “A gente não sabe quantas
vagas são liberadas, nem o horário. Precisamos ficar de plantão o dia inteiro,
de madrugada, esperando o sistema abrir”, relata. Rayane afirma que, na última
sexta-feira (16), as vagas prometidas para o meio-dia só apareceram por volta
das 22h, pegando muitos candidatos de surpresa.
Ela também aponta falta de
organização no atendimento presencial. “Tem dias com dois médicos, outros com
três ou quatro. Os atendimentos começam a ser agendados às 7h10, mas os médicos
chegam às 8h ou 8h30 e vão embora ao meio-dia. Quem tenta encaixe fica
esperando, sem garantia nenhuma”, afirma. Para Rayane, o problema central é a
falta de médicos e de transparência sobre a real capacidade de atendimento.
A situação também afeta os
aprovados da área da saúde. Déborah Costa Santos, 26 anos, convocada no
concurso da Sesap no dia 31 de dezembro, ainda não conseguiu sequer acessar uma
vaga no sistema. “Quando entro, o sistema está fora do ar ou não tem vaga. Meus
documentos não foram analisados e pedi prorrogação do prazo há quase 10 dias,
sem resposta”, afirma, temendo pela falta de sucesso no pedido de prorrogação,
que poderá acarretar a perda de sua vaga. O prazo original de Déborah, e dos
aprovados no concurso da Sesap, vai até 30 de janeiro.
Camila Lacerda, 26 anos,
aprovada no concurso da Educação, descreve a situação como “desgastante e
desumana”, e relata uma rotina exaustiva de tentativas frustradas. “Fiquei das
11h30 até 21h30 em frente a três telas esperando as vagas que, segundo a nota
da Sead, seriam liberadas ao meio-dia. Elas só apareceram depois das 22h,
quando eu já estava exausta. No dia seguinte, surgiram rapidamente e foram
preenchidas em minutos”, conta. Para ela, o sistema lento e instável agrava
ainda mais o problema. “Já pedi demissão do meu emprego para assumir o
concurso. Estudei muito e não consegui nem comemorar a nomeação.”
O professor de Língua
Portuguesa Antonio Mesquita, 27 anos, resume o sentimento coletivo: “Toda a
alegria da convocação foi interrompida por uma sequência de descaso. Não temos
informações claras, não conseguimos vaga na junta, não sabemos a data da posse.
Não somos animais para sermos tratados assim. Somos humanos e merecemos
respeito.”
Além da dificuldade de
agendamento, os aprovados também demonstram preocupação com a validade dos
exames, que podem expirar e gerar novos custos, e com a necessidade de pedir
prorrogação de posse. Embora a Sead tenha informado que a prorrogação é um direito
previsto em lei, muitos temem que isso gere prejuízos, como atraso na análise
da documentação ou mudança na ordem de nomeação.
Em resposta às queixas dos
aprovados, a Sead reforçou ainda que novas vagas de agendamento continuarão
sendo liberadas diariamente às 12h, exclusivamente pelo sistema online, e
orientou os candidatos a evitarem comparecer presencialmente sem agendamento,
alegando que isso compromete a organização dos atendimentos. Questionada sobre
a quantidade de atendimentos realizados por dia, a pasta respondeu que não há
previsão exata, uma vez que depende da forma de atendimento de cada médico,
podendo então variar de 15 até 100 atendimentos por dia.
Apesar de todos presentes na
Junta Médica nesta quarta terem conseguido o almejado atendimento, os futuros
servidores públicos que ainda precisam realizar o exame de admissão expressam
preocupação com a efetividade dos agendamentos online disponibilizados. Eles
pedem a descentralização da realização dos exames médicos, uma vez que a
sobrecarga da Junta Médica é a principal justificativa apontada como causa das
dificuldades de agendamento.

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