domingo, 7 de setembro de 2025

Natal perde moradores e vê cidades da Região Metropolitana crescerem

A nova estimativa populacional divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em agosto deste ano acendeu um alerta em Natal: a capital potiguar perdeu moradores, enquanto as cidades da região metropolitana vêm ampliando espaço. O levantamento de 2025 apontou 784.249 habitantes, 1.119 a menos que no ano anterior, o que representou queda de 0,14%, a segunda maior entre as capitais brasileiras, atrás apenas de Salvador (-0,18%). O fenômeno acompanha uma tendência nacional identificada pelo Censo 2022 e confirmada nos cálculos anuais: famílias deixam áreas centrais em busca de moradia mais acessível nas cidades do entorno.

O movimento tem se refletido principalmente no dia a dia de jovens e famílias que iniciam a vida adulta com o desafio de equilibrar o salário com os custos. É o caso de Jefferson Vicente, 26, que há cerca de um ano trocou Natal por Parnamirim. “Decidi me mudar para Nova Parnamirim pela melhor localização, já que é mais próximo ao trabalho. Acho Parnamirim mais tranquilo, aqui tenho um custo de vida menor e uma boa qualidade de vida. Ainda mantenho vínculo e tenho familiares em Natal. Estou sempre por lá. Talvez retornaria a Natal”, relata.

A situação observada em Natal acompanha um fenômeno nacional. Ricardo Ojima, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), do Departamento de Demografia e Ciências Atuariais, destaca que as estimativas anuais se baseiam em tendências, não em novas coletas de dados, e refletem o que ocorreu entre 2010 e 2022. “Existe uma tendência generalizada. Os municípios do entorno metropolitano têm apresentado crescimento em relação ao centro, entre outros motivos, pelo aumento do preço do solo. As capitais concentram infraestrutura e serviços, mas também têm os metros quadrados mais caros”, explica.

Segundo Ojima, esse processo já é consolidado em várias regiões do país. Ele lembra que, além da redistribuição populacional, a redução da natalidade também pressiona o crescimento. “O volume da população do Brasil tende a se estabilizar e começar a decrescer. Pensar que crescimento populacional é indicador direto de desenvolvimento econômico já é uma falácia. Muitos municípios vão registrar queda nos próximos anos sem que isso signifique incapacidade de atrair pessoas ou estagnação”, afirma.

O professor ressalta que a transição demográfica pode abrir espaço para um planejamento urbano mais sustentável, já que o envelhecimento da população, visível em cidades como Natal, exigirá investimentos em mobilidade, calçadas acessíveis e políticas específicas. Ele destaca ainda que a chave está na articulação regional, defendendo que apenas o reconhecimento formal de uma região metropolitana não garante uma gestão integrada, o que torna essencial o planejamento conjunto entre os municípios.

Na avaliação do secretário de Meio Ambiente e Urbanismo de Natal, Thiago Mesquita, o encolhimento populacional está diretamente ligado às limitações territoriais da capital. “Natal tem apenas 190 km², é quatro vezes menor que Macaíba e também menor que Parnamirim, São Gonçalo do Amarante e Extremoz. Naturalmente, esses municípios têm terrenos mais baratos e capacidade maior de expansão urbana. O Censo de 2010 já refletia isso, mostrando o boom imobiliário em Nova Parnamirim, Extremoz e São Gonçalo”, afirma.

Ele observou que a rigidez das antigas leis urbanísticas contribuiu para a migração, mas ressaltou que as reformas recentes criaram condições para a retomada. Segundo ele, o novo Plano Diretor, o Código de Obras e o pacote urbanístico indicam uma tendência de crescimento em Natal, já refletida na emissão de 106 alvarás de construção voltados principalmente para moradias, somando R$ 3,5 bilhões em investimentos. Acrescentou ainda que, sem essas mudanças, a queda populacional teria sido mais acentuada.

Mesquita avalia que a capital já colhe resultados das medidas, embora os efeitos plenos apareçam apenas no médio e longo prazo. O objetivo, segundo ele, é concentrar empreendimentos habitacionais em áreas que já contam com infraestrutura, equilibrando expansão urbana e preservação ambiental. “A tendência é reverter o processo de declínio da população de Natal”, completa.

Planejamento urbano

Na esfera da habitação, a principal barreira está na dependência de recursos federais. O secretário adjunto de Habitação, Regularização Fundiária e Projetos Estruturantes de Natal (Seharpe), Felipe Maciel, explica que a política nacional privilegia terrenos próximos a serviços básicos. “Em Natal, é difícil encontrar terrenos com essa característica, e isso dificulta a implantação de projetos. Só agora, no Minha Casa, Minha Vida 2025, tivemos mais de 20 cadastros. A expectativa é atingir a meta de 2 mil unidades, mas isso depende de licenças e infraestrutura”, afirma.

Segundo Maciel, a cidade busca alternativas como a locação social em áreas do centro histórico, associada ao retrofit. “A ideia é atrelar a preservação de prédios subutilizados à ocupação por moradores. O modelo antigo de centro comercial não funciona mais. O mundo mudou, e a lógica hoje é trazer moradores, dar vida ao centro. A locação social pode ajudar nisso, mas ainda está em estudo”, explica.

Essa proposta foi discutida em reunião com a Caixa Econômica Federal no último dia 2 de setembro. A ideia da Prefeitura é implementar uma Parceria Público-Privada (PPP) de locação social dentro do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), buscando adaptar e recuperar imóveis ociosos, tranformando em moradia. O projeto ainda está em fase de estudos e depende da contratação do Programa de Estruturação de Projetos (FEP), que avaliará a viabilidade técnica. Na primeira fase, poderão ser oferecidos 800 imóveis.

O secretário adjunto admite que o custo de vida mais alto em Natal leva muitas pessoas a optarem por cidades vizinhas. O metro quadrado mais barato, os incentivos à construção civil e a função de cidades-dormitório explicam a migração. Ele avalia que o novo Plano Diretor pode reverter parte do fluxo, ao permitir que construtoras retomem projetos de diferentes faixas de renda dentro da capital.

Para o professor da UFRN, Ricardo Ojima, o caso de Parnamirim é emblemático do processo de desconcentração. O município foi um dos que mais cresceram no país nos anos 1990 e manteve ritmo acelerado no Censo 2022. O fenômeno, segundo ele, não é positivo nem negativo por si só, mas exige instâncias de governança metropolitana. A falta de coordenação pode comprometer tanto Natal quanto as cidades vizinhas, que já enfrentam desafios de infraestrutura e mobilidade.

De acordo com as estimativas do IBGE para 2025, Natal segue como o município mais populoso do Rio Grande do Norte, com 784.249 habitantes, embora em queda. Na sequência aparecem Mossoró, com 278.587 moradores, e Parnamirim, que soma 271.713 e se consolida como terceira maior cidade do estado. Ainda na lista estão São Gonçalo do Amarante (124.495), Macaíba (87.056), Ceará-Mirim (83.543) e Extremoz (68.584), todos integrados à Região Metropolitana de Natal. Já no interior, os destaques são Caicó (63.338) e Açu (59.099).

O envelhecimento populacional, aliado à queda de fecundidade, também deve projetar mudanças estruturais no estado. O Rio Grande do Norte registrou, em 2022, a menor taxa de fecundidade do Nordeste, com 1,49 filho por mulher, abaixo da média nacional. Em Natal e Parnamirim, predominam famílias menores, com um ou dois filhos, enquanto os índices de natalidade elevada despencaram. Esse dado, para Ojima, reforça a tendência de estabilização populacional.

Homem sentado em banco de madeira

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Ricardo Ojima: “Muitos municípios vão registrar queda nos próximos anos sem que isso signifique estagnação” | Foto: Alex Régis

Tendência pode mudar finanças das cidades

No campo financeiro, a consequência imediata sobre as transferências federais tende a ser pequena. O Tribunal de Contas da União (TCU) informa que a queda de 0,14% não altera o coeficiente de Natal no Fundo de Participação dos Municípios (FPM), já que a capital se encontra na menor faixa de cálculo entre as capitais. “As estimativas populacionais são o principal insumo para o cálculo dos coeficientes do FPM, entretanto, no caso das Capitais, também é utilizada a renda per capita, que contribui de maneira inversa para a fixação do coeficiente, ou seja, quanto maior essa renda, menor será o coeficiente da Capital no FPM”, destaca o TCU.

O TCU explica que a queda populacional isolada não altera o coeficiente de participação de Natal. No entanto, o valor dos repasses em 2026 dependerá da posição relativa da capital em relação às demais, já que os coeficientes de todas as cidades podem sofrer variação em comparação a 2025. Essa definição será conhecida apenas com a publicação da Decisão Normativa referente ao próximo ano, prevista para até o fim de novembro.

“Nos municípios de população média e grande, as variações de coeficientes em decorrência das estimativas anuais publicadas pelo IBGE não acarretam alterações sensíveis nas participações relativas nos recursos do FPM. Entretanto, para os municípios menos populosos, que ocupam as faixas menores de coeficientes, alterações de faixa podem causar um impacto sensível na participação relativa do FPM”, informa. O Tribunal, no entanto, destaca que há uma tendência histórica de aumento na arrecadação dos tributos que formam o fundo, o que costuma compensar eventuais variações nos repasses.

Em nível nacional, o IBGE registrou que 2.079 municípios apresentaram taxas negativas de crescimento em 2025. Além de Natal e Salvador, também apresentaram redução Belo Horizonte (-0,02%), Belém (-0,09%) e Porto Alegre (-0,04%).

Larissa Duarte/Repórter

Tribuna do Norte

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