A notícia foi confirmada ao
jornal O Globo por Laninha Braga, ex-namorada que estava cuidando da
cantora, e pelo produtor Paulinho Lima, amigo de longa data da artista. De
acordo com a publicação, Angela teve uma parada cardíaca após um procedimento
cirúrgico.
Nascida no Rio de Janeiro em
1949, Angela Maria Diniz Gonsalves recebeu esse nome em homenagem à cantora
Angela Maria (1929-2018). Filha única, começou a estudar piano clássico na
infância, mesma época em que ganhou o apelido de Ro Ro, por conta de sua voz
rouca, que, segundo Angela, ela herdou de sua mãe, a enfermeira Conceição. O
pai, Ayenio Diniz Gonsalves, era policial civil.
No início dos anos 1970, foi
para a Europa, onde passou por Roma e se fixou em Londres, onde trabalhou com
faxineira em um hospital. Filha de pai baiano, Ro Ro conhecia o cineasta
Glauber Rocha, um dos diretores do Cinema Novo. Foi Glauber quem a apresentou a
Caetano Veloso, na época exilado em Londres após ser preso pela ditadura
militar brasileira.
Foi convidada por Caetano a
participar do hoje cultuado álbum Transa, no qual tocou gaita na faixa
Nostalgia, ao lado de Jards Macalé, Áureo Martins e Tutty Moreno. Nessa época,
Ro Ro já compunha, mas em inglês, canções que depois foram vertidas para o português.
De volta ao Brasil, na segunda
metade dos anos 1970, Ro Ro começou a participar de festivais, como o de
Saquarema, em 1976. Apresentada ao público como roqueira, nunca quis fazer
frente a Rita Lee, a dona do posto à época. Fugiu o quanto pôde de se lançar
como cantora profissional. “Sabia que ia dar merda”, disse, anos mais tarde, ao
justificar sua resistência à fama.
Lançou o primeiro disco, que
levava apenas seu nome, em 1979. De imediato, fez sucesso com três canções,
Amor, Meu Grande Amor, que tem letra de Ana Terra, Tola Foi Você e Não Há
Cabeça. Pelo menos outras três canções se destacaram, Balada da Arrasada, Agito
e Uso e Gota de Sangue.
Neste mesmo ano, participou do
especial Mulher 80, da TV Globo, no qual aparece tocando piano para Marina para
Não Há Cabeça. Anos mais tarde, em entrevistas, Ro Ro afirmava que nesta mesma
época conheceu Elis Regina (1945-1982) e que ela havia se interessado em gravar
uma de suas canções. Afirmava também que um produtor, por homofobia, impediu
que Elis conhecesse suas composições.
Em 1980, em seu segundo disco,
Ro Ro emplacou Só nos Resta Viver Gravou Bárbara, de Chico Buarque e Ruy
Guerra, e o samba canção Fica Comigo Esta Noite. Mostrou sua irreverência –
traço de sua personalidade que a marcaria tanto na carreira quanto na vida
pessoal – no blues Meu Mal é a Birita.
No ano seguinte, depois de
sair em manchetes de jornais por uma ruidosa briga com a cantora Zizi Possi, Ro
Ro lançou o álbum Escândalo, que tinha o mesmo nome de uma canção que Caetano
Veloso compôs especialmente para ela. “Se ninguém tem dó/Ninguém entende nada/
O grande escândalo sou eu aqui, só”.
Genial como compositora e
pianista e com um discurso libertário, moldado pelo humor e pela irreverência,
Ro Ro ficaria para sempre associada à palavra escândalo, o que, por muitas
vezes, lhe trouxe dissabores na carreira.
No álbum seguinte, como se
quisesse se dissociar do rótulo, gravou a balada Simples Carinho, de João
Donato e Abel Silva, que se tornou um sucesso em sua voz, Na capa do LP,
aparecia dentro da água, de cabelos molhados, com um papagaio em uma das mãos.
Como uma possível resposta
também, regravou o samba canção Demais, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, que
havia feito sucesso na voz de Maysa. Cantou também Camisa de Força, composição
autoral. “No Natal, me dê um camisa de força”, diz trecho da letra. Participou
do especial Pirlimpimpim, da TV Globo, baseado na obra de Monteiro Lobato.
Cantou Cuca, música da vilã que assustava o pessoal do Sítio do Pica-Pau
Amarelo.
Em 1983, tem sua consagração
como autora ao ser gravada por Maria Bethânia. A canção Fogueira foi o grande
sucesso do álbum Ciclo, o qual Bethânia considera seu melhor disco de carreira.
Ro Ro só gravaria Fogueira um ano depois, em 1984, no álbum chamado A Vida É
Mesmo…Assim.
Ro Ro continuou a gravar
regularmente nas década de 1980 e 1990 – essa última, em geral, complicada para
os artistas da chamada MPB que sofriam com o avanço do sertanejo pop, do pagode
romântico e do axé music.
No final da década de 1990,
depois de perder os pais, apareceu para o público cerca de 40 quilos mais
magra, resultado, segundo ela, de uma mudança de vida que a fez enfrentar a
obesidade e o vício em álcool. Voltou a fazer sucesso com a canção Compasso, do
álbum de mesmo nome, na qual dizia que estava “bebendo água pra lubrificar” e
que, agora, tinha como alvo a paz.
Em 2018, ao ser questionada
pela apresentador Pedro Bial para onde havia direcionada sua compulsividade, a
cantora respondeu, no programa Conversa com Bial: “Para a música, mulheres…Sim,
eu sou gay”, disse, para, em seguida, receber aplausos da plateia.
Ro Ro, então, afirmou, nessa
mesma entrevista, que foi espancada cinco vezes por homofobia nos anos 1970 e
1980, e que havia perdido a visão do olho esquerdo em uma das ocasiões em que
sofreu violência. Acusou agentes da Segurança Pública do Rio de Janeiro.
“Quatro (vezes) militares e uma civil”, disse.
Após trabalhos retrospectivos,
Ro Ro lançou, em 2017, o álbum Selvagem, de canções inéditas, sem grande
destaque. Nos últimos anos de vida, passou a fazer shows mais intimistas,
tocando piano ou sendo acompanhada pelo músico Ricardo Marc Cord.
Em 2023, foi convidada por
Caetano Veloso e participar do show Transa, no qual o compositor baiano
revisitou o repertório do histórico álbum. No mesmo ano, depois de despertar o
interesse do público mais jovem, foi convidada para cantar no Coala Festival,
em São Paulo, voltado para artistas da música brasileira. No entanto, horas
antes de subir ao palco, Ro Ro cancelou sua participação alegando estar doente.
Em 2024, lançou dois singles
autorais, o samba Cadê o Samba? e a balada Planos do Céu. Foram seus últimos
trabalhos. No primeiro semestre de 2025, Ro Ro pediu ajuda nas redes sociais.
Disse estar doente, sem dinheiro e com uma conta bancária bloqueada.
Muitos a ajudaram; outros
tantos duvidaram do pedido – resquícios dos tempos nos quais Ro Ro se envolveu
em grandes polêmicas, sempre em um processo de autodestruição que lhe deram a
pior fama possível, em contraste ao seu grande talento, na qual ela, muitas
vezes, deitou.
Angela Ro Ro morreu sendo
personagem do próprio grande escândalo – de talento e de vida – que se tornou:
uma mulher gay que ousou falar de amor em uma sociedade preconceituosa.
Estadão Conteúdo

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