quinta-feira, 18 de setembro de 2025

ABEEólica propõe ajustes na geração distribuída no país

Micro e minigeração distribuída está se consolidando como a 2ª maior fonte de geração do país | Foto: Ana Silva/Arquivo TN

A Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica) divulgou um posicionamento em que chama atenção para os impactos do crescimento acelerado da micro e minigeração distribuída (MMGD) no Brasil. O modelo, que permite que consumidores instalem painéis solares ou pequenas usinas para gerar a própria energia, já ultrapassou 40 GW de potência e está se consolidando como a segunda maior fonte de geração do país, atrás apenas das hidrelétricas. Para a ABEEólica, o problema não está na existência da geração distribuída, mas na forma como ela está estruturada. A entidade defende ajustes regulatórios que garantam uma divisão mais equilibrada dos custos da rede, propondo mecanismos como o “Fator de Corte”, para que todos os geradores participem das responsabilidades do sistema, de modo que os benefícios e encargos sejam distribuídos de forma mais justa.

A associação explica que os consumidores com MMGD têm benefícios tarifários que reduzem ou isentam o pagamento de encargos como a Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição (TUSD). Isso significa que uma parte dos custos da rede elétrica, como manutenção de linhas e perdas técnicas, é transferida para quem não tem geração própria.

É como se o custo de manutenção de uma estrada fosse dividido entre todos os motoristas, mas alguns não pagassem por ela. O resultado é que os demais motoristas precisam pagar mais para cobrir a despesa total. No setor elétrico, esse fenômeno ficou conhecido como “espiral da morte”: quanto mais pessoas instalam painéis solares, menor é a base de consumidores que pagam integralmente pelos custos, o que eleva a tarifa para quem permanece no sistema e incentiva ainda mais gente a migrar para a geração própria — criando um ciclo difícil de sustentar financeiramente.

Na prática, o consumidor com MMGD paga menos pela Tarifa de Uso do Sistema de Distribuição (TUSD) e por encargos como perdas técnicas e subsídios setoriais, conforme aponta a ABEEólica. Esses valores são então redistribuídos entre quem continua no mercado cativo, geralmente pessoas que não têm condições financeiras para instalar painéis solares. “É um efeito bola de neve”, resume o documento divulgado pela ABEEólica. Quanto mais gente adere à geração própria, mais sobe a conta para quem não tem como investir — e isso incentiva novas adesões, criando a chamada “espiral da morte” das tarifas.

Outro ponto de preocupação é a segurança elétrica. Ao contrário das usinas centralizadas, a geração distribuída não é controlada em tempo real pelo Operador Nacional do Sistema (ONS). Em dias ensolarados, a produção é tão alta que reduz a carga líquida da rede, tornando o controle de tensão e frequência mais difícil. Em algumas regiões, já há registros de sobrecarga em transformadores e até de fluxo reverso — quando a energia da rede de distribuição é empurrada para o sistema de transmissão, algo que não estava previsto no desenho original da rede.

Para evitar riscos de apagão, o ONS muitas vezes precisa cortar a produção de usinas eólicas e solares centralizadas, desperdiçando energia limpa. Estimativas indicam que, até 2029, esses cortes podem chegar a 40 GW nos horários mais críticos. A ABEEólica afirma que, se a MMGD também participasse proporcionalmente desses cortes — mesmo que de forma contábil —, a energia desperdiçada poderia ser reduzida em até 46% já hoje e mais de 50% nos próximos anos.

A solução proposta pela associação é criar um “Fator de Corte” mensal, calculado pelo ONS, que seria aplicado pelas distribuidoras no faturamento das unidades de MMGD. O ajuste seria apenas financeiro, sem desligar fisicamente os sistemas, e redistribuiria os custos de forma mais justa entre todos os geradores.

A ABEEólica defende ainda uma revisão dos subsídios e incentivos para tornar a competição entre as fontes mais justa. Os números mostram a rapidez do movimento: esses subsídios passaram de R$ 449 milhões em 2020 para R$ 12 bilhões em 2024, valor que já representa 4,27% da conta de luz residencial. A entidade diz que, se nada for feito, essa conta continuará crescendo e agravando a desigualdade entre quem pode e quem não pode gerar sua própria energia. “Embora tenha sido observada queda no preço dos equipamentos, o principal motivo a impulsionar a entrada massiva da fonte foi o investimento de outros consumidores que arcaram com os subsídios da MMGD”, destaca a ABEEolica.

Para a associação, a Lei 14.300/22, que criou o marco legal da MMGD, foi um avanço, mas a transição para o fim dos subsídios é muito lenta e sem prazo para que os projetos entrem em operação. Também pede que o valor do crédito de energia reflita o horário em que foi gerado — para que a energia produzida ao meio-dia não tenha o mesmo valor da consumida à noite, quando o custo do sistema é maior.

Equilíbrio regulatório e justiça no rateio

O empresário potiguar Sérgio Azevedo, membro do Conselho de Administração da ABEEólica, reforça que a preocupação não se trata de impedir o avanço da energia solar, uma vez que a micro e minigeração distribuída democratiza o acesso à energia, promove inovação e amplia a diversificação da matriz elétrica. “Não somos contra esse modelo — pelo contrário, reconhecemos seu papel na transição energética. Se esse crescimento impressionante não for acompanhado de ajustes regulatórios, representa um peso crescente dentro da Conta de Desenvolvimento Energético e acaba refletindo na conta de luz de todos.”, afirmou.

Para o executivo, é preciso encontrar soluções que distribuam os custos de forma justa. “A ideia é simples e justa: criar um mecanismo de ajuste contábil em pós-operação. O ONS calcula um Fator de Corte proporcional e a distribuidora aplica isso no faturamento, sem interferir na operação em tempo real. Assim, garantimos segurança elétrica e justiça no rateio, porque quem injeta mais energia participa proporcionalmente”, defende.

Homem sentado em frente a mesa

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Sérgio Azevedo: é preciso encontrar soluções que distribuam os custos de forma justa | Foto: Adriano Abreu

Entidades defendem papel estratégico da GD

A ABEEólica e a Associação Potiguar de Energias Renováveis (APER) reconhecem a importância estratégica da MMGD para o Brasil, valorizam seus benefícios sociais e econômicos e defendem estabilidade regulatória. Mas a Aper apresenta um contraponto ao posicionamento da ABEEólica. Para o presidente da entidade, Williman Oliveira, a geração distribuída não é um problema para o sistema elétrico, mas uma solução que traz benefícios econômicos e sociais.

“O crescimento acelerado da energia solar tem sido um benefício para o país. Esse avanço empodera o consumidor, permitindo que ele atue como ‘prosumidor’, reduzindo sua dependência de tarifas elevadas, especialmente em períodos críticos, quando precisamos recorrer a fontes caras e poluentes, como as termelétricas”, afirmou.

Oliveira destaca que o avanço da MMGD ajudou pequenos negócios e famílias a reduzir custos e investir em melhorias. “A geração distribuída conquistou os telhados de pequenos comércios, padarias, residências e microempresas, trazendo economia, empregos e melhorando a qualidade de vida da população”, diz ele.

Williman critica a proposta de incluir a MMGD no rateio dos cortes de geração. “A tentativa de incluir a MMGD nesse escopo representa um equívoco grave e uma penalização indevida para pequenos geradores. Estender essa prática para a GD só agravaria a situação e criaria insegurança para um setor em pleno crescimento”, avalia o presidente da Aper.

Para ele, a Lei 14.300/22 trouxe estabilidade regulatória ao setor e deve ser preservada. “Desacelerar o crescimento na produção de energia solar seria um retrocesso”, disse ele.

Tribuna do Norte

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