Donald Trump e Vladimir Putin se reuniram nesta sexta-feira, 15, no Alasca para discutir o fim da guerra na Ucrânia. Após um recepção calorosa na pista da base aérea de Elmendorf-Richardson, perto de Anchorage, os dois se fecharam por três horas cercados de diplomatas e assessores de segurança nacional. No fim, os dois realizaram um rápido pronunciamento, jurando terem chegado a um “acordo”, mas sem dizer qual.
Putin foi o primeiro a falar
aos jornalistas – um gesto extremamente incomum, visto que o anfitrião
normalmente tem a prerrogativa. O russo voltou a mencionar a necessidade de
eliminar as “causas profundas” da guerra na Ucrânia, um jeito próprio de se referir
a sua lista de exigências que já foram categoricamente rejeitadas por Ucrânia e
Europa. O discurso sugere que Putin não mudou sua posição maximalista –
anexação de parte do leste da Ucrânia, desarmamento total do país, veto à
adesão à Otan e mudança de governo em Kiev.
Em seguida, Trump garantiu ter
feito avanços, mas prometeu telefonar e contar os detalhes da reunião para os
líderes europeus, para o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, e para o
presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski. “Fizemos progresso. Mas não existe
acordo sem que haja um acordo”, disse o americano, em referência às consultas
com os aliados.
Exigências
A reunião terminou muito antes
do previsto e foi bem mais curta do que as seis ou sete horas que o porta-voz
do Kremlin, Dimitri Peskov, disse que duraria. O fato de Putin e Trump não
terem respondido a perguntas dos jornalistas deixou claro que nenhum dos dois
queria ser pressionado a dar detalhes do que foi discutido – no caso do
americano, é bastante incomum ele terminar um discurso sem conversar com a
imprensa.
Autoridades ucranianas em Kiev
acompanharam ansiosamente o pronunciamento após a reunião em busca de pistas
sobre o futuro da guerra. Mas, quando os dois presidentes partiram, a sensação
geral era de que a guerra continua, pelo menos por enquanto. “Foi um fracasso,
porque Putin voltou a falar de questões de segurança e usou sua retórica
habitual”, afirmou Oleksandr Merezhko, político ucraniano. “Não vi nenhuma
mudança.”
Zelenski também reagiu com
pouco entusiasmo. “No dia das negociações, os russos continuaram matando. E
isso diz muito”, escreveu o presidente ucraniano no X, em referência aos
ataques de ontem em Sumy, Dnipro, Zaporizhzia, Kherson e Donetsk. “A guerra continua,
e é precisamente porque não há ordem ou sinal de que Moscou está se preparando
para encerrá-la.”
Força
O que estaria por trás da
intransigência de Putin, segundo analistas, é sua posição de força no campo de
batalha. Nas últimas semanas, o exército russo abriu uma brecha nas defesas
ucranianas na região de Donbas, e autoridades da Ucrânia afirmam que o Kremlin
vem mobilizando forças e reunindo armamento para novas ofensivas. Quanto mais o
cessar-fogo demorar, mais território a Rússia ocupa.
Para muitos observadores, no
entanto, Putin saiu mais forte da cúpula. Foi a primeira visita dele aos EUA em
mais de uma década Com um mandado de captura emitido pelo Tribunal Penal
Internacional (TPI) por crimes de guerra na Ucrânia, ele está ameaçado de
prisão se viajar para países que são membros da corte, o que não é o caso dos
EUA.
Além disso, ele não apenas
saiu do isolamento internacional imposto pelas potências ocidentais, como
rompeu o cerco com estilo. Na chegada coreografada ao Alasca, Trump recebeu um
sorridente presidente russo.
Palmas
O tradicional aperto de mãos
foi precedido de aplausos de Trump, enquanto Putin desfilava pelo tapete
vermelho na pista do aeroporto. De forma surpreendente, Putin aceitou uma
carona na limusine presidencial – chamada de “Besta” -, e parecia confortável ao
se acomodar no banco de trás, ao lado de Trump.
Foi a primeira vez que
presidentes de EUA e Rússia apareceram juntos desde a cúpula de 2018 em
Helsinque, quando Trump afirmou com todas as letras que acreditava mais na
palavra de Putin do que nos relatórios de inteligência americanos sobre a
interferência da Rússia nas eleições vencidas por ele, em 2016.
O encontro do Alasca foi o
sétimo entre os dois presidentes e o primeiro no segundo mandato do americano.
A primeira presidência de Trump foi ofuscada por questionamentos sobre a
interferência russa na eleição presidencial de 2016, à qual Trump se refere
repetidamente como “farsa da Rússia”.
A cúpula do Alasca também teve
momentos de bajulação, incluindo um presente de Putin a Trump, endossando a
afirmação de que, se o republicano estivesse na Casa Branca, a Rússia não teria
invadido a Ucrânia, em 2022. “O presidente Trump disse que, se ele fosse
presidente, não haveria guerra, e posso confirmar isso “
Analistas, no entanto, lembram
que a Crimeia foi anexada pela Rússia em 2014, e paramilitares apoiados pelo
Kremlin passaram todo o primeiro mandato de Trump – entre 2017 e 2021 – em
guerra no leste da Ucrânia.
Próxima vez
O encontro terminou como uma
confraria. “Provavelmente nos veremos novamente em breve”, disse Trump. “Da
próxima vez, em Moscou”, respondeu Putin, em inglês macarrônico. “Vou receber
algumas críticas, mas acho que pode ser”, disse o americano. (COM AGÊNCIAS
INTERNACIONAIS)
Estadão Conteúdo
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