Entre os negócios locais que
adotaram a tecnologia, a Escaping Natal, especializada em jogos de fuga
imersivos, é exemplo de como a IA pode otimizar processos e gerar resultados
rápidos. O CEO, Tamil Selvam, conta que a decisão de implementar a inteligência
artificial surgiu da alta demanda no atendimento e da limitação de tempo para
lidar com reservas e novos clientes. A implantação envolveu formação interna
para que toda a equipe conseguisse acessar e usar a tecnologia corretamente,
garantindo integração fluida ao fluxo diário.
“Tivemos uma redução de 30% no
número de no-shows, e um aumento de 10% nas vendas. Além disso, houve ganho de
eficiência no atendimento e na operação em geral. Melhoramos processos internos
e agora estamos expandindo o uso da IA para a criação gráfica, itens de sala e
produção de vídeos. A IA será essencial para nossa inovação contínua”, avalia
Tamil. Para as reservas, agora o usuário consegue fazer o processo completo no
site, escolhendo a sala, data, horário e número de pessoas, entre adultos e
crianças, diminuindo a necessidade de contato direto com atendente.
O levantamento mostra que o RN
supera estados como Rio Grande do Sul (60%) e Piauí (63%), que aparecem na
sequência do ranking dos que mais usam a inteligência artificial após o RN.
“Podemos dizer que a tendência é clara: o uso de IA está se espalhando e já é
uma realidade também para pequenos e médios negócios do RN, ainda que as
grandes empresas tendam a apresentar aplicações mais sofisticadas”, avalia
Carlos von Sohsten, gestor do IALab do Sebrae RN.
Para o gestor, a tecnologia se
tornou um diferencial competitivo real. “Ela ajuda a automatizar tarefas,
melhorar a eficiência e personalizar o atendimento ao cliente, gerando decisões
mais rápidas e embasadas em dados. Para aproveitar bem, recomendamos que as
empresas invistam na capacitação das equipes, comecem por soluções acessíveis e
de fácil implementação, integrem a tecnologia aos processos já existentes e
priorizem áreas de maior impacto”, orienta.
O levantamento da GPTW mostra
que, no recorte nacional, setores como Contabilidade (80%), Estética e Beleza
(75%) e Seguros (67%) lideram a adoção, enquanto Indústria (48%) e Alimentação
(40%) ainda avançam mais lentamente. No RN, as áreas mais citadas são marketing
digital, gestão financeira e automação de processos, com aplicações que incluem
automação de campanhas, personalização de ofertas, controle de caixa,
conciliação financeira, uso de chatbots, integração de sistemas e treinamentos
corporativos.
Do outro lado, entre as
empresas que ilustram a execução desse protagonismo, está a Hais Tech, startup
potiguar. Para além de atividades corporativas, a empresa atua com foco em
soluções para a saúde. “Os pacientes quando estão internados, eles estão conectados
a equipamentos biomédicos que coletam batimentos, pressão, temperatura,
saturação do oxigênio. A gente consegue coletar esses dados e disponibilizá-los
em uma plataforma para que a equipe clínica consiga acompanhar os pacientes de
maneira remota e inteligente”, detalha Ramon Malaquias, CEO da Hais Tech.
Ele ressalta que, além de
desenvolver soluções baseadas em inteligência artificial, a empresa também
utiliza a tecnologia no dia a dia. Em seu negócio, Ramon conta com ferramentas
de IA que auxiliam tanto na geração de código quanto no suporte a desenvolvimentos
mais complexos.
A presença de empresas como a
Escaping Natal e a Hais Tech reforça a leitura de que o avanço potiguar no uso
de IA é sustentado por um ecossistema que combina capacitação, inovação e
aplicação prática. Para a CCO do GPTW, Daniela Diniz, esse é um caminho sem
volta. “Os que resistirem por mais tempo vão ficar cada vez mais para trás.
Ainda temos barreiras, especialmente a falta de conhecimento e de capacitação.
Hoje já necessitamos de habilidades específicas para o uso de IA e não
encontramos no mercado profissionais capacitados. Outra barreira é o medo da
mudança, que gera sempre resistência a novas tecnologias”, pontua.
Setores incorporam IA em suas
rotinas
No cenário local, a
disseminação da IA é impulsionada por um histórico de investimentos em formação
profissional e pela atuação de instituições como a Universidade Federal do Rio
Grande do Norte (UFRN) e o Instituto Metrópole Digital (IMD). Para Marcelo Fernandes,
coordenador do Núcleo de IA e Ciência de Dados do IMD/UFRN, a liderança
potiguar tem explicação direta. “Capacitação é a palavra-chave. A UFRN trabalha
com inteligência artificial desde 1999, acumulando 25 anos de pesquisas,
dissertações, doutorados e projetos que envolvem IA. Esse trabalho de longo
prazo explica por que o RN está na frente”, afirma.
Segundo ele, a ação de base
permitiu que, hoje, quase 90% dos projetos do IMD com empresas privadas e
instituições públicas envolvam inteligência artificial. “Esse dado da GPTW é
espetacular, mas não nos surpreende. Nós já percebemos isso no dia a dia dos
nossos projeto”, relata. Apesar da posição de destaque, ele admite que a
formação de profissionais ainda é insuficiente. “A IA precisa estar na formação
de todas as áreas, não só tecnologia. Não faz sentido um aluno de Jornalismo,
Medicina ou Direito sair da graduação sem noções de inteligência artificial”,
comenta.
O setor industrial é um dos
que também incorpora a tecnologia em processos de alto impacto. No Instituto
SENAI de Inovação em Energias Renováveis, as aplicações vão desde a prospecção
de fontes até a previsão de falhas e otimização de operações. O pesquisador
Raniere Rodrigues, que lidera projetos com IA no instituto, observa que a IA é
especialmente valiosa para descrever, prever e apoiar a tomada de decisões.
“A inteligência artificial é
extremamente transversal. No nosso Instituto, aplicamos soluções tanto para
prospecção de fontes renováveis quanto para otimização e monitoramento de
ativos do setor elétrico. São demandas que vão desde um estudo técnico até o
desenvolvimento de um equipamento novo”, explica.
No setor elétrico, a previsão
de geração e armazenamento de energia se tornou mais complexa com a entrada de
fontes renováveis variáveis, como solar e eólica. Com a IA, está sendo possível
modelar e antecipar cenários com mais precisão, reduzindo perdas e melhorando a
eficiência.
A pesquisa do GPTW também
revela que a utilização da IA não está, por enquanto, substituindo em larga
escala a mão de obra humana. No geral, 44% dos respondentes afirmam não
perceber substituições, enquanto 28% dizem que isso pode estar acontecendo e
13% já notam mudanças mais significativas em algumas funções. Outros 15% não
têm conhecimento do assunto.
“Essa questão do impacto no
trabalho, precisamos estar preparados. A gente vai ter que aprender a usar
essas novas ferramentas para poder não ser atropelados por elas”, explica
Marcelo Fernandes, do IMD.
No recorte por estado, além do
RN, outras unidades federativas com altos índices de uso são Minas Gerais,
Santa Catarina e Pará, todos com 53%, e Rio de Janeiro e Espírito Santo, com
51%. Já na Bahia e no Amazonas, os percentuais são de 33% e 32%, respectivamente.
Acre, Roraima e Amapá não aparecem no ranking de IA por falta de respostas de
empresas nas localidades. Já o Maranhão, os dados somente mostram que 43% das
empresas não trabalham com IA.
Larissa Duarte/Repórter
Tribuna do Norte

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