domingo, 31 de agosto de 2025

O infarto feminino tem sintomas específicos e também pode ser evitado; saiba como

Doenças cardíacas possuem o estigma de serem um problema tipicamente masculino, mas os fatos desmentem isso. Embora a incidência de infarto seja maior entre homens, as mulheres morrem mais. Atualmente, as doenças cardíacas na mulher já ultrapassam as estatísticas dos tumores de mama e útero. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças cardiovasculares respondem por um terço das mortes no mundo, sendo 23 mil mulheres por dia. Entre as brasileiras acima dos 40 anos, as cardiopatias chegam a representar 30% das causas de morte, a maior taxa da América Latina.

Os números mostram que, embora as mulheres já tenham se conscientizado sobre a importância de exames para a prevenção de doenças ginecológicas e câncer de mama, ainda cuidam pouco da saúde do coração. Os principais fatores que prejudicam o bom funcionamento do coração são má alimentação, estresse, fumo e sedentarismo, além de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes.

A falta de prevenção e a demora em identificar o problema contribuem para o alto número de óbitos. Segundo Gustavo Torres, cardiologista do Hospital Onofre Lopes (HUOL), um dos fatores que contribuem para o equívoco sobre a doença é o fato de alguns sintomas clássicos serem mais típicos nos homens do que nas mulheres – como a dor no peito, por exemplo. Quando o homem vai ter um infarto, costuma sentir uma forte dor no peito que irradia para os braços.

Gustavo explica que, para eles, em geral, há uma percepção mais clássica dos sintomas, comparado aos sintomas atípicos nas mulheres, o que pode levar a diagnósticos mais tardios. Para as mulheres, é mais comum sentir náusea, fraqueza, dores gástricas, falta de ar, e dor que irradia pelas costas, ombros e mandíbula. “Os sintomas típicos existem nas mulheres também, mas em alguns casos ocorrem os menos típicos”, ressalta.

Idade e hormônios

Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), os riscos ficam ainda maiores nas mulheres de 50 a 69 anos, faixa etária que apresentou o maior aumento nas mortes por infarto. Há uma relação direta, neste caso, com os fatores hormonais. O estrogênio, produzido pelo corpo feminino durante o período fértil, é um fator de proteção para o coração. Após a menopausa, como a mulher perde esse fator de proteção, o risco de infarto aumenta, se assemelhando ao do homem.

“No período da menopausa há uma variação hormonal muito grande no organismo feminino. Isso leva a uma série de alterações metabólicas, de ritmo circadiano, e pode aumentar a incidência de alterações tipo angina e infarto”, explica o cardiologista. Devido a isso, as mulheres na idade da menopausa – que no Brasil está por volta dos 48 anos em diante – devem ficar mais atentas aos riscos.

A saúde cardiovascular feminina também possui uma relação estreita com fatores como estresse, sobrecarga mental e emocional. “O estresse e as sobrecargas tendem a ter repercussões importantes se forem mantidas com frequência no cotidiano da pessoa”, diz.

A liberação hormonal envolvida nesses quadros, aumenta a frequência cardíaca e a pressão arterial.

O envelhecimento natural e o estilo de vida moderno também se relacionam com o aumento de eventos cardiovasculares na mulher. O acúmulo de várias funções, como no caso da mulher que trabalha fora, mas também cuida da casa e da família. O ritmo acelerado expõe essa mulher a muito estresse e favorece hábitos pouco saudáveis, como sedentarismo e má alimentação – condições ideais para as doenças que acometem o coração.

Outra combinação perigosa, mas comum, é o cigarro e a pílula anticoncepcional, que costumam triplicar os riscos cardiovasculares. Com o envelhecimento, a pressão arterial e o nível de colesterol tendem a aumentar. A falta de atividade física e a dieta inadequada levam ao sobrepeso e à obesidade, que também aumentam o risco cardiovascular.

Nos casos de uso de anticoncepcionais e mesmo da terapia de reposição hormonal, o médico afirma que o ginecologista poderá indicar se será necessário o acompanhamento de um cardiologista para tomar os devidos cuidados.

Prevenção

O diagnóstico precoce é fundamental para o sucesso do tratamento. Gustavo Torres afirma que todos aqueles (mulheres e homens) com alguma queixa de dor torácica, desconforto ou diminuição da capacidade física, precisam pensar numa avaliação cardiovascular. “Deve ser dada atenção aos sintomas que sugerem eventos cardíacos, como dor ou desconforto torácico. Em algumas situações os sintomas podem não ser típicos”, completa.

A prevenção aos problemas cardíacos passa pela adoção de hábitos de vida saudáveis, como alimentação balanceada; controle de peso; atividade física regular; redução do estresse; acompanhamento médico de rotina; e tratamento das doenças associadas, como hipertensão arterial, diabetes, dislipidemias e outras. Mulheres com predisposição genética para doenças cardiovasculares devem ter um cuidado extra.

“A prevenção sempre irá retardar o aparecimento dos problemas em qualquer cenário”, ressalta o cardiologista. Se há histórico familiar de eventos cardíacos ou de AVC em parentes de primeiro grau, em idade abaixo dos 60 anos, a mulher tem maior chance de problemas tipo angina ou infarto.

O acompanhamento cardiológico deve se iniciar precocemente. “Quando falamos de acompanhamento, a consulta e exames simples conseguem afastar o risco de problemas”, diz. Na prática, o desconhecimento geral sobre os sinais do infarto na mulher resulta em falha no socorro, o que pode ser fatal para muitas.

O tempo é fundamental para a preservação da vida. Em situação de infarto, deve-se logo chamar o SAMU ou seguir diretamente para o hospital. Na emergência será realizado o monitoramento cardíaco e um eletrocardiograma para verificar se há alguma alteração no coração.

Caso seja confirmado, serão tomadas as devidas providências, de acordo com o caso. Entre os principais procedimentos, estão a medicação, cirurgia (como a angioplastia com stent para desobstruir a artéria) e internação.

Tádzio França/Repórter

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