domingo, 17 de agosto de 2025

A santa que caiu do Céu

Em 1897, durante a procissão de 15 de agosto, aconteceu em Acari um dos episódios mais curiosos da história do turismo religioso brasileiro. Joaquim, um devoto que havia feito uma promessa, queria a todo custo carregar o andor de Nossa Senhora da Guia. Atrasado, correu atrás da procissão e, numa manobra desesperada, tomou o andor praticamente das mãos de outro carregador. O resultado foi previsível: a imagem da santa desabou.

Mas não caiu no chão pedregoso que fatalmente a teria despedaçado. Caiu sobre Pacífico Leopoldinho Dantas, que se tornou instantaneamente o “salvador” da padroeira. “As pessoas da época consideraram ele como Salvador, porque a santa caiu por cima dele e não caiu no chão”, conta o historiador Cícero Araújo, que descobriu o episódio em jornais da República enquanto pesquisava para seu livro sobre a história política de Acari no século XIX.

Em 2021, a Igreja de Nossa Senhora da Guia recebeu do Papa Francisco o título de Basílica Menor | Cedida/Historiador Adriano Campelo

A história de Pacífico Leopoldinho – cujo nome parece ter sido escolhido pelo próprio destino para amortecer quedas – resume bem o espírito da Festa de Nossa Senhora da Guia: uma celebração onde o sagrado e o humano se misturam de forma tão natural que até os acidentes viram milagres.

A promessa de uma Mãe

Diferentemente de outras devoções que nasceram de aparições ou milagres espetaculares, a de Nossa Senhora da Guia em Acari começou com uma negociação doméstica. Manuel Esteves de Andrade, cobrador de dízimos que chegou ao sertão em 1733, queria que a mãe viesse morar com ele nos confins do Seridó. Ela, devota fervorosa da santa, impôs uma condição: só se mudaria se ele construísse uma capela dedicada a Nossa Senhora da Guia.

Pessoas na frente de um prédio

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.Foto: Cedida/Historiador Cícero Araújo

“Era santo de devoção da mãe dele”, explica Cícero Araújo. “E ela disse que só iria morar nos sertões se ele construísse essa capela.” A barganha familiar funcionou. Em setembro de 1737, Manuel doou o patrimônio necessário – terras no Cipó dos Pereiras e no Olho d’Água – para que as rendas geradas financiassem a construção. Em abril de 1738, a capela estava pronta.

A escolha da santa não foi casual. Nossa Senhora da Guia, invocação que tem origem na Igreja Ortodoxa como “Odigitria” (aquela que guia), era especialmente significativa para quem enfrentava as incertezas do semiárido. De Piancó, a sede religiosa mais próxima, eram 38 dias de viagem a cavalo. “É muito difícil você viajar para assistir missa, 38 dias de cavalo”, observa o historiador.

O templo que custou 100 quilos de ouro

A capela primitiva serviu por mais de um século, mas em meados do século XIX, Acari já não cabia nela. O crescimento populacional pós-1850 exigia algo maior. Em 1853, o juiz João Valentino Dantas Pinagé alertou que o governo provincial faria uma correção pública para recolher os bens das irmandades. Era a deixa que o Padre Tomás de Araújo Pereira esperava.

“O padre junta os fazendeiros mais abastados da cidade para ter as doações iniciais”, conta Cícero. As famílias Galvão, Araújo, Pereira – toda a elite local contribuiu. Mas não bastou. “Foi uma obra monumental”, que precisou de ajuda do governo provincial e até do Império. “Ele pediu ajuda ao governo imperial para poder concluir essa obra de tal magnitude.”

Foto: Cedida/Historiador Cícero AraújoFoto preta e branca de um edifício

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Foto: Cedida/Historiador Cícero Araújo

No sábado, 15 de agosto de 1857, foi colocada a pedra fundamental. Seis anos depois, em 1863, a igreja estava pronta – não em 1867, como registram algumas fontes. “Em dezembro de 1862, no Natal, já foi celebrada a primeira missa”, esclarece o historiador. O que aconteceu em 1867 foi a transferência solene da imagem de Nossa Senhora da Guia da capela primitiva para o novo templo.

E que transferência foi essa. “Muitas fontes primárias falam da magnitude daquela festa da padroeira de 1867: 8.000 pessoas estiveram em Acari por esse evento.” Para uma povoação rural do século XIX, era uma multidão impressionante – quase o equivalente à população atual da cidade.

A festa que não mudou

O que mais impressiona na Festa de Nossa Senhora da Guia é sua capacidade de crescer sem perder a essência. “A celebração, alguns documentos históricos consultados recentemente deixam o indício que quando essa capela foi erguida lá no século XVIII, em 1738, de uma maneira bem tímida, essa festa começou a ser celebrada”, explica Cícero.

Dois marcos definiram sua evolução: a criação da freguesia em 1835, quando “a festa vai crescendo em número e importância”, e a inauguração da nova igreja em 1863, que consolidou Acari como centro de peregrinação regional.

Foto preta e branca de pessoas na frente de um prédio

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Foto: Cedida/Historiador Cícero AraújoFoto preta e branca de pessoas na rua com neve

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Foto: Cedida/Historiador Cícero AraújoFoto em preto e branco de pessoas na frente de um cavalo

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Foto: Cedida/Historiador Cícero Araújo

Mas o que torna a festa única não é apenas sua antiguidade. “Acari não tem outro evento de grande porte”, observa o historiador. “Caicó tem outro evento de grande porte, que é o Carnaval. Então Acari ficou com esse evento de grande porte.” É uma festa concentrada, sem concorrência, que canaliza toda a energia cultural da cidade para um único momento do ano.

Há também o aspecto “muito provinciano, muito colonial” que Acari preservou. “As pessoas, a hospitalidade, as pessoas sentadas na calçada, Acari ainda é um lugar muito seguro”, descreve Cícero. “É um lugar que você respira uma atmosfera bem colonial por conta da nossa arquitetura.”

O respeito que faz a diferença

A diferença se nota nos detalhes. Cícero conta uma conversa com Ismael Medeiros, jornalista de Currais Novos: “Ele falava sobre o respeito que se tem à festa aqui. Que em Currais Novos aconteceu em um determinado momento que a missa estava terminando e a banda já começou a tocar. Em Acari não acontece. Não é possível, não se respeita.”

É esse respeito às tradições que permite à festa manter sua autenticidade mesmo crescendo exponentially. Hoje, segundo estimativas recentes, cerca de 10.000 pessoas participam apenas da procissão principal – número próximo aos 8.000 de 1867.” A população de Acari é em torno de 11.000 pessoas. Ela duplica durante essa festa de agosto”, calcula o historiador.

O impacto econômico é proporcional. “Se você quiser vir passar a Festa da Padroeira aqui, você tem que procurar 90 dias antes no cenário das pousadas e hotéis. Quando faltam dois meses para a festa, se você for procurar, você já não encontra.”

A Basílica que coroou a história

Em 2021, a Igreja de Nossa Senhora da Guia recebeu do Papa Francisco o título de Basílica Menor – a primeira do Rio Grande do Norte. Cícero participou do processo como historiador, fornecendo a documentação que comprovava “o valor histórico, o valor religioso, o valor arquitetônico, cultural, material e imaterial da basílica”.

Cidade vista do alto de uma casa

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.Cedida/Historiador Adriano Campelo

O reconhecimento papal não foi casual. “Ela se relaciona diretamente com a sociedade acariense do ponto de vista histórico, porque faz uma conexão direta com aqueles que lá em 1857 começaram a pensar essa igreja”, explica. “As pessoas vivas de hoje são pessoas que descendem dessas pessoas que viveram no século XIX.”

A basílica representa a coroação de um processo histórico que começou com a promessa de uma mãe a seu filho. “Tem um templo que domina ainda a paisagem urbana, foi construído no alto do plano, com a fachada frontal virada para o nascente, e ainda domina a paisagem urbana”, descreve Cícero. “A gente consegue fazer essa relação lá do século XIX com agora.”

O mundo que mudou, a festa que permaneceu

Cícero observa que “o mundo sagrado e o profano começaram a misturar-se” ao longo do tempo. Já em 1860, na maior festa de agosto da história até então, havia “mais de 60 mesas de jogos” nas ruas, com pessoas se divertindo entre as celebrações religiosas. “Era a diversão mundana da época: as pessoas jogando ou em algumas casas tocando os instrumentos da época.”

A diferença é que hoje essa mistura é mais evidente. “O pavilhão cultural, essas coisas são criações já do século XX”, explica. O mundo se secularizou, “outras religiões surgiram, os primeiros evangélicos já aparecem, o relógio da igreja já não é mais o único marcador do tempo”.

Mas a festa resistiu às transformações mantendo sua identidade. Continua atraindo “visitantes de várias regiões do Nordeste, do país, e você encontra até estrangeiro por aqui dizendo que veio conhecer a festa”.

A História que Continua

Para Cícero, ainda há muito a pesquisar sobre Acari. “As genealogias mestiças, as pessoas que chegaram aqui como escravizados, as pessoas que tinham ascendência indígena, que sobreviveram à guerra dos bárbaros”, enumera. “E também a história das mulheres.”

É uma história viva, que se escreve a cada agosto. Quando os fogos explodem às 4h30 da manhã e os sinos da Basílica Menor ecoam pelas ruas coloniais, não é apenas Acari que desperta. É toda uma tradição que se renova, toda uma identidade que se fortalece.

E se algum Joaquim apressado voltar a derrubar a santa do andor, certamente haverá outro Pacífico Leopoldino para amparar a queda. Porque em Acari, até os acidentes fazem parte da tradição.

Tribuna do Norte


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