Mas não caiu no chão pedregoso
que fatalmente a teria despedaçado. Caiu sobre Pacífico Leopoldinho Dantas, que
se tornou instantaneamente o “salvador” da padroeira. “As pessoas da época
consideraram ele como Salvador, porque a santa caiu por cima dele e não caiu no
chão”, conta o historiador Cícero Araújo, que descobriu o episódio em jornais
da República enquanto pesquisava para seu livro sobre a história política de
Acari no século XIX.
Em 2021, a Igreja de Nossa Senhora
da Guia recebeu do Papa Francisco o título de Basílica Menor |
Cedida/Historiador Adriano Campelo
A história de Pacífico
Leopoldinho – cujo nome parece ter sido escolhido pelo próprio destino para
amortecer quedas – resume bem o espírito da Festa de Nossa Senhora da Guia: uma
celebração onde o sagrado e o humano se misturam de forma tão natural que até
os acidentes viram milagres.
A promessa de uma Mãe
Diferentemente de outras
devoções que nasceram de aparições ou milagres espetaculares, a de Nossa
Senhora da Guia em Acari começou com uma negociação doméstica. Manuel Esteves
de Andrade, cobrador de dízimos que chegou ao sertão em 1733, queria que a mãe
viesse morar com ele nos confins do Seridó. Ela, devota fervorosa da santa,
impôs uma condição: só se mudaria se ele construísse uma capela dedicada a
Nossa Senhora da Guia.
Foto: Cedida/Historiador Cícero
Araújo
“Era santo de devoção da mãe
dele”, explica Cícero Araújo. “E ela disse que só iria morar nos sertões se ele
construísse essa capela.” A barganha familiar funcionou. Em setembro de 1737,
Manuel doou o patrimônio necessário – terras no Cipó dos Pereiras e no Olho
d’Água – para que as rendas geradas financiassem a construção. Em abril de
1738, a capela estava pronta.
A escolha da santa não foi
casual. Nossa Senhora da Guia, invocação que tem origem na Igreja Ortodoxa como
“Odigitria” (aquela que guia), era especialmente significativa para quem
enfrentava as incertezas do semiárido. De Piancó, a sede religiosa mais próxima,
eram 38 dias de viagem a cavalo. “É muito difícil você viajar para assistir
missa, 38 dias de cavalo”, observa o historiador.
O templo que custou 100 quilos
de ouro
A capela primitiva serviu por
mais de um século, mas em meados do século XIX, Acari já não cabia nela. O
crescimento populacional pós-1850 exigia algo maior. Em 1853, o juiz João
Valentino Dantas Pinagé alertou que o governo provincial faria uma correção
pública para recolher os bens das irmandades. Era a deixa que o Padre Tomás de
Araújo Pereira esperava.
“O padre junta os fazendeiros
mais abastados da cidade para ter as doações iniciais”, conta Cícero. As
famílias Galvão, Araújo, Pereira – toda a elite local contribuiu. Mas não
bastou. “Foi uma obra monumental”, que precisou de ajuda do governo provincial
e até do Império. “Ele pediu ajuda ao governo imperial para poder concluir essa
obra de tal magnitude.”
Foto: Cedida/Historiador Cícero
Araújo
Foto: Cedida/Historiador Cícero
Araújo
No sábado, 15 de agosto de
1857, foi colocada a pedra fundamental. Seis anos depois, em 1863, a igreja
estava pronta – não em 1867, como registram algumas fontes. “Em dezembro de
1862, no Natal, já foi celebrada a primeira missa”, esclarece o historiador. O
que aconteceu em 1867 foi a transferência solene da imagem de Nossa Senhora da
Guia da capela primitiva para o novo templo.
E que transferência foi essa.
“Muitas fontes primárias falam da magnitude daquela festa da padroeira de 1867:
8.000 pessoas estiveram em Acari por esse evento.” Para uma povoação rural do
século XIX, era uma multidão impressionante – quase o equivalente à população
atual da cidade.
A festa que não mudou
O que mais impressiona na
Festa de Nossa Senhora da Guia é sua capacidade de crescer sem perder a
essência. “A celebração, alguns documentos históricos consultados recentemente
deixam o indício que quando essa capela foi erguida lá no século XVIII, em 1738,
de uma maneira bem tímida, essa festa começou a ser celebrada”, explica Cícero.
Dois marcos definiram sua
evolução: a criação da freguesia em 1835, quando “a festa vai crescendo em
número e importância”, e a inauguração da nova igreja em 1863, que consolidou
Acari como centro de peregrinação regional.
Foto: Cedida/Historiador Cícero
Araújo
Foto: Cedida/Historiador Cícero
Araújo
Foto: Cedida/Historiador Cícero
Araújo
Mas o que torna a festa única
não é apenas sua antiguidade. “Acari não tem outro evento de grande porte”,
observa o historiador. “Caicó tem outro evento de grande porte, que é o
Carnaval. Então Acari ficou com esse evento de grande porte.” É uma festa concentrada,
sem concorrência, que canaliza toda a energia cultural da cidade para um único
momento do ano.
Há também o aspecto “muito
provinciano, muito colonial” que Acari preservou. “As pessoas, a hospitalidade,
as pessoas sentadas na calçada, Acari ainda é um lugar muito seguro”, descreve
Cícero. “É um lugar que você respira uma atmosfera bem colonial por conta da
nossa arquitetura.”
O respeito que faz a diferença
A diferença se nota nos
detalhes. Cícero conta uma conversa com Ismael Medeiros, jornalista de Currais
Novos: “Ele falava sobre o respeito que se tem à festa aqui. Que em Currais
Novos aconteceu em um determinado momento que a missa estava terminando e a
banda já começou a tocar. Em Acari não acontece. Não é possível, não se
respeita.”
É esse respeito às tradições
que permite à festa manter sua autenticidade mesmo crescendo exponentially.
Hoje, segundo estimativas recentes, cerca de 10.000 pessoas participam apenas
da procissão principal – número próximo aos 8.000 de 1867.” A população de
Acari é em torno de 11.000 pessoas. Ela duplica durante essa festa de agosto”,
calcula o historiador.
O impacto econômico é
proporcional. “Se você quiser vir passar a Festa da Padroeira aqui, você tem
que procurar 90 dias antes no cenário das pousadas e hotéis. Quando faltam dois
meses para a festa, se você for procurar, você já não encontra.”
A Basílica que coroou a
história
Em 2021, a Igreja de Nossa
Senhora da Guia recebeu do Papa Francisco o título de Basílica Menor – a
primeira do Rio Grande do Norte. Cícero participou do processo como
historiador, fornecendo a documentação que comprovava “o valor histórico, o
valor religioso, o valor arquitetônico, cultural, material e imaterial da
basílica”.
Cedida/Historiador Adriano Campelo
O reconhecimento papal não foi
casual. “Ela se relaciona diretamente com a sociedade acariense do ponto de
vista histórico, porque faz uma conexão direta com aqueles que lá em 1857
começaram a pensar essa igreja”, explica. “As pessoas vivas de hoje são pessoas
que descendem dessas pessoas que viveram no século XIX.”
A basílica representa a
coroação de um processo histórico que começou com a promessa de uma mãe a seu
filho. “Tem um templo que domina ainda a paisagem urbana, foi construído no
alto do plano, com a fachada frontal virada para o nascente, e ainda domina a
paisagem urbana”, descreve Cícero. “A gente consegue fazer essa relação lá do
século XIX com agora.”
O mundo que mudou, a festa que
permaneceu
Cícero observa que “o mundo
sagrado e o profano começaram a misturar-se” ao longo do tempo. Já em 1860, na
maior festa de agosto da história até então, havia “mais de 60 mesas de jogos”
nas ruas, com pessoas se divertindo entre as celebrações religiosas. “Era a
diversão mundana da época: as pessoas jogando ou em algumas casas tocando os
instrumentos da época.”
A diferença é que hoje essa
mistura é mais evidente. “O pavilhão cultural, essas coisas são criações já do
século XX”, explica. O mundo se secularizou, “outras religiões surgiram, os
primeiros evangélicos já aparecem, o relógio da igreja já não é mais o único
marcador do tempo”.
Mas a festa resistiu às
transformações mantendo sua identidade. Continua atraindo “visitantes de várias
regiões do Nordeste, do país, e você encontra até estrangeiro por aqui dizendo
que veio conhecer a festa”.
A História que Continua
Para Cícero, ainda há muito a
pesquisar sobre Acari. “As genealogias mestiças, as pessoas que chegaram aqui
como escravizados, as pessoas que tinham ascendência indígena, que sobreviveram
à guerra dos bárbaros”, enumera. “E também a história das mulheres.”
É uma história viva, que se
escreve a cada agosto. Quando os fogos explodem às 4h30 da manhã e os sinos da
Basílica Menor ecoam pelas ruas coloniais, não é apenas Acari que desperta. É
toda uma tradição que se renova, toda uma identidade que se fortalece.
E se algum Joaquim apressado
voltar a derrubar a santa do andor, certamente haverá outro Pacífico Leopoldino
para amparar a queda. Porque em Acari, até os acidentes fazem parte da
tradição.
Tribuna do Norte

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