O status das pedaladas como
ação neuroprotetora foi evidenciado em 2010, quando o neurologista holandês
Bastiaan R. Bloem publicou um relato científico no qual um paciente em estágio
avançado de Parkinson, que tinha sérias dificuldades para andar e sofria de
congelamento de marcha, conseguia pedalar uma bicicleta sem tremores,
instabilidade ou congelamento. A capacidade de pedalar, portanto, parece ser
mantida mesmo em estágios avançados da doença.
O pedalar pode atuar não
apenas como tratamento complementar, mas também como uma estratégia preventiva
para pessoas com predisposição ao Parkinson, segundo John Fontenelle Araújo,
professor do departamento de fisiologia e do programa de pós-graduação em
psicobiologia da UFRN. “Há evidências epistemológicas mostrando que nos países
em que a bicicleta é um dos principais meios de mobilidade urbana, a incidência
de Parkinson é menor”, diz.
Em Natal, Fontenelle faz parte
de uma ação de pesquisa conjunta entre o Laboratório de Neurobiologia Rítmica e
Biológica (LNRB) da UFRN, e o Instituto Santos Dumond (ISD), para compreender
os mecanismos que vão ajudar a criar, no futuro, orientações terapêuticas para
o uso da bicicleta, contribuindo para a melhora da qualidade de vida das
pessoas que sofrem da Doença de Parkinson, entre outras doenças
neurodegenerativas.
A relação entre o pedalar e
seus efeitos neuroprotetores, segundo o professor e pesquisador, acontece na
forma como o exercício de movimentos cíclicos melhora naturalmente as condições
de saúde dos praticantes. “Como todo exercício físico, o pedalar promove uma
melhora da função cardiorrespiratória e isto beneficia a condição geral do
paciente com doença neurodegenerativa”, completa.
Fontenelle explica que,
durante o exercício de pedalar, ocorre um processo de estimulação sensorial que
se origina nos membros superiores e promove uma atuação no sistema nervoso
central, especialmente no cérebro, promovendo novas conexões cerebrais – e desta
forma, uma neuroproteção natural. “E quando o ciclismo é realizado ao ar livre,
os pacientes acabam tendo maior interação social, e isto melhora a condição de
saúde de pessoas com doenças neurodegenerativas”, ressalta.
As estratégias terapêuticas
envolvendo as pedaladas devem ser baseadas nas mudanças que ocorrem na
atividade cerebral e na marcha após alguns minutos de exercício em uma
bicicleta estacionária. Além de reduzir os sintomas do Parkinson, pedalar
melhora a condição cardiorrespiratória e, para aqueles que podem se locomover
de bicicleta, aumenta a autonomia e a interação social.
O professor ressalta que os
exercícios de intensidade moderada já são suficientes para se obter os
benefícios neuroprotetores desejados, sem diferença das atividades de
intensidade alta. Mas em especial, no caso da bicicleta, há uma frequencia
ideal de frequencia: “No caso do pedalar, no mínimo três vezes por semanas
durante 30 minutos para cada sessão de exercício”, afirma.
Parkinson
As evidências que indicam o
uso regular da bicicleta como forma de retardar ou atenuar os sintomas iniciais
da Doença de Parkinson, conforme John Fontenelle, já existem e são vários.
Segundo ele, o pedalar reduz agudamente os sintomas motores, em especial o
tremor e a rigidez de marcha. “Pedalar também ajuda na melhoria da cognição dos
pacientes, em especial a tomada de decisão e a estimativa de tempo”, explica.
Há também a melhora do padrão emocional dos pacientes, e também do
condicionamento físico, beneficiando a função cardiorrespiratória.
As pesquisas também envolvem a
investigação da fraqueza muscular, que é comum no Parkinson e está associada à
instabilidade postural e ao aumento do risco de quedas. Estudos mostram que a
fraqueza e a lentidão dos movimentos nas pessoas com Parkinson estão ligadas à
fisiopatologia da doença, incluindo a redução do fluxo de sinais do cérebro
para os músculos.
A Doença de Parkinson é uma
condição multifatorial que afeta cerca de 10 milhões de pessoas em todo o
mundo. Ainda sem cura, o Parkinson compromete diversos sistemas do corpo,
causando sintomas motores (como tremores e rigidez), cognitivos, psiquiátricos
e distúrbios do sono. Um dos maiores desafios é o diagnóstico precoce.
Na maioria dos casos, os
sintomas só aparecem quando 50% dos neurônios que produzem dopamina já foram
destruídos. À medida que a doença avança, os problemas de marcha se tornam mais
evidentes, com passos curtos e arrastados, e o bloqueio súbito de movimentos –
o chamado “congelamento de marcha”.
O distúrbio de marcha é
bastante incapacitante e os tratamentos atuais, como medicamentos e a
Estimulação Cerebral Profunda, não são totalmente eficazes para essa condição.
Por isso é importante a realização de novas estratégias complementares para
melhorar a qualidade de vida do paciente e modificar a progressão da doença.
Segundo Fontenelle, o estímulo
ao uso da bicicleta – que também é um objeto de democratização das atividades
físicas – é importante porque melhora a qualidade de vida do paciente não só em
relação aos sintomas e sinais do Parkinson, mas de uma forma geral. “Ao
melhorar a qualidade de vida pelo ato de pedalar, estamos garantindo que este
tenha um prolongamento de vida com saúde”, conclui.
Tribuna do Norte

Nenhum comentário:
Postar um comentário