Esses profissionais avaliam se
o território pode ser definido como remanescente quilombola. Para os
descendentes, o lugar é a comunidade “Antinha dos Pretos”.
“A etapa do estudo
antropológico (atualmente em andamento) tem sido marcada por fortes ameaças
contra os servidores do Incra-DF e Entorno”, informou o órgão em documento
enviado à Agência Brasil.
O Incra não divulga os
nomes dos autores das ameaças e como procedem. Questionado, o órgão se limitou
a escrever que partiriam “de pessoas e grupos, inclusive políticos, que têm
interesses nessas terras”.
Para garantir a segurança dos
pesquisadores, o Incra informou que procurou apoio das “instituições do sistema
de justiça e forças de segurança para acompanhar o processo investigativo por
meio da Câmara Nacional de Conciliação Agrária”.
Questionada sobre a denúncia
do Incra, a Polícia Militar do Estado de Goiás informou que atua de forma
preventiva e ostensiva. “Em relação ao fato mencionado, não recebeu nenhuma
solicitação formal, mas se coloca à disposição de qualquer interessado”, afirmou.
A Secretaria de Segurança Pública não respondeu os questionamentos da
reportagem.
Para os pesquisadores, tudo
pode ser importante. Rastros, pistas, reminiscências, documentos, inscrições,
informações orais e até cruz de cemitério. O primeiro passo para o
reconhecimento como território quilombola foi dado por parte da comunidade ao
solicitar o autorreconhecimento pela Fundação Cultural Palmares.
Liderança comunitária em Santo
Antônio do Descoberto, a professora Railda Oliveira testemunha que a equipe do
Incra precisou de apoio da Polícia Federal para fazer o trabalho de coleta de
material. “As pessoas estavam realmente ameaçadas na comunidade de Antinha”.
Conflito judicial
O documento da Fundação
Palmares foi publicado no dia 1º de agosto. Dois dias antes, uma decisão
assinada pela juíza Ailime Virgínia Martins determinava a desocupação de 32
imóveis da comunidade.
A disputa judicial pela região
começou na década de 1940. O morador Francisco Apolinário Viana pediu que a
terra fosse regularizada no nome dele. Em 1985, mais três pessoas (Luiz
Soares de Araújo, Raul Alves de Andrade Coelho e Maria Paulina Boss) também
entraram na justiça. Lideranças da comunidade alegam que os documentos seriam
falsos. Maria Paulina era esposa de Emival Caiado. Com esse argumento, os
descendentes dessa família pediram a posse.
A comunidade reclamou que a
decisão não levou em conta o pedido de remeter o caso à Justiça Federal ao
ignorar o protocolo feito para a Fundação Palmares. No dia 5 de agosto, o
ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, havia decidido suspender a
ordem de desocupação. O caso passou a ser da alçada da Justiça Federal.
Só que pelo menos 10 casas
foram destruídas por homens em tratores a serviço de beneficiários da decisão.
Membros da comunidade apontaram que um fazendeiro chamado Murilo Caiado se
apresentou como proprietário da área e que teria dado ordens para tomar posse
dos imóveis. O empresário não foi localizado pela reportagem.
Outro beneficiário seria o
irmão dele, o desembargador Breno Caiado. A Agência Brasil também
não conseguiu contato com o magistrado.
Eles são primos do atual
governador de Goiás, Ronaldo Caiado. Por meio da assessoria de
comunicação, o governo afirma que Caiado não é parte do processo e que não
cabe comentário sobre decisão judicial.
O advogado Francisco Porfírio,
de 56 anos, que mora na região desde 2005 e é presidente da associação dos
moradores, disse que a derrubada foi traumática. “Resta entrar na Justiça para
ser indenizado”, afirmou enquanto levava móveis em uma caminhonete para a
casa de um familiar.
Quilombolas
A decisão do STF representou
alívio para o motorista Jair da Silva Moreira, de 58 anos, uma das lideranças
quilombolas do local. Ele é nascido e criado na mesma casa, construída há mais
de 60 anos, e que ficou por um triz de ser derrubada na primeira semana de
agosto. “Eu e minha família ficamos sem dormir. Não tem como ficar tranquilo.
Meu avô Saturnino (já falecido) também sempre recebeu ameaças por ser
quilombola e morar aqui”.
Tomar banho no Córrego da
Inês, apreciar a vista do Morro da Liduvina, correr por entre o canavial,
recostar-se à sombra da mangueira plantada pelo avô. Cada cantinho de Antinha
de Baixo tem significados especiais para a família dele - cerca de 400 pessoas.
“Todos ficamos
inconformados e, depois, um pouco mais aliviados. Mas ainda há pessoas armadas
andando pela nossa comunidade que é de nossos ancestrais”. Nas proximidades de
casa, está o cemitério em que os avós e bisavós estão enterrados.
O avô Saturnino, segundo o
neto, já tinha sido ameaçado por fazendeiros do local, segundo Jair. “Meu avô
já dizia que eles iriam criar uns documentos falsos para tomar nossa terra.
Isso foi em 1995”, recorda. Desta vez, em 2025, viu de novo pessoas circulando
armadas e tirando fotos das casas deles. “No dia em que iriam derrubar minha
casa, um homem ficou na porta de casa e o outro ficou lá dentro”, disse. Uma
marca de saudade é uma mangueira que ele viu o avô plantar há 50 anos.
O primo dele, o agricultor
Gilson Pereira, de 48 anos, diz que a roça de casa é a vida para eles. “Quem
tenta tirar a gente daqui, quer nos matar. Eu não sei fazer outra coisa sem ser
plantar para viver e vender na feira da cidade”.
Nos fundos da casa, estão as
plantações de milho, feijão, banana e cana. Outra especialidade da família é a
produção e venda da rapadura. “O doce é símbolo da nossa resistência também. É
nossa raiz. Temos tanta história dos nossos antepassados, e a gente viu que ía
perder tudo de um minuto para o outro”, afirma Gilson.
Quando se viu ameaçado, o
agricultor lembrou do pai Espiridião Pereira, falecido há mais de seis anos,
que o ensinou a plantar cana e a fazer a rapadura. Pensou também nos dois
filhos, um adulto, advogado, e uma criança. Outra produtora rural quilombola,
Geralda da Silva, de 56 anos, testemunha que todos na comunidade ainda estão
assustados. “Inclusive as crianças que não entendiam o que estava
ocorrendo. Elas choraram e agora estão mais tranquilas”.
Para outra produtora rural,
Maria Aparecida da Silva, de 58 anos, que diz sentir felicidade em se
identificar como quilombola, manter o chão onde nasceu significa manter a
história viva para os oito filhos. “A gente ouve falar que esses fazendeiros
podem estar interessados em nossa área por ser terra rara, rica em minérios.
Mas nossa família só quer plantar”.
Diante do córrego de Antinha,
em que os mais velhos se acostumaram a se refrescar, homens e mulheres da
região estavam emocionados. “Essas águas são limpas. A gente pode beber. Nossos
filhos e netos também viverão aqui. A gente ainda tem muito medo, mas agora
também alguma esperança”, diz Jair Moreira.
Agência Brasil

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