No percurso de 140 quilômetros
que separam Dubai e Abu Dhabi, durante o qual esta entrevista ao UOL foi
concedida, o ex-presidente da Petrobras Jean Paul Prates teve muito a dizer.
Quase um ano após ser demitido da estatal, afirmou não ver mais espaço para ele
no PT.
Além disso, acusou o ministro
de Minas e Energia, Alexandre Silveira, de tentar interferir na principal
petrolífera brasileira, embora negue que seja a mando do presidente Lula (PT).
O ex-senador também afirmou que o principal inimigo do governo é o próprio
governo, e que considera deixar a sigla antes das próximas eleições, em 2026.
'Silveira quer mostrar poder
sobre a Petrobras'
Prates foi demitido da chefia
da estatal em maio de 2024, após um longo processo de fritura. Quase seis meses
após o início da especulação sobre sua eventual saída, Prates caiu atirando. Em
uma carta de despedida a subordinados, ele atribuiu a demissão a Silveira e Rui
Costa (Casa Civil), que teriam se "regozijado" com sua demissão
precoce… - Veja mais em
https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/04/20/jean-paul-prates-petrobras-pt-entrevista.htm?cmpid=copiaecola
Quase um ano depois, Prates
repetiu as acusações, e disse que o ministro tenta interferir nas políticas da
Petrobras de maneira "descarada". O UOL questionou a Petrobras e o
Ministério de Minas e Energia sobre as afirmações. Caso haja resposta, o texto
será atualizado.
Lula é um líder mundial, neste
mandato. Ele não se ocupa tanto de questões menores, e o pessoal aproveita para
fazer as coisas por baixo. É assim em todo governo. Mas, neste, as pessoas
jogam contra o próprio governo em busca de poder, de interesses pessoais, como
faz Alexandre Silveira.
Silveira vaza informações, faz
críticas em público para mostrar que tem poder sobre a Petrobras. Lula nunca
tentou interferir na Petrobras; no máximo uma reclamação, um muxoxo. Mas ele
reconhece a governança. Agora, o que está acontecendo [com Alexandre Silveira]
é uma tentativa descarada de intervenção estatal.
Não pode haver intervenção alguma na Petrobras, é uma empresa com capital aberto e ações negociadas na Bolsa de Nova York. Às vezes, ele [Silveira] vazava para a imprensa que haveria alguma mudança de preço, e eu segurava por mais uma semana só para não parecer que estava cumprindo ordens.
Eu fui tão senador quanto ele [Silveira]. A Petrobras é vinculada ao Ministério de Minas e Energia, mas não é subordinada a ela, e ele não entende isso, ou faz que não entende.
Fogo amigo
Prates diz que o terceiro
mandato de Lula deveria ser "um governo de estrelas", mas que os
integrantes do governo têm medo de ganhar destaque e se tornarem alvos.
Todos se escondem com medo de
tomar martelada. Quem se destaca é logo alvo de tiro, e o primeiro atirador é o
Rui Costa, que tem a esperança de ser o sucessor de Lula. É por isso que ele
ataca tanto o [Fernando] Haddad [ministro da Fazenda]; não é por causa da
economia.
Acredito que, em um ano [até a
próxima eleição], o governo conseguirá melhorar os índices de aprovação, mas
tem que definir quais são as prioridades. Hoje, tudo fica centralizado na
figura de Lula, porque os ministros não aparecem por medo. É importante que o
governo pareça um time, não uma pessoa só. Isso transparece para a população.
Este era para ser um governo de estrelas.
O maior inimigo do governo é o
próprio maior inimigo do governo é o próprio governo. A oposição não atrapalha,
está ocupada com pautas da bolha deles, como a anistia
Teste de fidelidade
Para Prates, o governo deveria usar uma eventual votação sobre a anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro como um "teste de fidelidade". Nesta semana, o PL apresentou um requerimento de urgência para o projeto de lei que quer inocentar os envolvidos na tentativa de golpe de Estado: das 262 assinaturas de apoio, 56% (146) eram de deputados de partidos que compõem a base do governo Lula.
Os deputados da base arrumam
todo tipo de justificativa para não votar com o governo. 'Minha mulher não
deixa', 'Lá no meu estado é diferente'. Agora, nessa votação não tem desculpa:
é uma pauta completamente ideológica, os caras entraram lá e quebraram tudo,
não tem o que discutir.
Esta vai ser uma oportunidade para o governo fazer uma limpa. Se os deputados do União [Brasil] votarem a favor, corta logo de uma vez. Mas acho que eles não terão coragem.
'Não tem espaço no PT, e
ninguém quer discutir herança com pai vivo'
Prates disse ter vontade de
retornar ao Senado concorrendo pelo Rio Grande do Norte, mas que, atualmente,
não vê espaço para ele dentro do PT, partido ao qual está filiado há 12 anos.
Queria voltar a ser senador.
Acredito que deixei um legado de projetos que estão sendo discutidos até hoje.
Mas não sei se vou ter espaço. A candidata do partido ao Senado será Fátima
[Bezerra, atual governadora do Rio Grande do Norte], e acredito que é direito.
Tenho experiência no Senado e como gestor da Petrobras. A Petrobras é muito maior do que o Rio Grande do Norte, e ainda assim, fui preterido.
Depois da minha demissão, umas
quatro ou cinco pessoas não soltaram a minha mão. Mas os outros não me
apoiaram. Nem sequer me ligaram, como se eu tivesse feito alguma coisa errada,
em vez de ter sido [demitido] por uma questão política.
No PT, ninguém quer discutir a herança com o pai vivo, com medo de desagradar. Todo mundo tem esperança de ser o sucessor de Lula, ou, então, é uma questão de autopreservação, de não deixar ninguém se sobressair. Agora, Lula deveria anunciar logo se será o candidato na próxima eleição. A decisão final será dele, assim como deve ser sobre a exploração de petróleo na margem equatorial.
'Decisão de explorar ou não
petróleo na margem equatorial deveria ser de Lula'
Para Prates, a Petrobras está
"fazendo sua parte" ao insistir na exploração de um ponto na costa do
Amapá. O licenciamento ambiental de um bloco específico, próximo à foz do rio
Amazonas, se arrasta há anos e deve ter uma decisão ainda neste mês, já que o
aluguel da sonda perfuradora vence no segundo semestre.
Há três possíveis saídas: a permissão, em que o governo dirá que há interesse do Estado brasileiro em saber se existe petróleo naquela área; a recusa daquele ponto específico; o que significa que vai ser sempre essa luta para cada um dos locais do bloco. Ou a apresentação de estudos para tornar aquela uma área de exclusão total [de exploração de petróleo].
Essa discussão sobre um poço
específico, que era técnica, se tornou política diante da aproximação da COP
[30, que acontece em Belém em novembro deste ano], e do compromisso com a
transição energética, de maneira que agora é necessária uma posição do Estado
brasileiro, e, portanto, de Lula como porta-voz desse Estado. Só ele pode
resolver esse debate.
ão acredito que Lula, de fato, ache que o Ibama está de lenga-lenga. Isso deve ter sido alguém que soprou no ouvido dele. Ele está cercado por oportunistas. A luta histórica dele [Lula] é ao lado dos servidores públicos, mas alguém deve ter soprado no ouvido e feito a cabeça dele. Como foi comigo.
Conteúdo Uol

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