Pouco mais de um ano depois de
uma tentativa de golpe, afinal, o filme de Walter Salles foi coroado como Melhor Filme
Internacional no Oscar ao expor mundialmente os horrores de uma
ditadura encerrada há quatro décadas. A nova trama golpista a ser julgada
no STF até o
fim de 2025 tem como protagonista absoluto Jair Bolsonaro, notório admirador da
ditadura e de torturadores que já atacou nominalmente Rubens Paiva. Em um país que não puniu próceres das casas
de tortura, os elogios de Bolsonaro a nomes como Carlos Alberto Brilhante Ustra
nunca lhe renderam maiores problemas na Justiça. As articulações nos palácios
para romper a democracia, contudo, dificilmente não o levarão a uma condenação
no Supremo.
Ainda no STF, é inegável que o
filme e sua enorme notoriedade também contribuíram para que a Corte reabrisse
as discussões sobre o assassinato do ex-deputado após ser retirado por
militares da casa da família no Rio de Janeiro. O Supremo vai analisar concretamente
os casos dos militares que tiveram participação nos desaparecimentos de Rubens
Paiva e outros dois opositores da ditadura. O caso, no entanto, terá
repercussão geral sobre a aplicação da Lei da Anistia a casos de graves
violações aos direitos humanos pelo regime militar, como sequestro e cárcere
privado.
Igualmente simbólico é que um
orgulho nacional como “Ainda estou aqui”, reconhecido internacionalmente no
Globo e Ouro e, agora, no Oscar, venha de uma área tão atacada e abandonada
pelo amante da ditadura Bolsonaro. Durante seu governo, o Ministério da Cultura
deixou de ter esse status e passou a ser uma secretária especial vinculada ao
discretíssimo Ministério do Turismo.
Entre os seis nomes que
ocuparam o esvaziado cargo, estiveram o ator e deputado Mário Frias, outro
detrator de “Ainda estou aqui”, e Roberto Alvim, que achou de bom tom gravar um
vídeo imitando o nazista Joseph Goebbels para exaltar a cultura nacional, imaginando
que ninguém perceberia sua inspiração.
No plano internacional, “Ainda
estou aqui” também é alerta a espectadores de outros países. Palco do glamuroso
prêmio que coroou a produção brasileira, os Estados Unidos são um dos primeiros
da fila nesse sentido. No país, afinal, o extremismo de Donald Trump e de
figuras como Elon Musk tem se traduzido em medidas que, para especialistas de
diversas posições políticas, configuram golpes quase que diários.
Se o Brasil é tão complicado que precisa de um filme de ficção para se dar conta da própria realidade, como diz o ex-preso político Adriano Diogo, ex-presidente da Comissão da Verdade da Assembleia Legislativa de São Paulo, a vitória de “Ainda estou aqui” é a apoteose do diálogo entre o passado retratado na tela e o presente de quem aplaudiu o filme nas salas de cinema e premiações internacionais.
MSN

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