"No entanto, isso só será
possível caso os produtores sigam alguns princípios básicos”, diz o
premiado cientista paquistanês.
Para ele, o que importa não é
a quantidade de terra utilizada para a produção, mas a qualidade técnica
adotada para o cultivo.
Em visita a Brasília, onde
participa de um evento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
sobre cooperações no setor agrícola entre Brasil e África, Rattan
Lal disse à Agência Brasil, que natureza, agricultura e produtores não
estão necessariamente em campos opostos.
“Podem e devem trabalhar
juntos, um em favor do outro. Até porque a atividade agrícola também retira
carbono da atmosfera”, argumentou o pesquisador que está no Brasil a convite
do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA).
Cinco princípios
Segundo o pesquisador, a
garantia de uma produção suficiente de alimentos não está relacionada ao
tamanho, mas à forma como a terra é usada. Para que isso seja possível, é
necessário que os produtores tenham, em mente, cinco princípios básicos.
“O primeiro é o de não arar
terra. Isso é péssimo. Esta é uma técnica antiga, que prejudica muito a
qualidade do solo”, explicou. O segundo princípio citado por Lal é deixar a
cobertura vegetal protegendo a terra, após a colheita. “Isso garante a proteção
do solo.”
Em terceiro lugar está a
gestão integrada de nutrientes para o solo. “Fertilização química só se
faz quando ela é realmente necessária”. O quarto princípio a ser seguido pelos
produtores é a rotação de culturas.
Por fim, em quinto lugar,
está a integração, em um mesmo ambiente, entre lavoura, pecuária e florestas,
complementou Lal, que considera “fundamental” a preservação de florestas como a
Amazônica e a do Congo, no centro do continente africano, para garantir a
retirada de carbono da atmosfera.
“Para que essas florestas
sejam mantidas, é também importante remunerar as populações locais, para manter
as árvores em pé”, acrescentou o cientista, ao defender políticas que estimulem
a produção sustentável nessas regiões.
África
Sobre as parcerias entre
Brasil e África – construídas com o objetivo de, com a expertise brasileira,
melhorar a produção de alimentos nos países daquele continente –, Lal diz que
serão positivas para ambas as partes.
Para os países africanos, a
parceria representa acesso a conhecimentos que ajudarão no combate à fome. Para
o Brasil, representa, além de empregos, a ampliação do conhecimento.
“O Brasil tem muito a aprender
por lá para, depois, aplicar aqui, uma vez que Savana e Cerrado têm muitas
similaridades. São solos considerados impuros, mas que podem ser trabalhados
para a produção”, complementou.
Metade é suficiente
Rattan Lal lembra que há, no
planeta, cerca de 8,2 bilhões de pessoas, e que, em 25 anos, esse número
chegará a cerca de 10 bilhões. “Agricultura, nesse contexto, não é problema,
mas solução porque todos precisam de alimentos”, argumentou.
Segundo o pesquisador, a área
total utilizada para agricultura é de 5,2 bilhões de hectares, sendo 1,5 bilhão
usado para a produção de alimentos e 3,7 bilhões de hectares, para a pecuária.
“Com a adoção de tecnologias
já conhecidas, precisamos apenas da metade disso para garantir produção de
grãos suficiente para alimentar toda a população do planeta”, acrescentou o
cientista paquistanês, ao informar que cerca de 35% de todo alimento produzido
acaba sendo jogado fora.
Produção urbana
Segundo Rattan Lal, há, nas
grandes cidades, uma tendência cada vez maior da chamada agricultura urbana,
que pode resultar em uma produção de alimentos saudáveis sem uso de terra, por
meio de técnicas como as hidropônicas e as aeropônicas, que são feitas por meio
da aplicação de nutrientes via água ou névoa.
Ele ressalta que 1 milhão de
pessoas em cidades consomem 6 mil toneladas de comida por dia.
“Imagine uma cidade de
15 milhões de habitantes. Com a agricultura urbana há potencial para
atender 20% da demanda por comidas frescas, como legumes, vegetais e
ervas. São comidas saudáveis. E alimento saudável, todos sabemos, é medicina”,
argumentou.
Paz e solo
Rattan Lal é, atualmente,
professor emérito da Universidade de Ohio, nos Estados Unidos. Ele conquistou,
além do Nobel da Paz com a equipe do ex-vice-presidente americano Al Gore,
prêmios como o World Food Prize e o Arrell Global Food Innovation Award, em
2020, e o Japan Prize, em 2019.
Perguntado sobre o que, em sua
área de atuação, possibilitou agregar a essa lista de premiações o Nobel da
Paz, Rattan Lal é sucinto: “há uma relação direta entre paz e uso do
solo, em especial para a produção de alimentos. Sem terra, povos e pessoas
brigam. É, portanto, um assunto político, além de científico”.
Agência Brasil

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