sábado, 8 de março de 2025

Câncer de pâncreas: conheça os sinais e evite os riscos

O músico e escritor Tony Bellotto, guitarrista da banda Titãs, surpreendeu os fãs ao anunciar, no último dia 03 de março (segunda), a descoberta de um tumor no pâncreas durante exame de rotina. Ele passará por cirurgia e logo após fará os tratamentos necessários. No Brasil, o câncer de pâncreas ocupa a 14ª posição entre os tipos mais frequentes, sendo responsável por cerca de 5% do total de mortes causadas pela doença, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA). Esse índice de mortalidade se dá basicamente pelo diagnóstico tardio – apesar do câncer pancreático corresponder a apenas 2% dos tipos diagnosticados.

Segundo a oncologista Recidia Fernandes, é preciso esclarecer que quando se fala em câncer de pâncreas, no geral, refere-se ao adenocarcinoma de pâncreas, que é o tipo mais comum, correspondendo a 90% dos casos diagnosticados. Existem outros tipos, como os tumores neuroendócrinos, que apresentam diferentes abordagens de tratamento e melhor sobrevida.

O câncer de pâncreas pode ser influenciado por fatores genéticos e ambientais, explica a médica. Entre os principais fatores de risco estão o tabagismo, obesidade, diabetes mellitus tipo 2, pancreatite crônica e exposição a substâncias químicas carcinogênicas. “O consumo excessivo de álcool também pode contribuir indiretamente para a doença, ao predispor à pancreatite crônica”, ressalta.

Já a predisposição genética ocorre em aproximadamente 10% dos casos, segundo Recidia, sendo associada à história familiar de câncer ou a mutações, presentes em algumas síndromes genéticas que podem predispor também ao desenvolvimento de outros cânceres – como câncer de mama hereditário, pancreatite familiar, e o câncer colorretal hereditário sem polipose.

A doença é rara antes dos 30 anos, sendo mais comum a partir dos 60. Segundo a União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), os casos de câncer de pâncreas aumentam com o avanço da idade: de 10/100.000 habitantes entre 40 e 50 anos para 116/100.000 habitantes entre 80 e 85 anos.

Sinais de alerta

O câncer de pâncreas é frequentemente assintomático nas fases iniciais, sendo diagnosticado em estágios avançados devido à sua progressão silenciosa. A oncologista cita entre os principais sinais de alerta a pele e os olhos amarelados (icterícia); perda de peso sem explicação; fadiga intensa; dor abdominal persistente e irradiada para as costas; náuseas, vômitos e sensação de plenitude gástrica recorrentes; e diarreia gordurosa (esteatorréia).

Mulher com vestido branco

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O consumo excessivo de álcool também pode contribuir indiretamente
para a doença, ao predispor à pancreatite crônica”, diz a oncologista

A dificuldade de diagnosticar precocemente o câncer de pâncreas também é um obstáculo para o tratamento. A variedade de sinais e sintomas já citados não são específicos do câncer de pâncreas, e esse é um dos fatores que colabora para o diagnóstico tardio da doença.

Recidia Fernandes explica que, atualmente, não existem diretrizes estabelecidas para rastreamento do câncer de pâncreas, em virtude da sua incidência e difícil detecção em estágios iniciais. “No entanto, em grupos de alto risco (história familiar importante ou mutações genéticas predisponentes), recomenda-se ressonância magnética com colangiorressonância ou ultrassonografia endoscópica periódica”, explica.

Embora não haja uma forma garantida de prevenir o câncer de pâncreas, algumas medidas podem reduzir o risco de desenvolvimento da doença, afirma a médica. Entre elas está cessar o tabagismo, pois o cigarro é um dos principais fatores de risco modificáveis; evitar a obesidade, uma vez que está associada ao aumento da inflamação crônica; evitar o consumo excessivo de álcool, que está associado à pancreatit crônica.

Hábitos saudáveis preventivos incluem ainda a adoção de alimentação rica em fibras, frutas, vegetais e gorduras saudáveis, o que reduz a inflamação sistêmica e o estresse oxidativo; praticar atividade física regularmente, e monitorar e tratar precocemente o diabetes mellitus e doenças pancreáticas crônicas.

A alta letalidade do câncer pancreático se deve a diversos fatores. Entre eles, o diagnóstico tardio, já que mais de 80% dos casos são detectados em estágios avançados ou metastáticos; a localização anatômica desafiadora da doença, que dificulta a ressecção cirúrgica completa; a alta capacidade de invasão e desenvolvimento de metástases, e a resposta limitada à quimioterapia.

Tratamento

O tratamento depende do tipo de tumor, avaliação clínica do paciente, e dos exames laboratoriais. “Em estágios iniciais, a cirurgia é essencial como opção curativa. A quimioterapia pode ser indicada como abordagem pré-operatória (neoadjuvante), pós-operatória (adjuvante) ou paliativa, nos casos em que a cirurgia não é indicada”, explica a oncologista.

“A quimioterapia possibilita ganho de sobrevida e melhora da qualidade de vida nos pacientes. Nos últimos anos surgiram esquemas de tratamento que melhoraram um pouco a sobrevida da doença, porém os ganhos foram pequenos”, esclarece a médica. A cirurgia é possível em uma minoria dos casos, pelo fato de, na maioria das vezes, o diagnóstico ser feito em fase avançada da doença.

Nos casos em que a cirurgia não seja apropriada, a radioterapia e a quimioterapia são as formas de tratamento, associadas a todo o suporte necessário para minimizar os transtornos gerados pela doença. Recidia Fernandes explica que novas abordagens de tratamento incluem terapias-alvo, como inibidores de PARP (proteínas que bloqueiam o crescimento celular), para pacientes com mutações em BRCA, e imunoterapia em tumores com instabilidade de microssatélites alta (MSI-H), embora esses casos sejam raros.

Segundo a oncologista, pesquisas recentes têm focado no desenvolvimento de imunoterapia combinada a novos biomarcadores para diagnóstico precoce e terapias-alvo mais eficazes. “Esperamos que isso venha a melhorar o prognóstico”, conclui.

Tribuna do Norte

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