Segundo a oncologista Recidia
Fernandes, é preciso esclarecer que quando se fala em câncer de pâncreas, no
geral, refere-se ao adenocarcinoma de pâncreas, que é o tipo mais comum,
correspondendo a 90% dos casos diagnosticados. Existem outros tipos, como os
tumores neuroendócrinos, que apresentam diferentes abordagens de tratamento e
melhor sobrevida.
O câncer de pâncreas pode ser influenciado por fatores genéticos e ambientais,
explica a médica. Entre os principais fatores de risco estão o tabagismo,
obesidade, diabetes mellitus tipo 2, pancreatite crônica e exposição a
substâncias químicas carcinogênicas. “O consumo excessivo de álcool também pode
contribuir indiretamente para a doença, ao predispor à pancreatite crônica”,
ressalta.
Já a predisposição genética ocorre em aproximadamente 10% dos casos, segundo
Recidia, sendo associada à história familiar de câncer ou a mutações, presentes
em algumas síndromes genéticas que podem predispor também ao desenvolvimento de
outros cânceres – como câncer de mama hereditário, pancreatite familiar, e o
câncer colorretal hereditário sem polipose.
A doença é rara antes dos 30 anos, sendo mais comum a partir dos 60. Segundo a
União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), os casos de câncer de
pâncreas aumentam com o avanço da idade: de 10/100.000 habitantes entre 40 e 50
anos para 116/100.000 habitantes entre 80 e 85 anos.
Sinais de alerta
O câncer de pâncreas é frequentemente assintomático nas fases iniciais, sendo diagnosticado em estágios avançados devido à sua progressão silenciosa. A oncologista cita entre os principais sinais de alerta a pele e os olhos amarelados (icterícia); perda de peso sem explicação; fadiga intensa; dor abdominal persistente e irradiada para as costas; náuseas, vômitos e sensação de plenitude gástrica recorrentes; e diarreia gordurosa (esteatorréia).
O consumo excessivo de álcool
também pode contribuir indiretamente
para a doença, ao predispor à pancreatite crônica”, diz a oncologista
A dificuldade de diagnosticar precocemente o câncer de pâncreas também é um
obstáculo para o tratamento. A variedade de sinais e sintomas já citados não
são específicos do câncer de pâncreas, e esse é um dos fatores que colabora
para o diagnóstico tardio da doença.
Recidia Fernandes explica que, atualmente, não existem diretrizes estabelecidas
para rastreamento do câncer de pâncreas, em virtude da sua incidência e difícil
detecção em estágios iniciais. “No entanto, em grupos de alto risco (história
familiar importante ou mutações genéticas predisponentes), recomenda-se
ressonância magnética com colangiorressonância ou ultrassonografia endoscópica
periódica”, explica.
Embora não haja uma forma garantida de prevenir o câncer de pâncreas, algumas
medidas podem reduzir o risco de desenvolvimento da doença, afirma a médica.
Entre elas está cessar o tabagismo, pois o cigarro é um dos principais fatores
de risco modificáveis; evitar a obesidade, uma vez que está associada ao
aumento da inflamação crônica; evitar o consumo excessivo de álcool, que está
associado à pancreatit crônica.
Hábitos saudáveis preventivos incluem ainda a adoção de alimentação rica em
fibras, frutas, vegetais e gorduras saudáveis, o que reduz a inflamação
sistêmica e o estresse oxidativo; praticar atividade física regularmente, e
monitorar e tratar precocemente o diabetes mellitus e doenças pancreáticas
crônicas.
A alta letalidade do câncer pancreático se deve a diversos fatores. Entre eles,
o diagnóstico tardio, já que mais de 80% dos casos são detectados em estágios
avançados ou metastáticos; a localização anatômica desafiadora da doença, que
dificulta a ressecção cirúrgica completa; a alta capacidade de invasão e
desenvolvimento de metástases, e a resposta limitada à quimioterapia.
Tratamento
O tratamento depende do tipo de tumor, avaliação clínica do paciente, e dos
exames laboratoriais. “Em estágios iniciais, a cirurgia é essencial como opção
curativa. A quimioterapia pode ser indicada como abordagem pré-operatória
(neoadjuvante), pós-operatória (adjuvante) ou paliativa, nos casos em que a
cirurgia não é indicada”, explica a oncologista.
“A quimioterapia possibilita ganho de sobrevida e melhora da qualidade de vida
nos pacientes. Nos últimos anos surgiram esquemas de tratamento que melhoraram
um pouco a sobrevida da doença, porém os ganhos foram pequenos”, esclarece a
médica. A cirurgia é possível em uma minoria dos casos, pelo fato de, na
maioria das vezes, o diagnóstico ser feito em fase avançada da doença.
Nos casos em que a cirurgia não seja apropriada, a radioterapia e a
quimioterapia são as formas de tratamento, associadas a todo o suporte
necessário para minimizar os transtornos gerados pela doença. Recidia Fernandes
explica que novas abordagens de tratamento incluem terapias-alvo, como
inibidores de PARP (proteínas que bloqueiam o crescimento celular), para
pacientes com mutações em BRCA, e imunoterapia em tumores com instabilidade de
microssatélites alta (MSI-H), embora esses casos sejam raros.
Segundo a oncologista, pesquisas recentes têm focado no desenvolvimento de imunoterapia combinada a novos biomarcadores para diagnóstico precoce e terapias-alvo mais eficazes. “Esperamos que isso venha a melhorar o prognóstico”, conclui.
Tribuna do Norte

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