A policial civil Paula
Alessandra, 41, sempre teve vocação para o trabalho operacional. “Por ter sido
escoteira, eu sempre tive vontade de ser bombeira, mas infelizmente não deu
certo. Passei um tempo me dedicando apenas à docência, mas ainda com o desejo
de atuar fardada e servindo à sociedade”, conta. Em 2018, decidiu estudar para
as carreiras policiais e, após mais de três anos de preparação, conquistou sua
aprovação na Polícia Civil do Rio Grande do Norte.
A presença feminina nas forças de segurança ainda é reduzida. De acordo com o
Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mulheres representam menos de 17% dos
efetivos estaduais. Na Polícia Civil, esse percentual sobe para 27%, mas ainda
é um número distante da equidade. “Mesmo recebendo o mesmo treinamento que os
colegas de trabalho, eu e outras policiais, em situações de maior risco, não
éramos acionadas. Na simples escolha de motorista de viatura, se estivéssemos
ao lado de um policial homem, a chave era entregue a ele”, relata Paula.
Esse cenário, no entanto, não a impediu de continuar desafiando padrões.
Durante a abertura da Operação Verão 2023/2024, Paula presenciou uma operação
aérea e decidiu que queria integrar o Centro Integrado de Operações Aéreas
(CIOPAER) do Rio Grande do Norte. “Demonstrei interesse e fui incentivada.
Inicialmente queria ser operadora aerotática, mas surgiu a oportunidade de
ingressar como pilota”, afirma.
Com a decisão acertada, Paula se tornou a primeira mulher a integrar a unidade
e deverá se consolidar como a primeira a pilotar uma aeronave do CIOPAER. “Eu
fui a primeira e outras, em breve, também estarão comigo atuando na aviação de
segurança pública”, afirma esperançosa.
Desde então, Paula já realizou a conclusão do curso teórico junto à Agência
Nacional de Aviação Civil (ANAC) e aguarda para o início da prática, que poderá
ser executada fora do estado. Ao fim, a policial ainda precisará formar um
banco de horas como copilota para, enfim, se tornar comandante do Potiguar 01 e
02, os dois helicópteros da força de segurança do RN.
Se Paula desbrava um ambiente operacional, Gabriella Aguiar, 25, trilha o
caminho no mercado da comunicação e marketing. Criadora da Aurora MKT Club, um
hub exclusivo para mulheres na área, ela sentiu na pele as barreiras de gênero
ao longo da carreira. “Tive impasses muito relacionados à existência feminina
no mercado e isso sempre me incomodou”, conta. O que começou como um grupo de
WhatsApp virou uma comunidade estruturada, promovendo conexões e oportunidades
para cerca de 650 mulheres.
A desigualdade no setor se reflete não apenas no acesso a cargos de liderança,
mas também na credibilidade profissional. “Nascer mulher te faz perder metade
da credibilidade e da chance de ocupar posições de destaque. A Aurora busca
trabalhar a autoestima profissional feminina de maneira realista e sólida para
que essas cadeiras estejam cada vez mais ocupadas por nós”, explica.
No total, a Aurora já reúne mulheres nas diversas áreas relacionadas à
comunicação, como publicidade e propaganda, audiovisual, jornalismo, design e
até mesmo programação para execução de sites. Mensalmente, são organizados
eventos, palestras e workshops para fortalecer os conhecimentos da comunidade,
os quais são ministrados prioritariamente por outras profissionais de larga
experiência.
Para Gabriella, apesar dos avanços, ainda há desafios. “Percebo uma mudança na
representatividade feminina, mas muitas empresas usam isso apenas para cumprir
uma ‘cota politicamente correta’. Ainda temos muito a evoluir”, relata. O
trabalho na Aurora tem sido fundamental nessa transformação. “Nosso foco é
networking. Conectar mulheres gera renda interna, o que acontece diariamente
dentro da comunidade”, pontua.
Superação
A batalha pelo reconhecimento e pelo direito de existir também marca a história
de Alexsandra Cândido, 50. Há cerca de 20 anos, ela passou por uma das piores
experiências que podem ser vivenciadas: a violência doméstica. O marido, na
época, a xingava constantemente, a acusava de traição e a impedia de estudar e
trabalhar. “Ele dizia que ia comprar uma navalha para tirar meu pescoço fora”,
relata com tristeza.
A situação piorou com o tempo, e as agressões físicas se tornaram frequentes.
“Ele deu um tapa na minha cara, outra vez me jogou na parede, puxou meus
cabelos. Eu chegava do curso e ele ficava furioso, achava que eu estava com
outro homem”. O medo se intensificava com os filhos presenciando as cenas. “Eu
via meus meninos assustados. O mais novo tinha seis anos, o outro oito e o mais
velho quatorze”, afirma.
Após anos de agressões físicas e psicológicas por parte do ex-marido, ela
decidiu romper o ciclo da violência e reconstruir sua vida. “Ele dizia que se
eu não ficasse com ele, eu não ficaria com mais ninguém”. Dois meses após a
separação, Alexsandra foi atacada. “Ele invadiu minha casa e me esfaqueou. No
dia seguinte, me encontrou e tentou de novo. Eu estava em uma parada de ônibus
quando ele veio com outra faca e me acertou mais uma vez”. Mesmo ferida,
sobreviveu e decidiu denunciar o agressor.
A Lei Maria da Penha é um marco na legislação brasileira. Criada em 2006, a
norma ampliou as medidas de proteção e punição aos agressores. Segundo a
Organização Mundial da Saúde (OMS), a violência de gênero é um problema de
saúde pública, com índices que variam entre 20% e 75% em diferentes sociedades.
No Brasil, muitas mulheres ainda hesitam em denunciar, seja por medo ou falta
de confiança no sistema.
“Fui ao hospital, passei por violência institucional porque ninguém me
perguntava nada, só costuravam meus ferimentos. Depois fui à delegacia e
enfrentei toda a burocracia, mas não recuei”, relata e destaca que mesmo assim,
conseguiu perceber a importância da coragem. “Eu tive duas opções: ficar e ser
morta, ou tentar viver. Escolhi viver”.
Após todo esse ciclo doloroso, Alexsandra decidiu seguir na carreira do Serviço
Social, ingressou na faculdade e se aprofundou nos direitos das mulheres. Ela,
ao lado dos filhos, foi morar de aluguel, mesmo diante de vários medos do
ex-marido, mas com o desejo de que tudo mudaria e um dia voltaria a ser feliz.
Desde então na carreira, Alexsandra participou ativamente do Fórum de Mulheres
do Rio Grande do Norte, onde, após três anos, se tornou coordenadora ao lado de
outras ativistas. Seu engajamento permitiu que conhecesse e interagisse
diretamente com mulheres em situação de vulnerabilidade, promovendo diálogos
sobre seus direitos. Hoje, além de suas atividades institucionais, ministra
palestras em escolas, igrejas e postos de saúde, orientando mulheres sobre seus
direitos e sobre como buscar auxílio para romper ciclos de violência.
“Eu aprendi que tenho voz e vez. Tive a oportunidade de ir a Brasília e conheci
Maria da Penha pessoalmente. Ali, entendi minha força como mulher e como
profissional. Muitas mulheres precisam da minha voz. Eu fui ameaçada e atacada,
mas sobrevivi e hoje estou aqui para dizer que é possível superar”, relata
Alexsandra, feliz pela transformação. Hoje, ela está casada novamente e se
considera “uma rocha” por não desistir de lutar.
Dentro da Lei Maria da Penha, as medidas tipificam cinco formas de violência: a
física, a psicológica, a sexual, a patrimonial e a moral. As mulheres que
sofrem qualquer uma dessas formas de violência podem denunciar por diferentes
canais. A Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos recebe denúncias anônimas,
enquanto delegacias especializadas e unidades policiais presenciais acolhem
vítimas e tomam providências. Além disso, o Ligue 180 oferece atendimento
exclusivo para violência doméstica e o 190 pode ser acionado em situações de
emergência.
Histórias como as de Paula, Gabriella e Alexsandra, de diferentes formas,
evidenciam a urgência de mudança e o impacto do protagonismo feminino. Em
diferentes frentes, elas ocupam espaços que antes pareciam inalcançáveis,
inspirando outras mulheres a seguirem caminhos de reafirmação, merecidos diante
de cada história e preparação.
Tribuna do Norte
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