sábado, 8 de março de 2025

8 de março: mulheres conquistam espaço e inspiram novas gerações

O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, vai além da homenagem àquelas que fazem parte de cada ciclo. É um marco de luta e conquista por espaço, com resistência e dedicação. No Rio Grande do Norte, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos 3,3 milhões de habitantes, 1,7 milhão são do gênero feminino. Em especial, mulheres como Paula Alessandra, Gabriella Aguiar e Alexsandra Cândido têm trajetórias distintas, mas compartilham um objetivo comum: fortalecer o papel feminino e abrir portas para outras mulheres.

A policial civil Paula Alessandra, 41, sempre teve vocação para o trabalho operacional. “Por ter sido escoteira, eu sempre tive vontade de ser bombeira, mas infelizmente não deu certo. Passei um tempo me dedicando apenas à docência, mas ainda com o desejo de atuar fardada e servindo à sociedade”, conta. Em 2018, decidiu estudar para as carreiras policiais e, após mais de três anos de preparação, conquistou sua aprovação na Polícia Civil do Rio Grande do Norte.

A presença feminina nas forças de segurança ainda é reduzida. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mulheres representam menos de 17% dos efetivos estaduais. Na Polícia Civil, esse percentual sobe para 27%, mas ainda é um número distante da equidade. “Mesmo recebendo o mesmo treinamento que os colegas de trabalho, eu e outras policiais, em situações de maior risco, não éramos acionadas. Na simples escolha de motorista de viatura, se estivéssemos ao lado de um policial homem, a chave era entregue a ele”, relata Paula.

Esse cenário, no entanto, não a impediu de continuar desafiando padrões. Durante a abertura da Operação Verão 2023/2024, Paula presenciou uma operação aérea e decidiu que queria integrar o Centro Integrado de Operações Aéreas (CIOPAER) do Rio Grande do Norte. “Demonstrei interesse e fui incentivada. Inicialmente queria ser operadora aerotática, mas surgiu a oportunidade de ingressar como pilota”, afirma.

Com a decisão acertada, Paula se tornou a primeira mulher a integrar a unidade e deverá se consolidar como a primeira a pilotar uma aeronave do CIOPAER. “Eu fui a primeira e outras, em breve, também estarão comigo atuando na aviação de segurança pública”, afirma esperançosa.

Desde então, Paula já realizou a conclusão do curso teórico junto à Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e aguarda para o início da prática, que poderá ser executada fora do estado. Ao fim, a policial ainda precisará formar um banco de horas como copilota para, enfim, se tornar comandante do Potiguar 01 e 02, os dois helicópteros da força de segurança do RN.

Se Paula desbrava um ambiente operacional, Gabriella Aguiar, 25, trilha o caminho no mercado da comunicação e marketing. Criadora da Aurora MKT Club, um hub exclusivo para mulheres na área, ela sentiu na pele as barreiras de gênero ao longo da carreira. “Tive impasses muito relacionados à existência feminina no mercado e isso sempre me incomodou”, conta. O que começou como um grupo de WhatsApp virou uma comunidade estruturada, promovendo conexões e oportunidades para cerca de 650 mulheres.

A desigualdade no setor se reflete não apenas no acesso a cargos de liderança, mas também na credibilidade profissional. “Nascer mulher te faz perder metade da credibilidade e da chance de ocupar posições de destaque. A Aurora busca trabalhar a autoestima profissional feminina de maneira realista e sólida para que essas cadeiras estejam cada vez mais ocupadas por nós”, explica.

No total, a Aurora já reúne mulheres nas diversas áreas relacionadas à comunicação, como publicidade e propaganda, audiovisual, jornalismo, design e até mesmo programação para execução de sites. Mensalmente, são organizados eventos, palestras e workshops para fortalecer os conhecimentos da comunidade, os quais são ministrados prioritariamente por outras profissionais de larga experiência.

Para Gabriella, apesar dos avanços, ainda há desafios. “Percebo uma mudança na representatividade feminina, mas muitas empresas usam isso apenas para cumprir uma ‘cota politicamente correta’. Ainda temos muito a evoluir”, relata. O trabalho na Aurora tem sido fundamental nessa transformação. “Nosso foco é networking. Conectar mulheres gera renda interna, o que acontece diariamente dentro da comunidade”, pontua.

Superação
A batalha pelo reconhecimento e pelo direito de existir também marca a história de Alexsandra Cândido, 50. Há cerca de 20 anos, ela passou por uma das piores experiências que podem ser vivenciadas: a violência doméstica. O marido, na época, a xingava constantemente, a acusava de traição e a impedia de estudar e trabalhar. “Ele dizia que ia comprar uma navalha para tirar meu pescoço fora”, relata com tristeza.

A situação piorou com o tempo, e as agressões físicas se tornaram frequentes. “Ele deu um tapa na minha cara, outra vez me jogou na parede, puxou meus cabelos. Eu chegava do curso e ele ficava furioso, achava que eu estava com outro homem”. O medo se intensificava com os filhos presenciando as cenas. “Eu via meus meninos assustados. O mais novo tinha seis anos, o outro oito e o mais velho quatorze”, afirma.

Após anos de agressões físicas e psicológicas por parte do ex-marido, ela decidiu romper o ciclo da violência e reconstruir sua vida. “Ele dizia que se eu não ficasse com ele, eu não ficaria com mais ninguém”. Dois meses após a separação, Alexsandra foi atacada. “Ele invadiu minha casa e me esfaqueou. No dia seguinte, me encontrou e tentou de novo. Eu estava em uma parada de ônibus quando ele veio com outra faca e me acertou mais uma vez”. Mesmo ferida, sobreviveu e decidiu denunciar o agressor.

A Lei Maria da Penha é um marco na legislação brasileira. Criada em 2006, a norma ampliou as medidas de proteção e punição aos agressores. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a violência de gênero é um problema de saúde pública, com índices que variam entre 20% e 75% em diferentes sociedades. No Brasil, muitas mulheres ainda hesitam em denunciar, seja por medo ou falta de confiança no sistema.

“Fui ao hospital, passei por violência institucional porque ninguém me perguntava nada, só costuravam meus ferimentos. Depois fui à delegacia e enfrentei toda a burocracia, mas não recuei”, relata e destaca que mesmo assim, conseguiu perceber a importância da coragem. “Eu tive duas opções: ficar e ser morta, ou tentar viver. Escolhi viver”.

Após todo esse ciclo doloroso, Alexsandra decidiu seguir na carreira do Serviço Social, ingressou na faculdade e se aprofundou nos direitos das mulheres. Ela, ao lado dos filhos, foi morar de aluguel, mesmo diante de vários medos do ex-marido, mas com o desejo de que tudo mudaria e um dia voltaria a ser feliz.

Desde então na carreira, Alexsandra participou ativamente do Fórum de Mulheres do Rio Grande do Norte, onde, após três anos, se tornou coordenadora ao lado de outras ativistas. Seu engajamento permitiu que conhecesse e interagisse diretamente com mulheres em situação de vulnerabilidade, promovendo diálogos sobre seus direitos. Hoje, além de suas atividades institucionais, ministra palestras em escolas, igrejas e postos de saúde, orientando mulheres sobre seus direitos e sobre como buscar auxílio para romper ciclos de violência.

“Eu aprendi que tenho voz e vez. Tive a oportunidade de ir a Brasília e conheci Maria da Penha pessoalmente. Ali, entendi minha força como mulher e como profissional. Muitas mulheres precisam da minha voz. Eu fui ameaçada e atacada, mas sobrevivi e hoje estou aqui para dizer que é possível superar”, relata Alexsandra, feliz pela transformação. Hoje, ela está casada novamente e se considera “uma rocha” por não desistir de lutar.

Dentro da Lei Maria da Penha, as medidas tipificam cinco formas de violência: a física, a psicológica, a sexual, a patrimonial e a moral. As mulheres que sofrem qualquer uma dessas formas de violência podem denunciar por diferentes canais. A Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos recebe denúncias anônimas, enquanto delegacias especializadas e unidades policiais presenciais acolhem vítimas e tomam providências. Além disso, o Ligue 180 oferece atendimento exclusivo para violência doméstica e o 190 pode ser acionado em situações de emergência.

Histórias como as de Paula, Gabriella e Alexsandra, de diferentes formas, evidenciam a urgência de mudança e o impacto do protagonismo feminino. Em diferentes frentes, elas ocupam espaços que antes pareciam inalcançáveis, inspirando outras mulheres a seguirem caminhos de reafirmação, merecidos diante de cada história e preparação.

Tribuna do Norte

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