O economista Helder Cavalcanti
Vieira explica que o aumento tem relação com fatores globais. Nos Estados
Unidos, um surto de gripe aviária ocasionou o abate de aves, o que reduziu a
produção no País. “Foi uma quantidade enorme de aves abatidas. Houve uma queda
na oferta de ovo lá, algo que é extremamente relevante para a culinária
americana, então os EUA, para suprir essa eficiência, veio buscar no Brasil e
aumentou as nossas exportações para lá em cerca de 33%. Isso, de certa forma,
desequilibrou a nossa oferta interna”, explica.
Fatores climáticos, que
causaram desequilíbrios em regiões produtoras, e a elevação no preço da carne
também contribuíram para o aumento da procura, analisa o economista Helder
Cavalcanti. “O ovo é um elemento básico da alimentação, é um item que praticamente
todo brasileiro consome. O ovo é uma proteína que substitui a carne. Então,
aquelas pessoas que não conseguiram acompanhar o poder aquisitivo para ter a
carne, passaram a ter o ovo como alternativa”, comenta.
Nos supermercados, o impacto
foi imediato. De acordo com Mikelyson Gois, presidente da Associação dos
Supermercados do Rio Grande do Norte (Assurn), o preço quase dobrou em questão
de semanas. “Percebemos esse aumento e foi um aumento muito rápido, coisa de
duas semanas. Nesse caso, podemos dizer que realmente houve um salto nos
preços. A gente estava vendendo de R$ 15 – até menos, com algumas promoções – e
já está beirando os R$ 30 em alguns locais”, conta.
A alta sazonal da Quaresma
também ajudou a impulsionar os valores, já que há um aumento na procura por
ovos nesse período, especialmente entre consumidores que evitam carne vermelha,
acrescenta Gois. “Quando vai chegando perto da Quaresma, até a Semana Santa,
muita gente pratica a abstinência de proteína animal e há uma migração para
proteína do ovo. Sobe de preço, porque aumenta o consumo e a gente já tinha o
aumento da carne. Quando você aumenta o consumo e não tem produtos suficientes
para atender, eles regulam isso pelo aumento do preço”, diz.
Além dos aspectos sazonais, de
aumento de consumo interno e crescimento das exportações, manter as criações de
aves também ficou mais caro, o que ajudou a puxar o preço do ovo para cima,
analisa Mikelyson. “Além do mercado externo querendo consumir e pagando melhor,
porque o dólar está caro, tivemos aumento dos insumos para a manutenção das
aves, para a criação – tanto de ração, como de vacina – e outras coisas que o
pessoal que produz em grande escala usa”.
Procon fiscaliza aumentos na
capital
O impacto da alta nos preços
já é sentido pelos consumidores. O aposentado Gilberto da Silva, de 63 anos,
morador do bairro Dix-Sept Rosado, relata que precisou modificar hábitos de
compra. “Aumentou muito mesmo e foi muito rápido. Foi em todo canto. Faço a
feira no Atacadão, mas às vezes venho no supermercado aqui perto, mas aumentou
em todo canto. Eu acho muito complicado, porque eu não posso comer carne, coisa
frita, porque para mim é um veneno, e eu gosto muito do ovo cozido”, conta.
Ele relata ainda que já
precisou mudar a alimentação por questões de saúde e que o ovo se tornou um
item essencial na dieta dele. “Já tive muitos problemas de colerestol, já
cheguei a pesar 110 quilos; hoje eu tenho 76 quilos e tive que refazer minha
dieta. Fui na nutricionista e agora o ovo faz parte da minha dieta,
principalmente o ovo cozido, que é muito mais forte e melhor do que o ovo
frito”.
A dona de casa Shirley
Santiago, de 58 anos, também percebeu a alta expressiva no valor do ovo e
precisou frear a compra do produto. “Compro sempre, porque o ovo faz parte da
minha dieta, e foi um aumento muito rápido. Eu comprei, não faz muito tempo, de
R$13,90, e quando a minha vizinha chegou dizendo que tinha comprado de R$ 26 eu
não acreditei, até vir e ver que realmente estava quase R$ 30. Assim fica muito
complicado para manter a dieta. A gente tem que mudar também. Antes eu comprava
três bandejas e agora só comprei duas”, lamenta.
Procon Natal reforça
fiscalização
O Procon Natal acompanha a
variação de preços e investiga possíveis irregularidades. A diretora-geral do
órgão, Dina Pérez, explica que as equipes estão monitorando os valores e podem
adotar medidas cabíveis, caso sejam identificadas práticas abusivas no
comércio.
“O Procon Natal está
acompanhando de perto a alta repentina no preço da bandeja de ovos, que chegou
a quase R$ 30 em alguns estabelecimentos nesta semana. Esse aumento expressivo
contrasta com os valores médios registrados na última pesquisa de preços realizada
pelo órgão em janeiro”.
O Procon Natal reforça a
importância dos próprios consumidores pesquisarem preços e denunciarem valores
excessivos pelo canal de atendimento do órgão, através do
e-mail: procon.natal@natal.rn.gov.br.
Potiguares sentem alta nos
preços
Uma pesquisa divulgada
recentemente pela Quaest mostra que oito a cada 10 brasileiros têm sentido o
aumento dos preços dos alimentos nas prateleiras. As avaliações são confirmadas
em números oficiais. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)
aponta para uma alta acumulada de 5,4% nos últimos cinco meses nos valores dos
itens do grupo de alimentos e bebidas. O aumento no período supera a inflação
de todo o ano passado, que ficou em 4,83%. A percepção é observada nas ruas da
capital potiguar. À reportagem, consumidores citaram produtos como café, açúcar
e ovos como os que mais encareceram nos últimos meses.
“O café é o item que está mais
caro e parece aumentar todo santo dia. Mas tem outros produtos que eu consumo
mais e estão me afetando bastante, como o açúcar, o feijão, e agora os ovos”,
relatou Liane Silva, 44 anos, auxiliar de serviços gerais.
A recepcionista Fátima
Fernandes, 53 anos, além de ter notado o aumento no preço do café, também
afirma que o leite está caro nas prateleiras. “Quando vou ao supermercado,
tenho o cuidado de olhar a marca de café que está com o preço melhor para
comprar. Até o leite está mais caro. E não sou apenas eu quem falo isso. Todo
mundo fala também”.
O economista Helder Cavalcanti
analisa que, por ser um segmento básico de consumo, a inflação desses produtos
é facilmente percebida pela população. A parcela com menor poder aquisitivo é a
que mais sente, na avaliação do especialista. “No cômputo geral, o que a gente
percebe é que a classe média e a classe alta, como têm um poder de compra mais
elevado e uma reserva financeira, não notam tanto esses efeitos. Por sua vez,
as classes mais da base da pirâmide, compostas pelas pessoas que ganham até
cinco salários mínimos, fazem um esforço diário para atender às próprias
necessidades”, explica Cavalcanti.
A pesquisa da Quaest mostra
que praticamente todas as classes sociais têm observado as elevações: apenas
10% dos entrevistados de todas as faixas de renda citaram que sentem que os
preços estão baixos. Para 11% dos entrevistados de classe baixa e 14% das
pessoas ouvidas e que pertencem à classe alta, há estabilidade nos valores
cobrados pelos alimentos. “Essa sensação de preço baixo costuma ser muito
específica, se justificando talvez para produtos substitutos. Então, é alguém
que coloca o chá no lugar do café e consegue ter essa sensação [de preço mais
em conta]”, afirma o economista.
Helder Cavalcanti analisa que
as altas registradas têm a ver com múltiplos fatores, como a alta do dólar, a
subida no preço dos combustíveis e crises no mercado internacional, como o
surto de gripe aviária nos Estados Unidos. Com a perda de produção no mercado
local, os EUA vieram buscar no Brasil o produto de que necessitavam. No caso do
café, o economista destaca o impacto dos efeitos climáticos, como as secas e
geadas, que geram escassez. “Então, o mercado fica sujeito à lei da oferta e da
procura”, diz o especialista.

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