André espera um faturamento
maior por um motivo específico: este ano o carnaval será em março (começa
no sábado, 1º), o que significa dizer que o pré-carnaval é mais longo.
"A gente vai ter janeiro
e fevereiro para se preparar para o carnaval. Para mim é como se tivesse já
dando uma alavancada de no mínimo uns 50% nas vendas", disse à Agência
Brasil.
Desde a virada do ano, ele tem
percebido que a cidade está cheia de turistas, brasileiros e estrangeiros, o
que contribui para o otimismo em relação às vendas. Para o camelô, os blocos de
carnaval que já estão animando o Rio desde o primeiro fim de semana do
ano estão diretamente relacionados com a expectativa – mesmo que não sejam
localizados na região da Lapa.
"A gente fala que a Lapa,
a nossa área, é uma dispersão mesmo de blocos. As pessoas vindas de blocos da
Primeiro de Março [no Centro], do Flamengo, da Glória [bairros da zona sul],
enfim, a galera acaba indo para a Lapa, todo mundo vai para lá, e a festa
continua lá".
A vendedora ambulante Maria do
Carmo, conhecida como Maria dos Camelôs, fundadora e coordenadora-geral do
Movimento Unido dos Camelôs (Muca), reforça a importância do carnaval para a
categoria.
"O carnaval é o momento
em que a gente tira o nosso 13º salário. Momento em que as pessoas estão na
cidade, na rua para gastar dinheiro. Para a gente é muito importante”, disse
à Agência Brasil a ambulante que vende bebidas em blocos no
tradicional bairro de Santa Teresa, região central do Rio de Janeiro.
"Carnaval deveria ser
duas vezes no ano”, brinca ela, que aponta o pré-carnaval como mais
oportunidade para encontrar blocos nas ruas e, consequentemente, vender mais.
Este ano, a prefeitura do Rio
de Janeiro vai cadastrar 15 mil vendedores autônomos para trabalhar
nos blocos de rua, 5 mil a mais que em 2024.
Expediente esticado
O bar e restaurante Super Bar,
que fica na Cinelândia, centro do Rio, outro ponto de dispersão de blocos, foi
surpreendido pelo movimento de foliões no último domingo (5).
“Já começou o pré-carnaval
este fim de semana. Já bombou aqui”, contou à Agência Brasil o
gerente Flávio Alexandre Filho. O estabelecimento estava planejado para
funcionar só no expediente diurno, mas teve que mudar os planos. “Teve que dar
uma esticada até as 11 horas da noite”, relata.
O gerente explicou que não
chega a contratar mais funcionários, mas altera os horários das escalas, de
forma a ampliar a capacidade de atendimento. A exceção é a equipe de segurança,
que conta com reforço numérico.
Nas contas de Flávio, o
faturamento deve crescer 30% nos dias de pré-carnaval. Esse aumento compensa
outro efeito do carnaval tardio. Ele observa que o restaurante fica em uma
região que concentra muitos funcionários públicos. “O ano só começa mesmo depois
do carnaval”, constata ele, se referindo à diminuição de movimento nos dias
úteis de janeiro e fevereiro.
Comportamentos distintos
O presidente do Sindicato de
Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio), Fernando Blower, observa que
mesmo não tendo dados que suportem a hipótese, tende a acreditar que o
pré-carnaval mais longo pode ser algo positivo para o setor. “Isso porque dá
uma espécie de alongada nesse sentimento de verão, férias e viagem”, avalia.
No entanto, ele aponta que nem
todos os estabelecimentos de alimentação fora do lar vivenciam o período da
mesma forma.
“Os bares e locais com
características mais informais e descontraídos, além daqueles em locais de
perfil notadamente turísticos, a exemplo da zona sul e Lapa, apresentam maior
possibilidade de crescimento no período”, assinala.
“Já nos perfis de negócio com
foco mais executivo e afastados das áreas de maior concentração turística, o
inverso acontece”, completa.
O presidente do SindRio lembra
que, de acordo com dados do sindicato e do Instituto Fecomércio de Pesquisas e
Análises (Ifec-RJ), o carnaval é historicamente um período com pequena queda no
faturamento do setor de bares e restaurantes.
Em 2024, o faturamento ficou
em R$ 1,394 bilhões. Foi o primeiro ano a superar a marca de pouco mais de R$
1,3 bilhão alcançada em 2019 e 2020, antes da pandemia de covid-19.
“Com o aumento crescente do
turismo, incluindo o recorde de entrada de turistas estrangeiros no Brasil em 2024, estamos esperançosos de seguir em um
movimento de crescimento”, estima.
Vocação regional
O presidente-executivo da
Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci,
considera que o fato de o carnaval ser só em março gera impactos variados
pelo Brasil, que dependem das características econômicas e turísticas de cada
região.
“Em cidades como Salvador e
Florianópolis, o carnaval marca o fim da alta temporada de verão. Por isso,
quando acontece mais tarde, ajuda a prolongar o turismo e impulsionar as vendas
em bares e restaurantes”, aponta.
“Já em locais onde a atividade
turística é forte ao longo de todo o verão, como no Rio de Janeiro, a data do
carnaval tem pouca influência, e o setor mantém sua estabilidade”, considera.
Hotéis
Enquanto ambulantes e bares se
aproveitam da presença de foliões nos blocos do pré-carnaval estendido, o setor
de hotelaria enxerga outra vantagem de a festa oficial estar marcada para
março.
De acordo com Alfredo Lopes,
presidente do HotéisRIO - o sindicato de donos de hospedagem da cidade do Rio -
a data mais distante faz com que turistas nacionais tenham tempo de se
organizar financeiramente e “abre a possibilidade de que quem veio participar
da festa da virada queira voltar para a folia momesca”.
Segundo ele, o Réveillon
funciona como um “cartão de boas-vindas” para que os visitantes conheçam melhor
a cidade e se interessem em participar de outra grande festa. “O carnaval em
março estica a alta temporada no Rio, constituída pelo verão carioca”, define.
Além disso, continua Lopes, a
desvalorização do real, cerca de 25% em um ano, tornou o Rio ainda mais atraente para
os turistas internacionais. A moeda brasileira desvalorizada é sinônimo de
preços mais baratos para quem vem de fora do país.
Calendário oficial
A terça-feira de carnaval este
ano será em 4 de março. A data varia, sendo relacionada diretamente à realização
da Páscoa, que segue o calendário da igreja católica.
Com base em relatos bíblicos e
históricos, os católicos acreditam que a ressurreição de Cristo ocorreu em um
dia de lua cheia, próximo ao equinócio da primavera (o dia e a noite têm
exatamente a mesma duração e marca a chegada da estação) no Hemisfério Norte.
Por esta razão, no ano 325, a
Igreja Católica realizou o Concílio de Niceia e decidiu que a Páscoa seria
celebrada sempre no domingo seguinte ao surgimento da primeira lua cheia após a
chegada da primavera no Hemisfério Norte. Dessa forma, a Páscoa de 2025 será em
20 de abril.
Já o carnaval termina
religiosamente 40 dias antes do domingo de Ramos, o domingo que antecede a
Páscoa. Da quarta-feira de cinzas até o domingo de Páscoa são sempre 46 dias.
Em 2024, o carnaval começou em
10 de fevereiro. Em 2026, será no sábado 14 de fevereiro. Passando 2025, o
próximo ano que terá carnaval em março será 2030, quando a terça-feira cairá em
um dia 5.
O Instituto de Informática da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) preparou uma tabela com todas
as datas religiosas móveis, o que inclui o Corpus Christi – de
1951 a 2078.
Lei para fixar data
Apesar de o carnaval ser uma
data móvel diretamente ligada à Páscoa, já houve tentativas de aprovar lei para
fixar o carnaval na primeira terça-feira de março.
A Câmara dos Deputados recebeu
os Projetos de Lei (PL) 2846/2008 e 1503/2011, dos então deputados federais Wellington Fagundes
e Stepan Nercessian, respectivamente.
Na justificativa, ambos alegam
que a mudança de data possibilitaria “melhoria das condições profissionais de
todos os setores envolvidos na organização do evento”.
O projeto do hoje senador
Fagundes acrescentava que “a fixação da data tem, ainda, a vantagem de oferecer
aos turistas – brasileiros e estrangeiros – a oportunidade de se programarem
antecipadamente para a grande festa”.
O texto de Nercessian defendia
que “quando a festa cai na primeira quinzena de fevereiro, é um desastre
econômico para o setor de turismo”.
O PL de Wellington Fagundes
foi arquivado em 2009, pouco mais de um ano após ser apresentado. O de Stepan
Nercessian começou a tramitar em 2011 e foi arquivado em 2015.
Agência Brasil

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