Essa confiança é partilhada
por fiéis como Luciana Kariny, de 37 anos, que todos os anos participa da
procissão acompanhada de sua mãe, Maria da Natividade. Para Luciana, a devoção
começou ainda na infância. “Representa muita devoção, porque ela me trazia
desde pequena para cá. E a fé foi aumentando a cada ano”, relata.
A tradição, que passa de
geração em geração, tem um significado especial para a devota. “Quando fui
crescendo, fui entendendo o que era Santos Reis, o que era a fé que ela
mostrava para nós. A gente foi também adquirindo essa fé. Para mim, é muito
emocionante. Todo ano a gente vem, tanto para as novenas quanto para a grande
procissão. É muito importante e muito linda a procissão e a fé que a gente vê
tanto do povo como a nossa própria fé também”, relata.
Maria da Natividade, hoje com
74 anos, frequenta as celebrações desde os sete anos de idade. Crescida em uma
família católica, ela recorda suas primeiras experiências religiosas. “Venho
desde os sete anos de idade a essa novena. Eu vinha com o meu pai. Até hoje,
venho todos os anos, não só na procissão, mas também nas novenas.” Para Maria,
a fé nos Santos Reis trouxe graças significativas para sua família. Ela
relembra o episódio de superação do marido, que conseguiu deixar o vício da
bebida após um pedido feito por ela aos Reis Magos. “Meu esposo era muito
viciado em bebida. Então, eu fiz um pedido com muita fé e fui atendida. Ele
deixou de beber.” Embora seu marido tenha falecido posteriormente, ela vê o
episódio como um verdadeiro milagre. “De qualquer forma, foi um milagre. Eu
senti como um milagre”, finaliza.
Maria do Socorro, de 75 anos,
é amiga de Luciana e de Maria da Natividade e as acompanha todos os anos para
agradecer e demonstrar a fé, por isso também mantém viva a devoção aos Santos
Reis. Maria do Socorro também foi influenciada por sua família a seguir a
religião. “Minha avó, meu avô e minha mãe eram franciscanos [que são da Igreja
de São Francisco], todos nós somos católicos de raiz. A vovó vinha para cá
[Santuário Arquidiocesano dos Santos Reis] e minha mãe também. Eu comecei a vir
para a igreja por conta deles, e até hoje continuo seguindo minha fé”, conta a
fiel.
Ela relembra um episódio
marcante de sua vida, ocorrido no Dia de Reis, que fortaleceu ainda mais sua
fé. “Meu filho mais novo sofreu um acidente no dia 6 de janeiro, quando tinha 6
anos. Ele pegou 25 pontos na cabeça. Graças a Deus, ele está hoje com 52 anos.
Embora não tenha feito uma promessa formal na época, Maria do Socorro destaca o
alívio que sentiu ao perceber que seu filho sobreviveu. “O desespero foi tão
grande que a gente nem pensa, né? Depois eu percebi que foi uma grande graça.
Hoje ele está bem. Foi só agradecimento”, finaliza.
Esperança em tempos de
adversidade
A história dos Reis Magos é
carregada de simbolismo. Segundo o relato bíblico, eles viajaram por longos
períodos, guiados apenas por uma estrela, até encontrarem o Menino Jesus na
manjedoura. Para o padre Francisco, essa narrativa continua a inspirar fé e
perseverança nos dias atuais. “Os Reis Magos viajaram por longos períodos,
guiados apenas por uma estrela, sem provas concretas. Isso simboliza que a fé e
a esperança não dependem de garantias visíveis, mas de uma confiança profunda”,
explica.
Essa confiança é fundamental,
especialmente em tempos de adversidade. Maria do Socorro reflete sobre o
simbolismo dos Reis Magos e como essa história bíblica inspira sua fé. “Quando
penso que Jesus nasceu numa manjedoura, sem ter lugar, e eles, sem rumo,
conseguiram encontrar o menino Deus… Isso, para mim, é muito forte. Eles não
eram católicos, mas Deus tudo faz e faz bem feito. Todo ano eu venho e confio
em Deus que, até Ele me chamar, estarei por aqui”, finaliza a fiel.
O padre Francisco também
reforça o papel da Igreja em manter viva essa tradição. “O Ano Jubilar, que
será celebrado em 2025, é um tempo de renovação espiritual. Durante esse
período, os fiéis poderão receber indulgência plenária ao rezar no santuário.
Isso reforça o compromisso de manter viva a tradição dos Santos Reis e renovar
a fé”, destaca o sacerdote.
Os relatos das famílias
participantes mostram como essa celebração é mais do que um ato religioso, mas
um compromisso de fé que resiste ao tempo. Ao longo dos séculos, a tradição de
Santos Reis se perpetuou através da devoção transmitida por pais, mães e avós,
que ensinam os valores da espiritualidade e da solidariedade às novas gerações.
Para muitos, o Dia de Reis é
um momento de olhar para o passado, relembrar histórias familiares e reforçar
os laços espirituais. Essa herança religiosa não apenas preserva a fé, mas
também fortalece a identidade cultural e comunitária, especialmente em tempos
de incertezas e desafios.
As celebrações em torno dos
Santos Reis também representam um chamado à esperança. Em meio às dificuldades
da vida cotidiana, a jornada dos Magos em busca do Menino Jesus continua a ser
um exemplo inspirador de resiliência e fé. As histórias de Maria da Natividade,
Luciana Kariny e Maria do Socorro ilustram como essa devoção ainda traz
conforto e inspiração, renovando o espírito daqueles que participam das
celebrações anuais.
No contexto contemporâneo, a
tradição dos Santos Reis é vista como um símbolo de fé que une diferentes
gerações, como exemplo a mãe e filha: Maria da Natividade e Luciana Kariny.
Segundo o padre Francisco, a
jornada dos Reis Magos, que atravessaram desertos e enfrentaram desafios, serve
como metáfora para os desafios enfrentados pelos fiéis ao longo da vida.
Além disso, Francisco Lima
defende que a celebração fortalece o senso de comunidade. Durante o período das
novenas e da missa campal, os fiéis se reúnem para compartilhar suas
experiências e renovar seus votos de fé. Esse encontro coletivo, segundo o padre
Francisco, é fundamental para manter viva a chama da espiritualidade.
“A devoção aos Santos Reis
também é uma oportunidade para reforçar valores como a solidariedade e a
compaixão. A história dos Magos que levaram presentes ao Menino Jesus ensina
que a verdadeira riqueza está em compartilhar o que se tem com os outros, especialmente
com aqueles que mais precisam. Em tempos de tantas adversidades, essa mensagem
se torna ainda mais relevante”, finaliza.
Tradição existe há mais de 370
anos
O Santuário Arquidiocesano dos
Santos Reis é um dos símbolos dessa devoção. Segundo o padre Francisco Lima, a
escolha dos Reis Magos como copadroeiros da cidade ocorreu por iniciativa dos
próprios moradores, há mais de 370 anos, quando as imagens dos magos chegaram à
capital potiguar. Desde então, as celebrações crescem a cada ano que se passa,
assim como o número de devotos, especialmente durante o novenário que precede o
Dia de Reis.
“Essa festa transformou-se em
uma manifestação popular que reflete um sentimento de alegria e celebração”,
explica o padre Francisco. Ele defende que a tradição está longe de se perder,
pois é no Dia de Reis que as pessoas fortificam sua fé. “Na tradição do Dia de
Reis, as pessoas veem esperança. Mesmo diante de adversidades, eles não
desistiram de sua jornada”
No Santuário Arquidiocesano
dos Santos Reis, a celebração inicia no dia 27 de dezembro, com um novenário
que antecede o Dia de Reis. Durante esse período, as imagens dos magos são
colocadas em diferentes locais, simbolizando a jornada até a manjedoura. As
celebrações encerram-se no dia 6 de janeiro, com uma missa campal para acolher
um maior número de fiéis. Segundo o padre Francisco, “No santuário, cabem cerca
de 300 pessoas por vez, mas no dia 6 há várias missas, e à tarde ocorre uma
missa campal para acomodar mais pessoas”, afirma.
Serviço:
Confira a programação do dia 6, no Santuário:
7h – Missa presidida pelo padre. Thalles Henrique, vigário paroquial da
Paróquia de Santa Teresinha;
9h – Missa solene presidida por Dom Jaime
Vieira Rocha, arcebispo emérito de Natal;
10h – Celebração do sacramento do batismo;
11h – Missa da Coroa de Estrelas, presidida pelo padre Gleiber Dantas de Melo,
da Diocese de Caicó;
16h – Procissão com a imagem dos três
Reis Magos pelas ruas do bairro de Santos Reis, encerrando com uma missa
presidida pelo Monsenhor José Sílvio de Brito, vigário geral da Arquidiocese
Rayssa Vitorino
Repórter/Tribuna do Norte

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