domingo, 5 de julho de 2026

Prisão alivia luto pela noite da Tragédia do Baldo

Murilo Barros Júnior tinha 22 anos à época do crime. Ele estava na festa com amigos. Foto: Léia Ventura

O acidente que marcou o Carnaval de Natal, conhecido como a “Tragédia do Baldo”, completou 42 anos em 2026 com outro evento: a prisão do motorista Aluízio Farias Batista, que ocorreu em 26 de junho. Ele conduzia o ônibus que atropelou foliões e integrantes de uma banda musical que participavam de uma prévia carnavalesca. O sinistro resultou na morte de 19 pessoas e deixou 12 feridos, além de toda uma cidade traumatizada. A prisão reativou memórias de sobreviventes e parentes de vítimas, aliviando o luto pela noite mais trágica da festa de Momo na capital potiguar.

O advogado e professor universitário Murilo Barros Junior, 63, é um dos sobreviventes da tragédia. Aos 22 anos, Murilo saiu com amigos para comemorar os 10 anos do bloco Puxa Saco, em fevereiro de 1984. Ele conta que o cortejo do bloco partiria do Alecrim em direção à Praia dos Artistas. Os foliões brincavam o Carnaval nas proximidades do viaduto do Baldo, no centro histórico de Natal, quando um ônibus em alta velocidade interrompeu a folia.

“Eu estava com uma menina chamada Verônica, dançando na frente da banda. Por que eu estava na frente da banda? Não sei. Foi a minha sorte. Na hora que a gente estava descendo a ladeira, eu olhei e o viaduto estava cheio de gente. Aí eu disse: ‘Olha, Verônica, isso aqui tá parecido com as campanhas eleitorais’. É a única coisa que eu lembro que disse. Quando eu acordei foi no hospital”, relata.

Do acidente, restam-lhe cicatrizes e poucas memórias. Murilo perdeu dois amigos, Dinarte Mariz Neto e Simone Banhas. Dinarte foi colega de escola, e Simone era filha de amigos da família de Murilo. A maioria dos 19 mortos era da banda de música.

“A justiça tarda, mas não falha”. Esse ditado popular resume o sentimento da família de Dinarte Mariz Neto, que morreu aos 18 anos, sobre a prisão de Aluízio, 69, condenado a 21 anos de reclusão em regime fechado. A dor que atravessa a família há décadas recebeu um “alívio” com a prisão, que ocorreu no estado do Mato Grosso, em ação das Polícias Civis do Rio Grande do Norte e de MT.

“Senti um alívio grande quando eu soube dessa prisão. Por todos que se foram. Por todas essas famílias que perderam [entes]. Foram anos de sofrimento, mas hoje é um alívio. E eu tenho certeza que meus pais estão mais descansados agora, depois que souberam. A justiça foi feita”, diz Elizabeth Mariz, 66, irmã de Dinarte.

Ela conta que no dia o irmão quase desistiu de curtir o bloco para ir a uma boate com um primo. “Eu fiquei em casa com uma prima, assistindo a um filme. Mais tarde da noite o telefone tocou e eu atendi. Era um primo do meu pai. Ele disse: ‘Dinarte Mariz está aí?’ Eu disse: ‘Não, Paulo, ele foi para um negócio de um Carnaval’. Aí ele disse: ‘Pelo amor de Deus, houve um acidente horrível, morreu muita gente’”, lembra.

Nesse momento ainda não tinham certeza se Dinarte, que era estudante de Engenharia Civil, tinha sido uma das vítimas. Os pais dele estavam viajando; o avô, o ex-senador Dinarte Mariz, estava em Brasília. Avisados da morte, os familiares conseguiram um avião com Paulo Maluf e vieram a Natal se despedir do jovem.

“Isso acabou com a nossa família. Esse homem [Aluízio] não sabe quantas famílias ele acabou”, afirma Elizabeth. Dinarte era “muito da paz”, diz a irmã. Pouco depois da morte do neto, Dinarte Mariz morreu. A partir de então, o espírito festivo da família e as reuniões no Natal e no Carnaval esmoreceram.

Transformações da festa de Momo

“Naquela época o Carnaval de Natal era diferente. Era dividido nos carnavais de escola de samba, de tribos de índio, de pastorinhos e de blocos de elite, como Puxa Saco, Saca Rolha, Baculejo e Ressaca”, diz Murilo Barros Junior. Segundo ele, as pessoas passavam o ano vendendo rifas para custear a fantasia do bloco e os assaltos carnavalescos, quando os foliões ocupavam casas.

Na madrugada do dia 25 de fevereiro de 1984, Murilo foi um dos foliões presentes no momento mais trágico do Carnaval natalense. Ele lembra que o viaduto do Baldo estava repleto de gente esperando o bloco passar. Alguns iam se juntar na “pipoca”, como hoje são conhecidas as pessoas que não são originalmente do bloco.

O motorista do ônibus passou em alta velocidade e atingiu os foliões. Na época, lembra Murilo, Aluízio relatou que estava trabalhando havia 24 horas e estava cansado. Segundo reconstrução dos fatos, houve colisão entre o ônibus e um Fusca estacionado antes de o veículo sair do controle e avançar contra o grupo que participava do desfile. Murilo foi atingido, bateu a cabeça e desmaiou. “Só lembro quando acordei que estavam minha mãe, minha avó e uma enfermeira me limpando. Acordei perguntando onde eu estava.”

Inicialmente, a família escondeu a gravidade do que aconteceu a Murilo. Ele ficou um dia no Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel e depois foi para casa, onde recebeu visitas. Ninguém lhe dizia o que aconteceu, até que ele pediu que um amigo comprasse a edição de domingo da TRIBUNA DO NORTE. A manchete do jornal no dia era “Tragédia na abertura do carnaval de Natal. Ônibus atropela bloco. 19 MORTOS”.

Foi nessa ocasião que Murilo soube do acidente, que vitimou dois amigos próximos e mais 17 pessoas. Hoje, Murilo fala no assunto com naturalidade. Sobre a prisão do motorista, ele elogia o trabalho da polícia, mas reconhece que demorou.

“Eu sinto muito, porque acho que foi feita justiça nesse sentido, mas tenho a impressão de que a forma com que foi feita demorou muito. É tipo: a justiça tarda, mas não falha, mas é melhor que ela não tarde.”

Conforme os relatos, depois do acidente, Aluízio fugiu após abandonar o veículo sem acionar o freio de mão. O ônibus quase retornou e atingiu mais pessoas, não fosse uma pessoa que saltou no veículo e acionou o freio. O motorista ficou foragido por mais de 40 anos.

“Em termos de evento, isso foi um divisor de águas. Não teve mais carnaval aqui. Isso parou por muito tempo”, diz Murilo. Em vez do Carnaval de rua, os natalenses passaram a ir para as praias do litoral potiguar. “Agora é que está voltando aos poucos a economia carnavalesca da cidade de Natal. Trinta anos depois, voltaram os blocos, com uma nova roupagem.”

João Maria Marques da Silva, 62, namorava uma das integrantes da escola de samba que estava no ônibus. Ele vinha em um carro depois do veículo com fantasias da escola e viu o resultado do acidente. “Na hora em que passei, o desmantelo já tinha acontecido. Segui direto”, lembra. João viu muito sangue e as vítimas no chão.

“Natal parou. Começaram a sair as reportagens: disseram que morreram 18, depois 17, depois 15… O pessoal foi recontando. Teve até um colega meu, chamado Walter, que ficou no meio dos mortos. Foi descoberto no Walfredo que o cara estava vivo e o resgataram do meio dos corpos. Depois daquilo, o Carnaval de Natal acabou”, afirma.

Augusto Azevedo viu a tragédia e virou promotor do caso. Foto: Fernando Azevêndo

Da noite da tragédia até o júri popular

Augusto Azevedo, 61, foi de folião prestes a entrar como “pipoca” naquela madrugada a promotor do caso, décadas depois. Ele foi o promotor do júri popular, em 2009, em que Aluízio foi julgado e condenado pelo crime de homicídios duplamente qualificados.

“Eu estava ali, uma rua na frente, esperando exatamente esse bloco passar. Quando chegou a notícia de que tinha acontecido a tragédia, eu desci”, conta. “Eu tinha 19 anos. Vi aquela situação horrível. Pedaços de instrumentos… Passa o tempo, me torno promotor de justiça e venho trabalhar na vara do júri, quando chega o julgamento do Aluízio.”

O motorista foi julgado à revelia, porque estava desaparecido. Augusto Azevedo explica que a pena de Aluízio não prescreveu mesmo após 42 anos. “[O processo] transitou em julgado, ele não recorreu, nada. Nesse instante, você tem a interrupção do prazo de prescrição.”

“Há regras processuais e penais que levam à suspensão do prazo de prescrição e à interrupção desse prazo”, diz. A condenação proferida em maio de 2009 somente prescreveria em 2029.

Um crime de trânsito geralmente se enquadraria na modalidade culposa, mas o júri popular entendeu que houve dolo eventual. “Dolo também é quando eu assumo o risco do resultado. Se eu pego um ônibus, àquela altura, vejo que tem uma multidão na minha frente e acelero esse ônibus com raiva porque estava sendo atrapalhado, assumo o risco do que aconteceu”, explica o promotor.

Sobre o tempo decorrido no processo, ele avalia que fica um “recado positivo”. “Vivemos num mundo em que a descrença na justiça é muito grande. Como cidadãos, estamos à mercê de muita coisa. E, quando acontece uma situação dessa, é um exemplo de que é possível que a justiça seja feita, ainda que tardiamente, como diz o ditado.”

Fernando Azevêdo/Repórter

Tribuna do Norte

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