domingo, 10 de maio de 2026

Carreira, estabilidade e fertilidade: desafios da maternidade após os 40

Com 48 anos, Elza Tolentino vive, pela primeira vez com o esposo, a rotina intensa da maternidade, uma realidade que, durante anos, lhes pareceu distante. Foto: Alex Régis

O relógio biológico passou a disputar espaço com metas profissionais, independência financeira e planos pessoais. No meio desse equilíbrio, cada vez mais mulheres têm chegado à maternidade mais tarde. Aos 35 anos ou mais, muitas mulheres chegam à maternidade com mais estabilidade profissional e pessoal. Em contrapartida, passam a conviver também com cobranças biológicas e inseguranças. Esse comportamento tem levantado o alerta de especialistas que sugerem atenção aos cuidados na gravidez nessa faixa etária e os impactos emocionais dessa escolha.

De acordo com o levantamento mais recente do IBGE, no Rio Grande do Norte mulheres que engravidam na faixas etárias entre 35 e 44 anos quase dobraram em 10 anos. O percentual de mães com 30 a 39 anos de idade subiu de 8,87% em 2014 para 15,00% em 2024. O de mães com 40 a 44 anos subiu de 2,29% para 4,18% no mesmo período.

O choro das gêmeas se mistura às risadas de Elza Tolentino. Aos 48 anos, ela vive pela primeira vez a rotina intensa da maternidade, uma realidade que, durante anos, pareceu distante. O sonho de construir uma família acompanhou o casal por muito tempo. Depois de uma gestação que não evoluiu e de sucessivas tentativas frustradas, eles decidiram procurar ajuda médica para engravidar. Foram três anos de tratamento, exames, idas frequentes à clínica.

A maternidade acabou ficando para depois, enquanto Elza priorizava o trabalho militar e outros planos de vida. Com o passar dos anos, porém, o desejo de ter filhos falou mais alto e o casal decidiu buscar ajuda médica para engravidar. “Os anos foram passando e a gente percebeu que precisava procurar ajuda. Foi muita luta.”, lembra Elza.

A fertilização in vitro veio depois de um longo processo de espera e persistência. Foi justamente essa persistência que transformou o sonho em realidade. “Isso não tem explicação, não tem dimensão, porque a felicidade é tão grande”, disse emocionada, com as duas bebês no colo – Carolinne e Catharina.

Foto: Alex Régi

Hoje, cercada pelas filhas de 2 meses e pela nova rotina, Elza encara a maternidade com mais maturidade e estabilidade. “Há uma frase que ela (a médica) me falou na última vez que nós nos vimos. A persistência de vocês é o que deu certo, você não quis desistir, você foi e acreditou que ia dar certo”, conta.

Assim como ocorreu com Elza, o adiamento da maternidade deixou de ser exceção e passou a fazer parte da realidade de muitas mulheres, que priorizam estabilidade profissional, financeira e realização pessoal antes de decidirem ter filhos. Depois de anos ajudando outras mulheres a viverem a terem seus filhos, a enfermeira obstétrica Maíra Ramos agora experimenta pela primeira vez o outro lado da história.

Aos 41 anos, ela está grávida do primeiro filho após anos conciliando o desejo de ser mãe com a construção da carreira. “Eu sempre planejei e desejei ser mãe, mas fui vivendo outras coisas. Fiz outra formação, a vida foi passando”, conta Maíra, no primeiro trimestre de gravidez. No fim de 2025, ela e o marido decidiram iniciar as tentativas de forma mais planejada, com acompanhamento médico motivado pelo desejo de gravidez em idade mais avançada.

O resultado positivo no teste veio acompanhado de surpresa. “Nunca tinha aparecido nenhum risquinho na minha vida toda. Quando vi os dois, fiquei muito feliz e também assustada. Eu me senti uma Mulher Maravilha. Muito fértil, saudável e empoderada”, conta sorrindo.

Mesmo trabalhando há 13 anos com gestantes, Maíra afirma que a experiência pessoal da maternidade trouxe sentimentos completamente diferentes dos vividos na profissão.

Segundo ela, observar ao longo dos anos histórias de amor de outras mães ajudou a amadurecer internamente o desejo de viver a própria gestação. “Eu via muita coisa bonita na maternidade delas. Fui me inspirando e percebendo que era possível ser feliz sendo mãe. Aí pensei: agora eu queria viver isso comigo”, revela.

Aos 41 anos, Maíra está grávida do primeiro filho após anos conciliando o desejo de ser mãe com a construção da sua carreira. Foto: Alex Régis

Medicina avança, mas idade amplia desafios

Os avanços da medicina reprodutiva ampliaram as possibilidades de gravidez em idades mais avançadas, permitindo que muitas mulheres realizem esse desejo com mais segurança. “Na prática clínica, vemos diariamente que a maternidade não tem um único tempo. Existem histórias que florescem mais cedo e outras que chegam depois dos 40, carregadas de maturidade, entrega e significado”, explica a ginecologista Adriana Leão.

Entre as principais complicações associadas à gestação tardia estão hipertensão gestacional, diabetes gestacional, prematuridade, abortamento espontâneo e alterações cromossômicas embrionárias. Apesar dos avanços da reprodução assistida ampliarem as possibilidades de gravidez após os 35 e 40 anos, especialistas alertam que a fertilidade feminina diminui naturalmente com o passar do tempo. Por isso, a recomendação médica continua sendo que a gravidez aconteça o mais cedo possível, sempre que houver desejo e condições para a maternidade.

Segundo Adriana Leão, técnicas como fertilização in vitro e congelamento de óvulos ajudam a preservar as chances de gestação, mas não garantem uma gravidez futura. “Quanto mais a idade avança, maiores são os desafios relacionados à concepção e à gestação”, afirma.

Segundo a ginecologista Maria Luisa Capriglione, entre os recursos disponíveis para mulheres em idade materna mais avançada está a biópsia embrionária, exame realizado durante a fertilização in vitro que permite analisar geneticamente os embriões antes da implantação no útero. “Mulheres acima dos 35 anos podem utilizar o estudo genético do embrião antes da implantação. Isso permite excluir embriões com alterações genéticas antes da gravidez”, explica a especialista.

Capriglione: mulheres acima dos 35 anos podem utilizar a biópsia embrionário, estudo genético do embrião antes da implantação | Foto: Cedida

Outro recurso cada vez mais procurado é o congelamento de óvulos, indicado principalmente para mulheres que desejam preservar a fertilidade enquanto ainda não decidiram se querem ter filhos ou não encontraram o momento ideal para a maternidade.

“Congelando os óvulos, a mulher consegue preservar a fertilidade para utilizar mais tarde, quando tiver certeza de que quer engravidar ou quando encontrar um parceiro”, afirma Capriglione. Segundo a médica, o principal risco da gravidez após os 35 anos está relacionado ao aumento das alterações genéticas embrionárias, que podem provocar abortamentos espontâneos, síndromes e malformações fetais.

Ginecologista Adriana Leão. Foto: Alex Régis

Ansiedade e culpa na rotina de quem tenta engravidar

A enfermeira Anny Aquino enfrenta silenciosamente a própria espera pela maternidade, desde a infância. Aos 32 anos, acompanha partos quase todos os dias, acolhe gestantes e orienta pacientes sobre fertilidade, mas há um ano e oito meses tenta engravidar sem sucesso. “Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, eu dizia: mãe”, relembra. Entre faculdade, casamento e a busca por estabilidade financeira, ela acabou adiando os planos da maternidade e hoje admite sentir a pressão do tempo passar.

Mesmo sendo profissional da saúde e conhecendo os processos da fertilidade, Anny afirma que a espera é emocionalmente desgastante. “Todo mês nasce uma esperança, mas quando a menstruação vem, vem também um luto silencioso”, desabafa. Apesar da ansiedade e das frustrações, ela diz que tenta se apoiar na fé e na esperança de que chegará o momento certo.

A psicóloga perinatal Magna Magalhães explica que a pressão em torno da maternidade também contribui para o sofrimento emocional de muitas mulheres. Segundo ela, desde cedo a sociedade associa a feminilidade ao papel de mãe, enquanto o relógio biológico reforça a sensação de urgência. “É uma ampulheta que fica ali lembrando a mulher de que o tempo está passando e os óvulos estão envelhecendo. Eles têm prazo de validade”, afirma.

Entre as mulheres que tentam engravidar, os impactos emocionais mais comuns são culpa, frustração e comparação social. A psicóloga relata que muitas pacientes se responsabilizam pela infertilidade antes mesmo de concluir a investigação médica. “Geralmente, a gente ouve muito sobre essa culpa: ‘Como meu corpo não funciona como o das outras mulheres?’” Para enfrentar o desgaste emocional provocado pelas tentativas frustradas de gravidez, Magna Magalhães defende acompanhamento terapêutico e fortalecimento da qualidade de vida.

Confira o vídeo:

Gravidez tardia cresce e desafia mulheres entre o sonho da maternidade e o relógio biológico

Ananda Miranda/Repórter

Tribuna do Norte

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