Com 48 anos, Elza Tolentino vive, pela primeira vez com o esposo, a rotina intensa da maternidade, uma realidade que, durante anos, lhes pareceu distante. Foto: Alex Régis
O relógio biológico passou a
disputar espaço com metas profissionais, independência financeira e planos
pessoais. No meio desse equilíbrio, cada vez mais mulheres têm chegado à
maternidade mais tarde. Aos 35 anos ou mais, muitas mulheres chegam à maternidade
com mais estabilidade profissional e pessoal. Em contrapartida, passam a
conviver também com cobranças biológicas e inseguranças. Esse comportamento tem
levantado o alerta de especialistas que sugerem atenção aos cuidados na
gravidez nessa faixa etária e os impactos emocionais dessa escolha.
De acordo com o levantamento
mais recente do IBGE, no Rio Grande do Norte mulheres que engravidam na faixas
etárias entre 35 e 44 anos quase dobraram em 10 anos. O percentual de mães com
30 a 39 anos de idade subiu de 8,87% em 2014 para 15,00% em 2024. O de mães com
40 a 44 anos subiu de 2,29% para 4,18% no mesmo período.
O choro das gêmeas se mistura às risadas de Elza Tolentino. Aos 48 anos, ela
vive pela primeira vez a rotina intensa da maternidade, uma realidade que,
durante anos, pareceu distante. O sonho de construir uma família acompanhou o
casal por muito tempo. Depois de uma gestação que não evoluiu e de sucessivas
tentativas frustradas, eles decidiram procurar ajuda médica para engravidar.
Foram três anos de tratamento, exames, idas frequentes à clínica.
A maternidade acabou ficando para depois, enquanto Elza priorizava o trabalho
militar e outros planos de vida. Com o passar dos anos, porém, o desejo de ter
filhos falou mais alto e o casal decidiu buscar ajuda médica para engravidar.
“Os anos foram passando e a gente percebeu que precisava procurar ajuda. Foi
muita luta.”, lembra Elza.
A fertilização in vitro veio depois de um longo processo de espera e
persistência. Foi justamente essa persistência que transformou o sonho em
realidade. “Isso não tem explicação, não tem dimensão, porque a felicidade é
tão grande”, disse emocionada, com as duas bebês no colo – Carolinne e
Catharina.
Foto: Alex Régi
Hoje, cercada pelas filhas de 2 meses e pela nova rotina, Elza encara a
maternidade com mais maturidade e estabilidade. “Há uma frase que ela (a
médica) me falou na última vez que nós nos vimos. A persistência de vocês é o
que deu certo, você não quis desistir, você foi e acreditou que ia dar certo”,
conta.
Assim como ocorreu com Elza, o adiamento da maternidade deixou de ser exceção e
passou a fazer parte da realidade de muitas mulheres, que priorizam
estabilidade profissional, financeira e realização pessoal antes de decidirem
ter filhos. Depois de anos ajudando outras mulheres a viverem a terem seus
filhos, a enfermeira obstétrica Maíra Ramos agora experimenta pela primeira vez
o outro lado da história.
Aos 41 anos, ela está grávida do primeiro filho após anos conciliando o desejo
de ser mãe com a construção da carreira. “Eu sempre planejei e desejei ser mãe,
mas fui vivendo outras coisas. Fiz outra formação, a vida foi passando”, conta
Maíra, no primeiro trimestre de gravidez. No fim de 2025, ela e o marido
decidiram iniciar as tentativas de forma mais planejada, com acompanhamento
médico motivado pelo desejo de gravidez em idade mais avançada.
O resultado positivo no teste veio acompanhado de surpresa. “Nunca tinha
aparecido nenhum risquinho na minha vida toda. Quando vi os dois, fiquei muito
feliz e também assustada. Eu me senti uma Mulher Maravilha. Muito fértil,
saudável e empoderada”, conta sorrindo.
Mesmo trabalhando há 13 anos com gestantes, Maíra afirma que a experiência
pessoal da maternidade trouxe sentimentos completamente diferentes dos vividos
na profissão.
Segundo ela, observar ao longo
dos anos histórias de amor de outras mães ajudou a amadurecer internamente o
desejo de viver a própria gestação. “Eu via muita coisa bonita na maternidade
delas. Fui me inspirando e percebendo que era possível ser feliz sendo mãe. Aí
pensei: agora eu queria viver isso comigo”, revela.
Aos 41 anos, Maíra está grávida do
primeiro filho após anos conciliando o desejo de ser mãe com a construção da
sua carreira. Foto: Alex Régis
Medicina avança, mas idade
amplia desafios
Os avanços da medicina
reprodutiva ampliaram as possibilidades de gravidez em idades mais avançadas,
permitindo que muitas mulheres realizem esse desejo com mais segurança. “Na
prática clínica, vemos diariamente que a maternidade não tem um único tempo. Existem
histórias que florescem mais cedo e outras que chegam depois dos 40, carregadas
de maturidade, entrega e significado”, explica a ginecologista Adriana Leão.
Entre as principais complicações associadas à gestação tardia estão hipertensão
gestacional, diabetes gestacional, prematuridade, abortamento espontâneo e
alterações cromossômicas embrionárias. Apesar dos avanços da reprodução
assistida ampliarem as possibilidades de gravidez após os 35 e 40 anos,
especialistas alertam que a fertilidade feminina diminui naturalmente com o
passar do tempo. Por isso, a recomendação médica continua sendo que a gravidez
aconteça o mais cedo possível, sempre que houver desejo e condições para a
maternidade.
Segundo Adriana Leão, técnicas como fertilização in vitro e congelamento de
óvulos ajudam a preservar as chances de gestação, mas não garantem uma gravidez
futura. “Quanto mais a idade avança, maiores são os desafios relacionados à
concepção e à gestação”, afirma.
Segundo a ginecologista Maria Luisa Capriglione, entre os recursos disponíveis
para mulheres em idade materna mais avançada está a biópsia embrionária, exame
realizado durante a fertilização in vitro que permite analisar geneticamente os
embriões antes da implantação no útero. “Mulheres acima dos 35 anos podem
utilizar o estudo genético do embrião antes da implantação. Isso permite
excluir embriões com alterações genéticas antes da gravidez”, explica a
especialista.
Capriglione: mulheres acima dos 35 anos podem utilizar a biópsia embrionário, estudo genético do embrião antes da implantação | Foto: Cedida
Outro recurso cada vez mais procurado é o congelamento de óvulos, indicado
principalmente para mulheres que desejam preservar a fertilidade enquanto ainda
não decidiram se querem ter filhos ou não encontraram o momento ideal para a
maternidade.
“Congelando os óvulos, a mulher consegue preservar a fertilidade para utilizar
mais tarde, quando tiver certeza de que quer engravidar ou quando encontrar um
parceiro”, afirma Capriglione. Segundo a médica, o principal risco da gravidez
após os 35 anos está relacionado ao aumento das alterações genéticas
embrionárias, que podem provocar abortamentos espontâneos, síndromes e
malformações fetais.
Ginecologista Adriana Leão. Foto:
Alex Régis
Ansiedade e culpa na rotina
de quem tenta engravidar
A enfermeira Anny Aquino
enfrenta silenciosamente a própria espera pela maternidade, desde a infância.
Aos 32 anos, acompanha partos quase todos os dias, acolhe gestantes e orienta
pacientes sobre fertilidade, mas há um ano e oito meses tenta engravidar sem
sucesso. “Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, eu dizia:
mãe”, relembra. Entre faculdade, casamento e a busca por estabilidade
financeira, ela acabou adiando os planos da maternidade e hoje admite sentir a
pressão do tempo passar.
Mesmo sendo profissional da saúde e conhecendo os processos da fertilidade,
Anny afirma que a espera é emocionalmente desgastante. “Todo mês nasce uma
esperança, mas quando a menstruação vem, vem também um luto silencioso”,
desabafa. Apesar da ansiedade e das frustrações, ela diz que tenta se apoiar na
fé e na esperança de que chegará o momento certo.
A psicóloga perinatal Magna Magalhães explica que a pressão em torno da
maternidade também contribui para o sofrimento emocional de muitas mulheres.
Segundo ela, desde cedo a sociedade associa a feminilidade ao papel de mãe,
enquanto o relógio biológico reforça a sensação de urgência. “É uma ampulheta
que fica ali lembrando a mulher de que o tempo está passando e os óvulos estão
envelhecendo. Eles têm prazo de validade”, afirma.
Entre as mulheres que tentam engravidar, os impactos emocionais mais comuns são
culpa, frustração e comparação social. A psicóloga relata que muitas pacientes
se responsabilizam pela infertilidade antes mesmo de concluir a investigação
médica. “Geralmente, a gente ouve muito sobre essa culpa: ‘Como meu corpo não
funciona como o das outras mulheres?’” Para enfrentar o desgaste emocional
provocado pelas tentativas frustradas de gravidez, Magna Magalhães defende
acompanhamento terapêutico e fortalecimento da qualidade de vida.
Confira o vídeo:
Ananda Miranda/Repórter
Tribuna do Norte

Nenhum comentário:
Postar um comentário